Consumo de pornografia por crianças e adolescentes tem série de consequências negativas e afeta desenvolvimento
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O consumo de pornografia por crianças e adolescentes apresenta uma série de consequências negativas para essa faixa etária, como misoginia, impacto sobre o desenvolvimento adequado da sexualidade, impulsividade e dificuldades nas relações sociais convencionais, podendo se refletir em comportamentos problemáticos ao longo da vida adulta. A avaliação é de psicólogos e pesquisadores especialistas, que acompanham os estudos voltados à compreensão dos efeitos desse tipo de material.
Eles têm ressaltado que o consumo de vídeos pornográficos vêm crescendo diante da facilidade de acesso, o que tem motivado cobranças pela melhor regulação do setor. Uma das ferramentas é o ECA Digital, que entra em vigor nesta semana, e tem o apoio até de produtores dessa indústria. O setor disse adotar medidas para conter o avanço de conteúdo inapropriado, como os que exploram o machismo para atrair mais atenção (leia mais abaixo).
A pornografia também espelha a misoginia e dessensibiliza o jovem em relação à dor e ao desconforto alheio, afirmam especialistas. A visualização massiva, segundo eles, chega a se assemelhar ao consumo de drogas na perspectiva do prazer imediato provocado e seus efeitos negativos.
"O consumo frequente de pornografia vai provocar uma liberação intensa e contínua de dopamina, que é um neurotransmissor ligado à motivação e também ao prazer. E esse excesso causa uma hiperestimulação do sistema de recompensa, tornando atividades normais saudáveis e menos prazerosas. É comparável ao efeito de drogas", afirma a psicóloga especialista em sexualidade Leiliane Rocha, autora do livro "Como falar sobre sexualidade com crianças: um guia prático de educação infantil para pais" (Editora Astral Cultural, 2024).
"A pornografia hoje em dia não é revista somente de mulher pelada. É uma pornografia que subjuga a mulher", diz ela.
Leiliane afirma ainda que a pornografia mostra "a degradação do corpo feminino" e faz o cérebro dos jovens buscarem práticas extremas. "Há essa dessensibilização e eles começam a sentir prazer somente quando vão ao extremo. Então, a gente vai alimentando comportamentos perversos, abusivos, violentos."
Ainda segundo a psicóloga, há tratamentos comprovados para que esse jovem entenda a sexualidade de forma mais saudável. "Então, a pessoa que acessa pornografia desde a infância, na adolescência, ela pode crescer com essa visão distorcida do corpo, do relacionamento, das suas emoções."
CONTATO COMEÇA NA INFÂNCIA, APONTA PESQUISADORA
A opinião sobre pornografia é compartilhada por Nay Macedo, pesquisadora de vulnerabilidades digitais de estudantes do ensino médio. Ela aponta que o primeiro contato com a pornografia ocorre ainda na infância em diversas ocasiões.
"Muitas vezes ele não é intencional. Às vezes a criança está navegando na internet ou ela está tendo acesso a algum tipo de conteúdo, um desenho, um filme, uma série, um anime. E, às vezes, isso aparece até numa propaganda de um joguinho simples, gratuito, que ela está fazendo, que ela está acessando ali. Então, essa exposição vai sendo repetida e vai reduzindo a reação emocional a esse conteúdo", afirma.
Para a psicóloga, não há pornografia benéfica. "Gayle Dines, que é uma das maiores especialistas dessa área, afirma que a pornografia é a otimização da violência, da dominação, da submissão. Então, para a gente entender que existe algum tipo de pornografia respeitosa, consensual, a gente teria que distorcer toda essa noção do que é a própria indústria da pornografia", diz.
No livro "Pornland: Como a pornografia sequestrou nossa sexualidade", Gail Dines faz uma critica à forma como a indústria pornográfica migrou das margens para o centro da cultura contemporânea. A autora argumenta que vivemos em uma "pornificação" da sociedade, onde a estética e objetificação do corpo feminino ditam os padrões da publicidade, da moda e da música.
Em palestra, a juíza Vanessa Cavalieri, da Vara de Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Rio de Janeir, afirma que é comum receber casos de estupro coletivos em que os autores estudam em uma escola de classe média e replicam uma lógica que trazem de vídeos pornográficos cujos comportamentos inadequados são normalizados.
"Tem algo que me chama atenção nesses casos, em todos eles, porque os senhores sabem que quase sempre os fatos são filmados e a gente vê o vídeo do ato infracional: é que claramente esses meninos estão reproduzindo uma cena que eles viram em um vídeo, de sexo explícito, pornográfico. Então, há uma repetição de um comportamento de algo que eles nem deveriam ter acesso", afirma.
Ainda segundo a juíza, um estudo inglês a que ela teve acesso afirma que a faixa etária com maior misóginos é a de adolescentes e, segundo ela, isso seria provocado pelo acesso precoce à pornografia.
Um estudo recente sobre o impacto da pornografia entre jovens apontou que 90% do acesso ocorre por dispositivos móveis. Em seis países europeus, 54% dos adolescentes já tiveram contato com pornografia online e 24% consomem semanalmente. Nos Estados Unidos, 68,4% relatam exposição. Na Espanha, 60% dos meninos e 11% das meninas (13?17 anos) usam a internet para atividades sexuais. O levantamento não traz dados do Brasil.
SETOR DIZ APOIAR ECA DIGITAL E PREPARAR MATERIAIS EDUCATIVOS
Paula Aguiar, presidente da Abipea (Associação Brasileira da Indústria e Profissionais do Entretenimento Adulto) disse "que o nicho que ficou mais popular da pornografia nas ultimas décadas é esse, dos filmes mais machistas, porque os homens sempre tiveram mais liberdade para acessá-los. E de fato, enquanto qualquer produção midiática, esse tipo de nicho tem suas problemáticas de consumo".
"Esse foi um dos motivos para que a indústria do entretenimento adulto se organizasse em um momento bem propício: a implementação do ECA Digital. Nesse exato momento, além de comemorar e apoiar completamente essa lei desde que foi sancionada, estamos preparando uma série de materiais educativos para esclarecer tanto os pais e tutores de menores quanto aos profissionais que fazem a produção adulta", acrescenta Paula.
Ela reconheceu o impacto da pornografia entre jovens. "É unanimidade mundial entre os profissionais de saúde mental e sexualidade, que crianças e adolescentes não têm maturidade para consumir pornografia", diz.
O ECA Digital, que entra em vigor nesta tterça (17), é uma legislação feita para proteção de crianças e adolescentes na internet. Entre as medidas, as plataformas devem remover casos de assédio sexual, cyberbullying e incentivo ao suicídio ou à automutilação. Ela também são obrigadas a identificar e remover conteúdos que indiquem exploração, abuso sexual, sequestro ou aliciamento de crianças.
