Moradores relatam incertezas em prédios a serem demolidos para futura sede do Governo de SP

Por CLAYTON CASTELANI E BRUNO SANTOS

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Visto da varanda do décimo andar do edifício Henrique, o monumento equestre ao Duque de Caxias supera as copas das árvores do parque Princesa Isabel, no centro de São Paulo. Do pedestal, o patrono da guerra forjado em bronze vigiava a retilínea avenida Rio Branco com alguns poucos carros rodando e moradores voltando a pé do trabalho no fim da tarde da última quinta-feira (5). O cenário contrastava com as congestionadas avenidas de outras partes da capital paulista durante o horário de pico.

É a paisagem sobre a qual o professor Odair Paulo Tognon, 51, pretendia descansar os olhos na aposentadoria. "Aqui seria a minha velhice", conta. Ele e todos os donos e locatários dos 45 apartamentos deverão deixar o prédio que desde 1956 está no bairro de Campos Elísios. O imóvel será demolido para abrir espaço ao futuro Centro Administrativo do Governo do Estado de São Paulo.

Na mesma calçada do Henrique, também irá ao chão o edifício Princesa, prédio de 1970 com 36 apartamentos de janelas pequenas que dão de frente para a escultura assinada por Victor Brecheret (1894-1955). Com o Princesa também desaparecerão uma pequena marcenaria e tudo o que existe na quadra 48, onde a reportagem ouviu relatos de incertezas e angústias provocadas por uma desapropriação anunciada há quase três anos, mas que ainda não foi explicada em detalhes para quem vai ter de sair.

"Desde que eu soube disso, pela televisão, tenho tomado remédios para me acalmar. A gente não sabe se eles vão tirar a gente à força, se vamos ter que assumir uma dívida de um novo imóvel. É uma situação constrangedora", conta Tognon.

Ao todo, estão previstas 312 desapropriações. Abordagens preliminares de representantes da gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) apresentaram possibilidades de acordos amigáveis mediante indenização justa, termo jurídico que, trocado em miúdos, indica preço de mercado.

O valor dos imóveis, porém, também traz insegurança aos proprietários. O bairro enfrentou forte desvalorização imobiliária provocada pela cracolândia, uma concentração de dependentes químicos que rondou diuturnamente as cercanias por décadas.

"É um problema que surgiu devido à própria incapacidade do Estado de lidar com o tráfico de drogas, com a cracolândia", diz o geógrafo Silvio Monteiro de Lima, 56, proprietário de uma unidade do Princesa há 20 anos. "Nossos imóveis foram desvalorizados. Com o preço de mercado eu não compro outro aqui [na região central]", reclama.

Neste momento, o governo diz estar mais perto de apresentar uma proposta concreta aos moradores porque no último dia 26 de fevereiro ocorreu o leilão que definiu o consórcio responsável pela obra e que, por contrato, também vai conduzir as expropriações, segundo a Secretaria de Parcerias em Investimentos, órgão estadual à frente do projeto.

Antes de conversar com os proprietários, o governo diz que precisa concluir etapas como mapeamento detalhado das edificações e das famílias que residem ou exercem atividades na área. Depois disso, avaliações feitas por peritos independentes garantirão indenizações compatíveis com o mercado local. Isso, segundo o estado, permitirá a aquisição de imóveis equivalentes na mesma região. Para os pagamentos, cerca de R$ 500 milhões foram reservados.

A construção de uma dezena de torres envidraçadas para abrigar 22 mil servidores públicos no entorno do parque é a aposta da gestão Tarcísio para requalificar a região. Com custo de obra estimado em R$ 6 bilhões e despesas de gestão e manutenção calculados em R$ 25 bilhões diluídos em 30 anos, a estrutura tem previsão de entrega para 2030.

Valores e ambições de difícil compreensão para Amélia da Silva, 82, que chegou ainda menina no prédio e desde a morte do marido vive sozinha em uma estreita quitinete com paredes escondidas por armários e estantes apinhadas de utensílios e bibelôs. "Pra quê vão derrubar um prédio desse?", questiona.

Em um ambiente de desconfiança, a presença de uma dezena de usuários de crack sob uma marquise entre o Henrique e o Princesa gera reclamações dos proprietários sobre eventual interesse do governo em manter uma "minicracolândia" na calçada para desvalorizar os imóveis. Queixa rebatida pela gestão Tarcísio, que informou fazer abordagens humanizadas a grupos em situação de vulnerabilidade e ter reduzido os índices de furto e roubo na região em 2,73% e 18,9%, respectivamente.

O que está claro na quadra 48, única a ser demolida por completo no entorno do parque, é um sentimento de inconformismo dos moradores. Após anos vivendo na mais degradada área do centro, eles se sentem expulsos no momento em que surgem sinais de recuperação do bairro.

Antes mesmo da chegada da sede do governo, a conversão da antiga praça Princesa Isabel em parque e uma persistente presença de agentes de segurança dissiparam a concentração de dependentes químicos. Essa ação tem sido tratada pelas gestões Tarcísio e do prefeito Ricardo Nunes (MDB) como o fim da cracolândia.

"Minha maior frustração é ver essa melhoria enquanto eu estou perdendo a minha casa", conta a servidora pública Danielle Fortunato, 48, que recebeu a reportagem já com parte dos seus objetos pessoais encaixotados no apartamento de 60 m² no terceiro andar do Princesa, imóvel onde ela mora desde 1984 e que pertence à família desde os anos 1970. "Tenho raiz aqui", diz.