Milícia e tráfico usam valas clandestinas como 'tecnologias de repressão' no território, aponta pesquisador
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A multiplicação de cemitérios clandestinos em cidades do Rio de Janeiro e outros locais do país revela uma "tecnologia de repressão" de grupos armados para garantir a impunidade e o controle do território. É o que aponta o livro "Onde os corpos desaparecem", do sociólogo Augusto Perillo (UFRRJ), da editora Autografia.
A obra, fruto de uma pesquisa de mestrado coordenada pelos pesquisadores José Cláudio Alves e Nalayne Pinto, mostra que o desaparecimento forçado, especialmente na Baixada Fluminense, é utilizado de forma sistemática por milicianos e facções do tráfico. O objetivo é duplo: eliminar desafetos e remover as vítimas das estatísticas oficiais de violência.
"Esses espaços acabam se tornando o que caracterizamos como cemitérios ou valas clandestinas. Trata-se de uma categoria mais ampla, que engloba lugares destinados à ocultação de corpos", diz Perillo.
Na Baixada Fluminense, e em outros locais do país, segundo o pesquisador, é comum o uso de rios, matagais, galpões abandonados, poços e terrenos baldios para esse fim.
O pesquisador analisou 14.935 denúncias feitas ao Disque Denúncia entre 2002 e 2021. Após excluir os casos que não se enquadravam como desaparecimento forçado, o estudo identificou 768 denúncias de valas clandestinas. As atualizações se restringiram até 2020.
Entre 2016 e 2020, Belford Roxo e Duque de Caxias foram as cidades da Baixada Fluminense que mais tiveram registros de valas clandestinas. A soma das denúncias dos dois municípios nesse período de quatro anos resultou no seguinte cenário: Duque de Caxias totalizou 96 valas clandestinas e Belford Roxo, 91.
O estudo conecta essa prática a raízes históricas do Brasil, desde o extermínio colonial até a ditadura militar (1964-1985). Segundo o autor, após a redemocratização do país, militares envolvidos em práticas ilegais de repressão migraram ou compartilharam técnicas com o crime organizado, difundindo o desaparecimento como forma de combate.
"Hoje, embora haja um discurso de queda nos homicídios em vários estados, os registros de desaparecimento aumentam significativamente. Isso sugere uma possível lógica: pessoas deixam de aparecer como mortas e passam a ser classificadas como desaparecidas", explica o pesquisador.
Um dos pontos que o livro propõe é o de resignificar o conceito de cemitério para estas covas clandestinas. A palavra "cemitério" carrega, segundo ele, também um componente religioso, de um sentido sagrado aos mortos.
"O que encontramos nesses contextos é exatamente o oposto: não há ritual nem dignidade, mas ocultação de cadáver e corpos humanos sendo descartados como lixo", diz o autor. "Prefiro 'vala clandestina' porque o termo evidencia essa dimensão de violência e desumanização, além de destacar o caráter político dessas práticas como forma de intimidação e demonstração de poder."
Para Adriano de Araujo, coordenador executivo da Associação Fórum Grita Baixada (AFGB), movimento social da Baixada Fluminense, que junto com um grupo de pesquisa da própria UFRRJ elaborou estudos sobre desaparecimentos forçados como uma das consequências da violência de Estado, os cemitérios clandestinos da região manifestam uma cruel estratégia.
"Essa 'geografia do crime' não apenas oculta corpos, mas enterra a memória e o direito ao luto, alimentando um imaginário de abandono onde a morte violenta é naturalizada. Esse estigma 'barateia' a omissão estatal, justificando o baixíssimo investimento em perícia e investigação, o que acaba por chancelar a impunidade desses criminosos", diz o cientista social.
ONDE OS CORPOS DESAPARECEM
- Preço R$ 59,90 (176 páginas)
- Autoria Augusto Torres Perillo
- Editora Autografia
- Lançamento no RJ 27/03 às 16h, na Livraria Autografia, centro.
- Lançamento em SP 11/04 às 11h, na Tapera Taperá, na Galeria Metrópoles, República.
