Humanos e outros animais, como rãs e macacos, compartilham gosto musical
SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - Tanto os seres humanos quanto uma ampla gama de outros animais (de grilos a macacos, passando por rãs e aves) têm preferências semelhantes em termos sonoros -grosso modo, uma espécie de gosto musical compartilhado por parte considerável do reino animal.
A sobreposição está longe de ser perfeita. É uma associação estatística, e não de gostos idênticos, de acordo com o estudo sobre o tema que saiu nesta quinta-feira (19) na revista Science. Ainda assim, os resultados são relevantes o suficiente para reforçar a ideia de que as conexões evolutivas entre os seres vivos também acabaram produzindo um tipo de senso estético comum na natureza.
Ou, como escreveu o naturalista britânico Charles Darwin em seu livro "A Ascendência do Homem e a Seleção Relacionada ao Sexo", de 1871, algumas espécies "têm quase o mesmo gosto por aquilo que é belo que nós temos". A frase de Darwin, responsável por formular a primeira versão coerente da teoria da evolução, é citada pela equipe do novo estudo como ponto de partida para seus experimentos.
Liderados por Logan James, do Departamento de Biologia Integrativa da Universidade do Texas em Austin (EUA), os pesquisadores montaram um design experimental que não poderia ser mais simples. Eles reuniram uma biblioteca de 110 pares de sons produzidos por animais de 16 espécies e os apresentaram a um total de pouco mais de 4.000 voluntários humanos, recrutados pela internet no mundo todo.
Ouvindo cada um dos pares de sons, as pessoas tinham de dizer de qual dos dois elas "gostavam mais". O pulo do gato da ideia é que os cientistas já sabiam de antemão que um dos sons de cada par era o preferido pelos membros da própria espécie que os produz.
Eles citam o caso dos machos de rãzinha-túngara (Engystomops pustulosus), cujo canto pode ter uma versão simples ou outra mais complexa, com adornos na melodia -um solo de guitarra mais difícil de fazer, digamos, se o macho fosse um roqueiro humano. Ocorre que as fêmeas do anfíbio costumam preferir a versão do canto mais elaborada em mais de 80% das vezes.
O mesmo vale para os outros sons -em geral vocalizações, mas nem sempre. Na amostra utilizada para a pesquisa, o grau de preferência por um dos sons de cada par pelos próprios bichos varia de 55% a 93%.
A primeira conclusão é que, em média, existe uma correlação significativa, do ponto de vista estatístico, entre as preferências dos animais e as dos seres humanos -ou seja, se um som era o preferido dos bichos, a tendência é que o mesmo valesse para os humanos.
E essa tendência aumenta conforme a intensidade da preferência dos próprios animais, embora a variação seja pequena, em números absolutos. Somando todos os "estímulos" (os sons), o "gosto" humano concorda com o dos animais da espécie emissora em 54% das vezes. Se a predileção dos animais por um dos sons é de 2 para 1, ou de 67%, o número sobe para 56,4% nos humanos. Por fim, se a preferência animal é de 3 para 1, chega a 59,5% nos ouvintes da nossa espécie.
Além disso, quando tinham de escolher o som preferido (e não o som de que menos gostavam), os voluntários do estudo decidiam com mais rapidez (51 milésimos de segundo mais rápido, para ser exato). E também conseguiam fazer a mesma escolha mais de uma vez de forma relativamente consistente. Isto é, se ouviam um par de estímulos, escolhiam o seu predileto e depois tinham de fazer a seleção escutando de novo aquele par, sua capacidade de escolher o mesmo som era melhor do que o que seria esperado se eles estivessem chutando na segunda vez.
Os pesquisadores também promoveram ligeiras distorções no som original, para verificar se versões exageradas das vocalizações e outros estímulos sonoros poderiam produzir uma reação ainda mais positiva dos ouvintes. Num dos casos, chamados emitidos por rãs ficaram mais graves de forma artificial, o que aumentou a preferência por eles tanto no caso dos anfíbios quanto no dos humanos.
Outro elemento que parece ser visto como prazeroso ou interessante, de forma quase universal, é a presença de variações mais "decorativas" no som, como trinados (uma alternância rápida entre "notas musicais" próximas) -esse tipo de virtuosismo atrai tanto animais quanto seres humanos.
Logan James e seus colegas também tentaram verificar se fatores como conhecimento musical dos ouvintes e hábito de ouvir sons de animais na natureza tinham algum impacto sobre o gosto dos voluntários. Aparentemente, porém, as coisas não estão relacionadas. O único fator que parece influenciar as decisões é a quantidade média de tempo que as pessoas passam ouvindo música ao longo do dia: quanto mais as pessoas ouviam música, mais elas tendiam a concordar com o "gosto" dos animais.