Mantiqueira de Minas atrai visitantes com azeite, bem-estar e turismo rural

Por MARCELO TOLEDO

MARIA DA FÉ, MG E DELFIM MOREIRA, MG (FOLHAPRESS) - Um pequeno córrego de águas cristalinas margeia a pacata cidade mineira de Delfim Moreira. O local, cercado pela densa vegetação da Serra da Mantiqueira, ainda abriga onças, principalmente pardas, mas relatos de moradores apontam para a esporádica presença das onças-pintadas.

A cidade e sua vizinha, Maria da Fé, apostam na combinação entre a natureza exuberante, clima frio e belezas rurais para atrair um fluxo cada vez maior de turistas em busca de paz no campo, mas que também passaram a enxergar na região mineira da Mantiqueira um polo na produção de iguarias como azeite biodinâmico.

Os destinos surpreendem pelas paisagens da Mantiqueira em praticamente todo lugar, o que tem atraído visitantes de São Paulo -principalmente do Vale do Paraíba e da capital-, Rio de Janeiro e do interior de Minas Gerais.

Delfim Moreira tem 8.000 habitantes, dos quais só 3.000 no núcleo urbano e o restante espalhados pelos cerca de 50 bairros rurais. Por isso, mantém suas características de décadas atrás, como usar um alto-falante da igreja, no centro, para comunicar a morte de moradores.

Localizado a médios 1.200 m de altitude, possui picos com mais de 1.800 m, num povoado iniciado em 1703, quando o bandeirante Miguel Garcia Velho chegou à região e encontrou ouro, primeiro motor da economia local.

Depois surgiram a agricultura de subsistência, o fumo e o feijão e, no final do império, o Barão de Bocaina trouxe da Suíça mudas de marmelo, que mudaram a economia local até a década de 1970.

Hoje, também produz cerveja artesanal, após a descoberta no início dos anos 2000 da qualidade da água, mas é principalmente na vasta zona rural que estão os principais atrativos.

No espaço Sathiri, uma propriedade rural de 27 hectares na divisa com municípios paulistas, os visitantes praticam o turismo de bem-estar. A 70 km de estrada de terra de Campos do Jordão, o local oferece um banho de floresta. Na imersão, os visitantes passam por três nascentes que alimentam o rio Sapucaí.

O local foi comprado pelo casal Michele Mendes e Angelo Amarante em meio à pandemia e, antes mesmo de ter destinação turística, foi usado por eles em busca de cura natural, como diz a psicóloga e terapeuta holística.

Michele conta que o Sathiri virou projeto de vida depois de ela ter burnout em seu antigo emprego. "A proposta é tirar as pessoas da rotina, com um espaço com comida vegana saudável e vivências que buscam silenciar as pessoas, para que elas se desconectem do mundo lá fora", diz.

A estrutura das oito trilhas foi desenvolvida por Amarante, que é engenheiro mecânico e ex-executivo do setor industrial.

Depois de o visitante ser recebido com chá de gerânio e capim-limão, ele vai para o banho de floresta, que inclui as trilhas de contemplação, meditação no bosque das orquídeas e uma caminhada às cegas num jardim sensorial, que termina num ateliê ao ar livre. Nele, o turista pinta numa tela o que sentiu na experiência e leva sua produção para casa. O roteiro dura quatro horas e custa R$ 190 por pessoa.

Contemplação também foi a aposta do restaurante Serra Clara, no bairro Barreirinhas, para atrair seus clientes. Inicialmente um açougue e uma pequena mercearia com apenas três mesas, o local virou restaurante que oferece um bolinho de costela imperdível, saborado com uma vista privilegiada da Mantiqueira.

ESCRITO NAS ESTRELAS

Já na fazenda Verde Oliva, que produz o azeite homônimo, as decisões sobre a produção, como as datas de pulverização, são definidas pelo calendário lunar. Segundo o proprietário, Luiz Yamaguti, o objetivo é trazer a energia do cosmos para a terra, para que a planta tenha vitalidade.

Por lá, os visitantes são levados para conhecer os processos de produção. Os 3.600 pés de oliveira da Verde Oliva produzem até 2.000 litros de azeite extra-virgem por safra para o mercado nacional, disse o gestor da propriedade, Guilherme Milani.

Outra opção, sempre tendo a Mantiqueira como paisagem, é se aventurar no capril Serra do Rosário, criado há sete anos pela atriz Clara Oliva Antoniazzi e o luthier Fernando Mendonça Meyer.

Mediante agendamento, os visitantes podem fazer um tour pela oficina de queijo de cabra e participar de um almoço regado a ervas frescas colhidas no entorno por R$ 150 (não inclui alcoólicos).

O passeio começa pelo preparo inicial do queijo, seguido por uma visita às cabras, onde são apresentadas as formas de manejo dos 30 animais, dos quais 10 produziam leite quando a Folha esteve no local. Depois, os visitantes retornam ao queijo para seguirem o processo de coagulação com enzimas.

Para quem quer aventuras não necessariamente gastronômicas, a fazenda Boa Esperança oferece oito cachoeiras de fácil acesso a partir da sede. Uma caminhada de 20 minutos de caminhada leva ainda ao encontro de dois córregos, o Boa Vista e o da Onça.

O local, a 1.500 m de altitude, com picos a 1.800 m, tem 211 hectares e fica a 35 km de estrada de terra de Campos do Jordão. É uma rota bastante frequentada por motoristas de 4x4.

O local cobra R$ 30 de taxa de visitação, que acontece das 10h às 18h, e abriga nove chalés. "Delfim Moreira ainda está sendo descoberta pelas pessoas, mas quem vem se encanta", diz Samara Pineschi, proprietária do local.

A produtora rural Mirta Bonifácio descobriu a vizinha Maria da Fé em 2013 e se encantou com o projeto de plantio de oliveiras que estava sendo desenvolvido ali.

Dois anos depois, comprou a fazenda com 1.500 plantas produzindo azeite e montou um restaurante para receber os visitantes. Cada árvore produz em média dez quilos de azeitonas por ano. O lugar é um dos cerca de 15 empreendimentos turísticos em operação na cidade, segundo dados da prefeitura.

"As fazendas começaram a se preparar para receber turistas em 2018, mas após a pandemia percebemos que eles começaram também a se hospedar na cidade", diz o secretário de Cultura e Turismo, José Mauricio Ribeiro.

Na fazenda Santa Helena, as 3.200 oliveiras são mantidas diariamente ao som de música clássica, propagada por 70 caixas de som das 6h às 18h. Aos finais de semana, os turistas podem conhecer a propriedade, que tem 44 hectares de área de preservação, e almoçar no restaurante do local.

Após um dia intenso, o visitante ainda pode apreciar o pôr do sol na fazenda Olivais de Quelemém, a 1.650 m de altitude, de onde é possível contemplar boa parte da Mantiqueira mineira.