Paixão por formigas levou pesquisadora à direção do Instituto Biológico, em SP

Por ANA BOTTALLO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ana Eugênia Campos, 60, costuma chegar ao prédio do Instituto Biológico, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, subir até o quinto andar e pegar uma xícara de café feita por Márcia Rebouças, a mais longeva pesquisadora do local, com 64 anos de carreira e contando. A bióloga segue até sua sala, no mesmo andar, um espaço amplo com janelas com batentes de ferro, piso de taco de madeira e móveis de estilo antigo, e começa sua jornada.

A parte do seu dia com uma rotina para aí, desde que assumiu a direção do instituto. "Aprendi a lidar com a falta de rotina. A gente apaga incêndios, os problemas chegam e tomo decisões", disse ela à reportagem na tarde da última terça (3).

Campos está à frente da instituição, ligada ao governo estadual, desde 2019. Fundado em 1927, o instituto é um centro público de pesquisa dedicado à saúde vegetal e animal e à proteção ambiental. Ali são desenvolvidos estudos, diagnósticos e tecnologias para a produção de alimentos e para o controle de pragas e doenças de importância agropecuária. Hoje, são 187 funcionários.

Em quase um século, o instituto teve 18 diretores, sendo 14 homens e 4 mulheres, incluindo Campos --desde julho de 2025, o cargo de diretor-geral passou a ser chamado de coordenador.

"Sinto falta do laboratório, da parte de taxonomia, de sentar em frente à lupa e identificar as espécies de formigas. Isso é terapia para mim", relembra ela, que é especialista em mirmecologia, isto é, o estudo das formigas.

Formada em biologia pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia), Campos fez seu mestrado e doutorado na Unesp (Universidade Estadual Paulista), campus de Rio Claro. Em 1997, ela passou em um concurso público no Biológico (como é carinhosamente apelidado pelos funcionários) e lá ficou.

Antes de chegar ao comando da instituição, foi coordenadora de curso de pós-graduação, diretora do NIT (Núcleo de Inovação Tecnológica) e assessora da diretoria e vice-diretora do instituto. Foi a primeira diretora do NIT mulher --uma plataforma de aceleração de pesquisa e tecnologia--, que capta recursos para investimentos para aprimoramento de serviços agrícolas, por exemplo.

"Já sofri preconceito por ser bióloga, na época em que ainda era pesquisadora do instituto, por pessoas que perguntavam 'você é bióloga e está fazendo o quê aqui?', porque a maioria são agrônomos", diz Campos.

Ela afirma que o ambiente de trabalho no Biológico, hoje, é muito acolhedor. "É muito diferenciado, sou privilegiada por trabalhar aqui", diz, olhando para a vista de uma área de 12 hectares (120 mil metros quadrados). A sede do instituto, cujo prédio é tombado, foi construída em 1928.

Recentemente, Campos foi homenageada em um capítulo do livro "Women's Journey Through Myrmecology: An Inspiring Story" (a jornada das mulheres na mirmecologia: uma história inspiradora), publicação que reúne nomes importantes da entomologia global.

A paixão pelas formigas, diz a bióloga, veio da infância, mas não foi algo assim esperado. Ela tem memória de, aos cinco anos de idade, assistir a um programa de auditório chamado 8 ou 800, em que os participantes respondiam a perguntas sobre fatos diversos. "Tinha um pesquisador que, coincidentemente, era do Instituto Biológico, o zoólogo Mário Autuori [1906-1982], e ele era especialista em formigas saúvas. Fiquei muito impressionada com aquela pessoa que sabia tudo desses insetos."

O tempo passou e não pensou mais em Autuori. Mas, na hora de decidir o curso de graduação, optou pela biologia. Dentro da biologia, zoologia foi a disciplina que mais lhe chamou a atenção, e dentro dos animais, os insetos sociais (os cupins, as formigas, as abelhas e algumas espécies de vespas).

Na Unesp, sob orientação do entomólogo Harold Fowler (1950-2018), passou a trabalhar com as formigas-lava-pés (gênero Solenopsis), que têm uma importância médica devido aos acidentes que ocorrem com elas --nem tanto no Brasil, mas em outros países são um problema de saúde pública. Daí, seguiu para um período no exterior, dentro de um projeto de Fowler com apoio da USAID (agência do governo americano) e da Universidade de Austin (Texas). No doutorado, trabalhou com uma espécie de microvespa utilizada como controle biológico da broca-da-cana (um parasita).

"Com certeza eu fui influenciada na vida por essas duas figuras que admiro, o meu orientador, que me deu muitas oportunidades, e por Autuori. E anos depois vim para o Biológico, instituição onde ele também trabalhava. Parece destino, né?"

Seu laboratório hoje conta com cinco mulheres, jovens pesquisadoras que Campos diz formar com o mesmo interesse e desejo pelo conhecimento que ela mesma teve. "Não faço escolha por gênero, é por competência. Trabalho muito com mulheres e digo às jovens pesquisadoras que me procuram que façam a carreira, sejam taxonomistas, zoólogas, porque o Brasil é um país tropical e, com a diversidade que temos aqui, tem um mundo pela frente."

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