Universalização do atendimento é desafio para tratar diabetes no SUS, dizem especialistas

Por LUIS EDUARDO DE SOUSA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há 13 anos, Daiane Aparecida Ribeiro Moreira, 41, perdeu a mãe por complicações da diabetes. Segundo ela, a mãe não levava o tratamento a sério, e os sintomas foram progredindo: dores, feridas e problemas de visão, quadro que resultou em um infarto do miocárdio.

Hoje, Daiane, também diabética, conduz com seriedade seu tratamento. Visita o médico da atenção primária regularmente e retira a insulina em um centro de saúde de Campinas, no interior paulista, onde vive. Falhar com o tratamento não é uma opção, afirma. Ela avalia como bom o atendimento público.

Apesar do exemplo de Daiane, o Brasil vive uma situação complexa em relação ao controle de doenças crônicas, entre elas a diabetes, que avança na esteira de outras enfermidades.

A expectativa para os próximos anos é de que a doença aumente em incidência, segundo especialistas, resultado do avanço da obesidade e da falta de acesso ao tratamento. Essa estimativa acende o alerta para outras doenças, como a insuficiência renal e a cegueira, decorrentes da diabetes.

Estima-se que o país tenha cerca de 16 milhões de diabéticos, mas não há consenso sobre o número. Essa incerteza se deve, em parte, à falta de diagnósticos da diabetes, causada tanto pela falta de estrutura quanto pela falta de autocuidado, problema semelhante ao observado com a obesidade.

E a falta de notificação da doença é especialmente preocupante porque especialistas esperam um crescimento de casos nos próximos anos, e o descontrole dos índices glicêmicos pode levar a mais complicações pela doença e mais custos ao SUS (Sistema Único de Saúde).

Para o endocrinologista Wellington Santana, pesquisador e professor de endocrinologia na UFMA (Universidade Federal do Maranhão), medidas para controlar a diabetes passam por ações indiretas. Uma delas seria favorecer o consumo de alimentos in natura por meio de incentivos fiscais, medida já defendida por pesquisadores de obesidade.

É que diabetes e obesidade estão ligadas, explica o médico. "Os ultraprocessados são, em boa parte, ricos em açúcares, e o consumo exagerado descamba para o aumento glicêmico".

O consumo frequente de alimentos açucarados leva a picos de glicemia, acelerando a resistência à insulina em pessoas predispostas. Pode ainda resultar no superávit calórico e no aumento da gordura corporal, por sua vez associado à piora no efeito da insulina.

"Diminuir o consumo de ultraprocessados e aumentar a ingestão de alimentos naturais ou minimamente processados teria um impacto importante no controle da glicose, que se traduz em benefícios a longo prazo", afirma Santana.

Isso é, contudo, um desafio a ser enfrentado pela desigualdade de acesso a alimentos de qualidade no país.

Em relação ao tratamento de pessoas já diagnosticadas, o SUS tem boa estrutura para os tipos 1 e 2 do diabetes. No entanto, essa estrutura precisaria ser mais homogênea, pois hoje se concentra nos grandes centros urbanos, avaliam os especialistas.

"Uma parte da população é atendida de forma bastante adequada no SUS, com fornecimento de insulinas, medicações e acompanhamento constante. O problema ocorre quando olhamos para o interior que, por vezes, não tem um centro médico ou um especialista, e o paciente fica desassistido", afirma a médica Flávia Coimbra, diretora da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e professora da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.

Flávia trabalha na Santa Casa de Belo Horizonte, onde diz receber pacientes de cidades do interior sem acesso a oftalmologista, por exemplo. A visita a esse especialista é importante em casos mais delicados da doença, por complicações como a retinopatia diabética, que causa perda progressiva e silenciosa da visão ?e pode cegar, se não tratada.

Santana afirma que outro problema contribui para a centralização do tratamento em grandes cidades: a falta de especialistas. Embora maior parte do acompanhamento possa ser realizado na atenção primária, o diabetes tipo 2 (mais comum) requer consultas com especialistas, sobretudo o endocrinologista.

Em nota, o Ministério da Saúde afirma que expandiu a atenção primária com a retomada do Mais Médicos, chegando a 27 mil profissionais em atividade.

A pasta diz ainda que estabeleceu 15 indicadores de qualidade no novo cofinanciamento federal da APS, incluindo o cuidado à pessoa com diabetes, que engloba consultas, exames, visitas domiciliares e avaliação dos pés. Os repasses federais passam a ficar vinculados à qualidade desses serviços.

CANETAS EMAGRECEDORAS

Ainda que os hábitos alimentares preocupem, os especialistas dizem enxergam como positivo os avanços na indústria farmacêutica para tratamento do diabetes.

Um dos principais remédios, dizem, é a dapaglifozina, conhecida pelo nome comercial Forxiga. O remédio, usado para diabetes tipo 2, mostrou bons resultados também o tratamento de insuficiência cardíaca e doença renal crônica. Ele foi incorporado ao SUS em 2020.

Há uma expectativa entre os médicos pela incorporação dos análogos de GLP-1 à saúde pública, ao menos para pacientes que têm a diabetes e outras comorbidades.

"Se disponibilizados ao menos para a população que mais precisa, podemos afirmar que seria esse o maior acontecimento positivo para o tratamento de diabetes dos últimos anos", diz Santana.

Embora tenham se popularizado por seus efeitos no emagrecimento, remédios como Ozempic, Wegovy e Mounjaro foram inicialmente desenvolvidos para diabetes.

"São bons em proteção renal, cardiovascular, hepático, e não apenas um controlador de glicose. Embora o preço seja um desafio, é preciso calcular o custo de hospitalizações que o estado vai gastar a longo prazo, para dosar o custo benefício", afirma Flávia.