Amor pela biologia começou na escola, diz pesquisadora que lidera projeto de pele 3D no Rio

Por ANA BOTTALLO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) -

A vida da bióloga sérvia Vanja Dakic, 41, seguiu caminhos curiosos até levá-la ao cargo de gerente de métodos alternativos e parcerias da Episkin Brasil, subsidiária do Grupo L'Oréal. O principal projeto da empresa é produzir modelos tridimensionais de pele usados em testes de cosméticos e outros estudos, inclusive na indústria farmacêutica.

Separados por mais de 10 mil quilômetros em linha reta, Brasil e Sérvia têm pouco em comum. Ainda assim, Vanja (pronuncia-se "Vânia", em sérvio) decidiu deixar o pequeno país do leste europeu durante o doutorado em ciências morfológicas. "Vim para um ano de doutorado sanduíche [período de estudos no exterior] e estou há 14", contou, rindo, em entrevista na última quarta-feira (4) por videoconferência de sua sala no Instituto de Pesquisa e Inovação (Innova) da L'Oréal Brasil, na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro.

Casada com um brasileiro e mãe de gêmeos, a pesquisadora diz ter sido influenciada desde cedo por professores que despertaram seu interesse pela biologia, especialmente mulheres. "O amor pela biologia começou no ensino fundamental, com um professor que era apaixonado pela natureza e despertou isso em mim. Ele também me incentivou muito, me levava em competições [Olimpíadas de Biologia] todos os anos."

No ensino médio, outra professora reforçou o estímulo à participação em competições científicas. Vanja terminou o último ano em primeiro lugar e garantiu vaga direta na Universidade de Novi Sad, no norte da Sérvia, sem precisar prestar vestibular. "Aquilo virou uma chave de confiança dentro de mim. Pensei: é isso que quero fazer."

Formada em ciências biológicas pela Universidade de Novi Sad, seguiu para a pós-graduação em toxicologia e ecotoxicologia na mesma universidade, buscando entender como substâncias presentes no ambiente podem afetar hormônios do corpo humano.

Em um país pequeno como a Sérvia (6,6 milhões de habitantes, pouco mais que os 6,2 milhões da capital fluminense), diz, ela buscava ampliar tanto a área de pesquisa quanto a experiência pessoal. Mudou-se então para o Brasil no fim de 2011 com o marido e concluiu o doutorado na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), sob orientação do neurocientista Stevens Rehen, pesquisando a diferenciação de células-tronco em neurônios. "Isso me aproximou do que faço hoje, que é a criação de modelos celulares e teciduais em 3D a partir de restos de pele removidos em cirurgias plásticas."

Ela entrou para a Episkin em 2016, quando finalizava o doutorado. Essa transição foi a ponte entre ciência básica e aplicada no seu percurso, dicotomia frequente no meio científico.

"A ciência aplicada não existe sem a básica. O próprio exemplo da Episkin mostra isso: o primeiro modelo de pele em laboratório foi criado no fim dos anos 1970, início dos 80, e levou quase uma década para ser produzido em larga escala", afirma. A tecnologia evoluiu e foi transferida para o Brasil, onde passou a ser produzida em 2016. "Hoje, a rede reúne mais de 40 laboratórios associados dedicados a métodos alternativos ao uso de animais."

O modelo de pele artificial é produzido a partir de fragmentos de pele descartados em cirurgias plásticas, com consentimento dos pacientes. O material chega ao laboratório do Innova, onde as células são isoladas e cultivadas em pequenos inserts --recipientes plásticos com membranas-- com nutrientes necessários ao crescimento celular. Após 17 dias, os tecidos são avaliados para verificar diferenciação celular, viabilidade e ausência de contaminação.

Apesar de muitos processos já serem automatizados, Vanja mantém o hábito de dedicar às segundas-feiras à verificação dos modelos e à preparação de materiais para envio aos laboratórios que solicitaram os tecidos.

Hoje, sua rotina é mais voltada à gestão. "Como faço parte do projeto desde o dia zero, no começo eu ficava muito dentro do laboratório, o que é como uma terapia. Sinto falta daquela calma", conta. Atualmente, o trabalho envolve coordenação de equipes, treinamentos e iniciativas de educação científica, além do desenvolvimento de modelos cada vez mais complexos.

Sua equipe é majoritariamente feminina, o que ajuda a reforçar um ambiente em que diversidade e inclusão são temas constantes. Quando decidiu ter filhos, diz ter recebido apoio da empresa, mas ainda assim refletiu sobre o impacto da maternidade na carreira. "Não é exatamente uma barreira, mas é algo sobre o qual nós mulheres pensamos."

Ao olhar para trás, Vanja reconhece o papel decisivo de outras mulheres em sua trajetória. "Minha orientadora na graduação fica ali ao lado da minha mãe como uma figura feminina fantástica. E depois vieram outras líderes, outras chefes. Minha carreira sempre foi muito marcada por mulheres."