IA e pluviômetros ajudam a fechar rodovias antes de deslizamentos em SP

Por FÁBIO PESCARINI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Por três vezes em menos de uma semana em fevereiro, equipes de emergência ficaram de prontidão para fechar, a qualquer momento, algum ponto entre o Rio de Janeiro e Ubatuba (SP), da rodovia Rio-Santos, por causa de chuva excessiva. O alerta seria dado com ajuda de inteligência artificial a partir de análises meteorológicas.

O plano de emergência não precisou ser colocado em ação, diferentemente do que ocorreu em outras duas rodovias de ligação ao litoral paulista neste verão, a Mogi-Bertioga e Tamoios, que precisaram ser fechadas preventivamente por causa de tempestades.

Concessionárias responsáveis por estradas de São Paulo têm investido em contratação de serviços especializados de previsão do tempo, inclusive com inteligência artificial, além de instalação de pluviômetros e estações meteorológicas, principalmente em trechos de serra, onde é maior a incidência de deslizamentos e quedas de árvores.

Cinco dispositivos de monitoramento pluviométrico e de alerta geotécnico foram instalados em 2025 na Mogi-Bertioga, um dos principais caminhos para quem vai ao litoral norte paulista.

Foi a partir das medições feitas pelos dispositivos, além de cálculos matemáticos, que a estrada acabou fechada ao tráfego três vezes entre janeiro e fevereiro deste ano.

Na última delas, no dia 22 do mês passado, três árvores de grande porte caíram sobre a rodovia, quando o trânsito estava bloqueado, evitando o que poderia ter sido uma tragédia ?em um período de 72 horas choveu 282 mm no trecho de serra, volume considerado muito alto.

"Foram fechamentos assertivos", diz Augusto Leonardo Schein, diretor de engenharia e operações da concessionária Novo Litoral.

A empresa assumiu a concessão da rodovia em novembro de 2024. Até então, as medições de chuva eram realizadas nos extremos, na região de Mogi das Cruzes, na Grande SP, e em Bertioga, no litoral. Com os novos pluviômetros, constatou-se neste verão que o volume de chuva na serra foi mais do que o dobro dos outros dois pontos.

As informações dos dispositivos são passadas em tempo real para o centro de controle operacional da concessionária, que contratou serviço metereológico da agência Climatempo.

O fechamento da Mogi-Bertioga é decidido com cálculos que envolvem o volume de chuva em 72 horas e a quantidade de água que cai no momento. A partir daí chega-se a um coeficiente de precipitação crítica.

Com coeficiente 4, equipes ficam de prontidão. Se o índice chegar a 6, a estrada é fechada ?no bloqueio do último 22 de fevereiro, o indicador apontou 7,2.

Outra empresa do setor, a Motiva (antiga CCR) intensificou o uso de inteligência artificial com a recente integração do monitoramento das rodovias administradas pelo grupo em um único centro de controle operacional em Jundiaí (a 60 km da cidade de São Paulo).

Uma das ações com uso de IA está a análise de dados a partir de serviços meteorológicos das empresas Climatempo e da Catavento (no caso da Rio-Santos). As condições do tempo de todas as rodovias são monitoradas em tempo real.

"Sabemos quanto deverá chover, os milímetros [de acumulado de chuva] esperados e a previsão do tempo para os próximos 15 dias em cada uma das rodovias", diz Neucelia Cevalhos, gerente do CCO da Motiva.

A plataforma da Climatempo foi customizada pela empresa. Há monitoramento das condições climáticas praticamente a cada quilômetro das estradas. Um enorme telão mostra um mapa com as rodovias e graduação em cores, ate o vermelho, de alerta para chuva mais intensa.

*

CINCO DICAS PARA DIRIGIR NA CHUVA

Aumente a visibilidade e seja visto

Acenda os faróis baixos para melhorar a visibilidade, especialmente em áreas com neblina ou chuva intensa

Redobre a atenção nas curvas

Pista escorregadia exige cuidados extras, especialmente em trechos sinuosos

Evite freadas bruscas

Uma frenagem forte pode travar as rodas e resultar na perda de controle do veículo

Em caso de tempestade, pare em local seguro, não no acostamento

Se a visibilidade estiver muito baixa ou o tempo severo, procure um posto de serviço ou uma cidade próxima para aguardar até que as condições melhorem

Mantenha os vidros livres de embaçamento

Use o ar-condicionado ou a ventilação do veículo para evitar que a visibilidade seja prejudicada pela condensação

Fonte: RioSP

*

A Rio-Santos, administrada pelo grupo, já foi fechada para a circulação de veículos sete vezes em quatro anos de concessão. Em todas essas situações, houve impactos diretos na pista, como a queda de pedras, árvores e lama.

A empresa lembra que em abril de 2022, cerca de um mês após a assinatura do contrato, a rodovia foi atingida por um episódio extremo de chuvas. Em alguns pontos, o volume acumulado ultrapassou 680 mm, provocando uma série de ocorrências ao longo dos 270 km da estrada concedida, entre os municípios de Ubatuba (SP) e Itaguaí (RJ).

As chuvas intensas resultaram em quedas de barreiras, pedras, árvores e lama sobre a pista, totalizando mais de 450 ocorrências.

A partir daí, a concessionária RioSP (que faz parte do grupo) passou a adotar protocolos, dividindo a estrada em 27 pontos de 10 km cada. Quando os índices pluviométricos atingem 100 milímetros acumulados em 24 horas ou 120 milímetros em 72 horas, é acionado um plano de mobilização para possível interdição da rodovia.

"Essa informação vem para time de engenharia e geotécnica, que criou uma matriz de decisão [que envolve o fechamento]", diz Rodolfo Borrel, gerente de operações da RioSP.

Atualmente há sensores espalhados por áreas de encostas para alerta de possíveis movimentações. Porém, está sendo desenvolvido um projeto para acompanhamento com imagens de satélite, ainda sem data de implantação.

Na rodovia dos Tamoios, estrada que liga o Vale do Paraíba a Caraguatatuba, no litoral norte e que serviu de modelo para Mogi-Bertioga e Rio-Santos, quando o acumulado de chuva em 72 horas ultrapassa um limite de segurança, a serra antiga (como é chamado o trecho de descida) é interditada.

Segundo a concessionária Tamoios, o protocolo de segurança prevê que equipes de diferentes áreas da empresa analisam dados de estações meteorológicas instaladas no trecho, que indicam o acumulado de chuva, conferem alertas e boletins emitidos por órgãos de meteorologia, acompanham informações sobre a previsão do tempo para as próximas horas e verificam as condições visuais das encostas e taludes da rodovia por meio de inspeções e vistorias.

Houve dois fechamentos recentes, em dezembro de 2025 e em fevereiro passado, quando foram registrados deslizamentos de terra e pedra ?a estrada só foi totalmente liberada após 37 horas.

Porém, na manhã da última sexta-feira (13) ocorreu um fechamento inesperado depois de um deslizamento de terra no km 80 da Tamoios, antes de qualquer alarme. A liberação ocorreu cerca de duas horas depois.

Augusto Leonardo Schein, da Novo Litoral, diz que cada vez mais é preciso investir em prevenção por causa da intensificação de eventos climáticos extremos.

No ano passado, por exemplo, a empresa contratou alpinistas para acessar locais íngrimes na serra da Mogi-Bertioga para deslocar pedras soltas que poderiam rolar para a rodovia.

"A serra da Mogi-Bertioga é historicamente sensível a escorregamentos e os fatores climáticos estão acontecendo", diz.