Cidades da zona da mata mineira têm disparada de casos suspeitos de doenças infecciosas após enchentes

Por ARTUR BÚRIGO

BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - Quase um mês após as chuvas que deixaram 73 mortos na Zona da Mata Mineira, as cidades mais atingidas enfrentam agora um cenário de aumento de casos suspeitos de doenças infecciosas, possivelmente agravado pelas enchentes.

Em Juiz de Fora, que registrou o maior número de mortos (65), a preocupação é principalmente com a hepatite A, cujos casos já vinham crescendo no município antes das chuvas.

Em 23 de fevereiro, véspera das enchentes, a prefeitura informou que haviam sido registrados 65 casos no ano e que a alta era pontual, associada ao aumento de notificações em todo o país.

Nesta quinta (19), a gestão municipal diz que são 248 casos de hepatite A em 2026, uma alta de 6.100% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando eram 4 casos.

O infectologista Rodrigo Souza, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e médico em dois hospitais no município, reforça que houve aumento no número de internações por hepatite A neste ano.

Ele explica que a enchente pode contribuir para a multiplicação dos casos ao comprometer o abastecimento de água ou contaminar poços artesianos, por exemplo.

"Pode haver eventos secundários relacionados à enchente por contaminação e também porque pessoas ficam desalojadas, aglomeram, e as condições de higiene se tornam mais precárias. Então, um doente pode contaminar outras pessoas", diz.

A hepatite A pode ser transmitida pelo consumo de alimentos contaminados, pelo contato próximo com pessoas infectadas e também por relações sexuais desprotegidas.

"O ideal é vacinar as pessoas mais expostas. Não temos identificado [entre os casos confirmados] um perfil muito claro, mas a literatura recomenda que pessoas em situação de rua e homens que fazem sexo com homens sejam grupos prioritários para essa vacinação", afirma o especialista.

Procurada, a Prefeitura de Juiz de Fora disse que tem reforçado a orientação à população sobre cuidados essenciais, como o uso de preservativos, a higienização adequada de alimentos, o consumo de água potável e proteção ao entrar em contato com água de enchentes.

O município disse que ampliou o público-alvo de vacinação para incluir gestantes e contatos domiciliares ou sexuais de casos confirmados entre 11 e 39 anos, mas que não há recomendação de imunização para quem teve contato com água de enchentes.

O Governo de Minas afirmou que destinou 5.000 doses da vacina contra hepatite A para Ubá e 10 mil para Juiz de Fora, além de ter enviado para as duas cidades 17.500 frascos de hipoclorito de sódio -desinfetante utilizado para evitar a contaminação de água e alimentos.

O Ministério da Saúde disse que encaminhou kits com medicamentos e insumos com capacidade para atender até 13.500 pessoas e que reforçou a vigilância e o apoio técnico, com envio de equipes especializadas e orientações para detecção e controle da hepatite A.

Em Ubá, que registrou oito mortos em decorrência das chuvas e foi atingida por dois episódios de enchentes na mesma semana, a principal preocupação é a leptospirose. A doença é geralmente contraída pelo contato com água ou solo contaminados pela urina de animais infectados.

A cidade já teve uma morte confirmada pela doença, de uma mulher de 33 anos.

O último boletim divulgado pela prefeitura, em 16 de março, indicava 118 casos suspeitos, sendo que 41 deles estavam em investigação e 57 aguardavam coleta do exame. Outros 19 foram descartados.

O infectologista da UFJF destaca que a leptospirose pode ser confundida com outras doenças, como a dengue, por apresentar sintomas semelhantes, como febre, dor de cabeça e dores no corpo.

"Depois, 90% das pessoas melhoram nessa fase, e muitas vezes nem se pensa em leptospirose. O que estamos vivendo hoje é um momento adequado para considerar a doença", diz Souza.

Ele afirma que o tratamento deve ser iniciado em pacientes com sintomas e histórico de exposição a enchentes mesmo antes do resultado dos exames, já que casos mais graves podem evoluir com insuficiência renal ou comprometimento do fígado.

Procurada, a Prefeitura de Ubá afirmou que orienta a população sobre a prevenção de doenças relacionadas às enchentes e que monitora os casos suspeitos de leptospirose.

A gestão municipal disse não recomendar a quimioprofilaxia como medida de rotina para a doença, com base em protocolos do Ministério da Saúde.

A estratégia envolve o uso de antibióticos, como doxiciclina e azitromicina, para prevenir a infecção em pessoas expostas ao risco. Em Juiz de Fora, a Secretaria de Saúde também não indica o uso profilático.

O infectologista da UFJF, porém, afirma seguir orientação de nota técnica da Sociedade Brasileira de Infectologia e do governo do Rio Grande do Sul, elaborada após as enchentes que atingiram o estado em 2024.

O documento recomenda a adoção de quimioprofilaxia para pessoas expostas à água de enchente por período prolongado.

"Houve uma revisão sistemática que apontou que a quimioprofilaxia não fazia diferença [para leptospirose], mas estudos menores posteriores indicaram alguma vantagem. Essa nota orienta que o médico avalie o grau de exposição do paciente para decidir pelo uso ou não", afirma.

O Ministério da Saúde afirmou à Folha que a quimioprofilaxia é indicada apenas em situações de alto risco.