Quantidade de rios da mata atlântica com água boa cai, mostra novo levantamento
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O número de rios da mata atlântica com água de qualidade boa em 2025 caiu em relação ao ano anterior, segundo um novo levantamento publicado nesta quinta-feira (19). O estudo aponta a falta de saneamento como o principal obstáculo para a melhoria do quadro no bioma.
O IQA (Índice de Qualidade da Água), produzido pelo programa Observando os Rios, aponta um cenário de estagnação em patamar negativo nos últimos anos. Para fazer o novo retrato, de janeiro a dezembro de 2025, foram realizadas 1.209 análises em 128 rios e corpos d?água, localizados em 86 municípios de 14 estados do país.
Dos 162 pontos monitorados (115 em comum com os locais avaliados em 2024), apenas 5 tiveram classificação boa (3,1%), enquanto 127 foram apontados como regulares (78,4%), 25 como ruins (15,4%) e 5 como péssimos (3,1%). Este é mais um ano em que nenhum ponto analisado atingiu a qualidade ótima.
Em 2024, dos 145 pontos monitorados, 11 apresentaram qualidade boa (7,6%); 109, regular (75,2%); 20, ruim (13,8%); 5, péssima (3,4%).
O trabalho de monitoramento, coordenado pela Fundação SOS Mata Atlântica, contou com a atuação de 133 grupos voluntários. A divulgação dos dados emite um alerta às vésperas do Dia Mundial da Água, celebrado no próximo domingo (22).
Gustavo Veronesi, coordenador do Observando os Rios, destaca que a falta do saneamento básico onera os cofres públicos, diante do aumento de internações e de buscas de atendimento em unidades de saúde por doenças relacionadas ao contato com água imprópria, entre outros problemas.
"A sociedade toda perde com a falta de saneamento básico, os ecossistemas da mata atlântica perdem. A ausência do tratamento de esgoto significa que as pessoas podem ficar doentes com o contato ou ingestão dessa água de má qualidade", diz.
Em um comparativo entre 2025 e 2024, o número de pontos que perderam qualidade foi maior do que os que apresentaram recuperação. Os rios Pratagy, em Maceió, e Mamanguape, em Rio Tinto (PB), estão entre os seis pontos que saíram de "regular" para "ruim".
A dona de casa Diana Ribeiro Sabino, 39, mora às margens do rio Tietê, em um trecho no limite entre Guarulhos e São Paulo, onde houve uma piora na qualidade da água (agora é classificada como ruim), segundo a pesquisa. Ela relata que sente na pele os efeitos de conviver com a poluição.
Mãe de cinco filhos, ela conta que, nos dias de calor, o odor toma o ambiente e, nos de chuva, a água do rio invade a casa da família, causando doenças. O caçula, principalmente, sofre com crises de bronquite.
"A gente vive aqui porque não tem outra opção", diz. "Eu peguei micose na minha pele da enchente do ano passado e é muito ruim. A gente não consegue expressar o que a gente vive. É só a pessoa vivendo aqui mesmo para entender o que a gente passa."
A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) afirma, em nota, que nesta região do bairro Itaim Paulista está previsto, até 2028, o investimento de R$ 621 milhões do programa Integra Tietê. Mais de 1,8 milhão de pessoas serão beneficiadas com ampliações da coleta e tratamento de esgoto, tanto em Guarulhos quanto na capital paulista, diz a empresa.
"Vale ressaltar que as condições observadas no ponto citado [pela reportagem] são influenciadas por todo o trecho anterior do Tietê, que percorre áreas densamente ocupadas. As condições do rio dependem de várias iniciativas além da ampliação do saneamento básico", afirma também o comunicado.
Para Veronesi, os dados do relatório mostram que o país está longe de alcançar as metas do Novo Marco Legal de Saneamento, que propõe a oferta de acesso à água potável para 99% população e coleta e tratamento de esgoto para 90% até 2033.
"Essa estagnação dos indicadores [na pesquisa do Observando os Rios] mostra que o Brasil precisa avançar muito para chegar naquele ideal colocado pelo Novo Marco de Saneamento. Os rios nos contam que essa meta ainda está bastante distante", frisa.
Entre os poucos exemplos de melhora está o rio Betume, em Pacatuba (SE), que passou da classificação regular para boa, enquanto o rio Capivari, em Florianópolis, e o córrego Itaguaçu/Itaquanduba, em Ilhabela (SP), avançaram de "ruim" para "regular".