Como é o Santuário de Elefantes Brasil, em Mato Grosso
CHAPADA DOS GUIMARÃES, MT (FOLHAPRESS) - Longe de qualquer multidão de visitantes, as elefantas Maia, Guillermina e Bambi se aproximam da cerca e vão ao encontro de uma equipe de tratadores que oferece alimentos e aplica medicamentos. Depois de finalizados os cuidados veterinários, elas decidem como aproveitar o restante da manhã no cerrado.
Assim começa o dia no Santuário de Elefantes Brasil (SEB), localizado na Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, que abriga cinco fêmeas da espécie asiática. Todas tiveram passagens por circos ou zoológicos.
A Folha esteve na instituição no final de fevereiro. (Leia reportagem sobre como o santuário questiona o padrão de cativeiros.)
A garoa que caía durante a visita era motivo de alegria para as moradoras. Para a maioria delas, a vida anterior em confinamento significava a privação do contato com poças de lama, um dos passatempos preferidos da espécie.
Quem está acostumado a observar elefantes em zoológicos se espanta ao vê-los imersos em uma área com vegetação a perder de vista. Em respeito ao bem-estar, pessoas externas não podem se aproximar muito da cerca, já que os animais estão habituados a ter contato só com os tratadores.
As cinco moradoras têm 279,7 mil metros quadrados à disposição, cerca de 55,9 mil m2 por paquiderme. Em comparação, o recinto atual da elefanta do Zoológico de São Paulo mede 1.500 m2, e a instituição planeja expandi-lo para 8.628 m2.
O habitat das fêmeas asiáticas é apenas uma das áreas do santuário: também há espaços para fêmeas africanas e machos asiáticos, ambos vazios no momento. Cada zona tem o próprio centro veterinário, uma construção do tamanho de um galpão com estruturas para isolar os tratadores dos mamíferos. Os habitats são subdivididos em recintos, com cercas que permitem separar os animais se necessário.
Cerca de 80% da dieta é composta pela vegetação do cerrado, e as próprias elefantas escolhem quais plantas comer. Como suplemento, o SEB oferece frutas, legumes e cereais para cada moradora. As porções diárias variam 210 kg a 360 kg. O funcionamento do local, uma instituição privada, é mantido por meio de doações.
A equipe de veterinários aproveita os dois momentos de alimentação, um pela manhã e outro no final da tarde, para cuidar dos paquidermes.
Bambi, com idade estimada em 60 anos, chegou a Mato Grosso em 2020 e passou mais de quatro décadas em circos. A reportagem a viu balançar a cabeça para os lados de modo repetitivo, um movimento ligado a traumas e estresse. O americano Scott Blais, fundador do santuário, afirma que o comportamento ocorre desde antes da transferência.
Depois de comer abóboras e beterrabas, a elefanta encosta o rosto na cerca. Ela foi treinada para se colocar na posição quando a cuidadora dá um comando específico, e a pose deixa seus olhos acessíveis para a aplicação de um colírio com uma seringa. Bambi é 90% cega e se orienta pelos demais sentidos, segundo Blais.
Guillermina, de 26 anos, também foi condicionada a obedecer a um sinal dos veterinários e coloca a pata sobre a cerca, para que os tratadores possam borrifar uma solução higienizadora. Ela passou a maior parte da vida em um recinto de concreto no Ecoparque de Buenos Aires, na Argentina.
O solo que um elefante toca impacta diretamente a saúde. Esses animais precisam de terrenos macios e com inclinações, características por vezes ausentes em locais sob cuidados humanos. Blais diz que muitas elefantas chegaram ao local sem ter recebido tratamento ao longo da vida.
Rana, de 65 anos, é a moradora com idade mais avançada. Viveu em picadeiros por quatro décadas e permaneceu durante sete anos em um zoológico em Aracaju, até ser transferida ao santuário em 2018. A elefanta não consegue articular a pata dianteira esquerda e caminha com o membro esticado, provavelmente por uma lesão causada no circo, de acordo com o fundador.
Como forma de aliviar suas dores, a equipe de cuidadores a treinou para mergulhar os dois membros dianteiros em um tanque de concreto com água morna e alguns produtos, similar a um escalda-pés. O tratamento é diário, e cada sessão dura cerca de 20 minutos.
A argentina Florencia Altamirano é uma das cuidadoras dos animais e conversou com a reportagem depois de tratar as patas de Rana. Antes de chegar ao SEB, trabalhou no Ecoparque de Buenos Aires.
A presença de funcionários de diversas nacionalidades faz do santuário um local trilíngue. O português, o inglês e o espanhol se misturam nas conversas dos tratadores e na lousa com as atividades da semana. Há também uma quarta língua: a vocalização das "meninas", como as elefantas são apelidadas pela equipe.
Ainda no país natal, Altamirano cuidou da elefanta Pupy, que foi transferida a Mato Grosso em abril de 2025 e faleceu em outubro do mesmo ano. Ela se emociona ao relembrar a passagem do animal pelo SEB e diz que a liberdade é o maior diferencial. "Tudo é muito mais parecido com a vida natural, de onde elas nunca deveriam ter saído."
Com exceção das cercas, das trilhas para passagem de veículos e dos centros veterinários, quem visita o santuário tem a sensação de estar em uma porção intocada do cerrado. A percepção não é totalmente verdadeira. No passado, havia um pasto de gado na propriedade, e a área passa por um processo de regeneração, diz a bióloga Marina Schweizer, coordenadora do setor de pesquisas da instituição.
O santuário é também o lar de duas cadelas, dois gatos, uma cabra, uma ovelha e mais de 30 galinhas, que por vezes entram nos recintos e interagem com os paquidermes. O SEB também abriga um centro de reabilitação de fauna para indivíduos resgatados pela Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso.
Blais diz que os elefantes estão entre as espécies mais inteligentes da Terra e que o santuário abre espaço para a socialização. "É uma chance de elas explorarem a vida em termos diferentes. A vida é delas, sem ditarmos o que é."
Ele afirma que Maia, hoje com cerca de 58 anos, tinha excesso de energia e criava conflito com outras fêmeas antes de ser transferida, em 2020. Depois de chegar ao santuário, ela deixou de se envolver em brigas e aparenta gostar da presença das companheiras.
Nos próximos meses, o SEB pode receber um "menino" pela primeira vez: o elefante Sandro, que vive no zoológico de Sorocaba (SP). A caixa de transporte, um contêiner azul desenhado conforme as dimensões do animal, já está pronta.
Também há possibilidade de chegada de outras duas fêmeas: Maison, que está em Ribeirão Preto (SP), e Baby, do antigo zoo do parque Beto Carrero World, em Penha (SC). Os três casos envolvem disputas na Justiça.
"As ações da Maison e da Baby estão em fase inicial ainda, coleta de provas, audiências e convencimento do juiz para um primeiro julgamento", afirma Raphael Bontempi, advogado e diretor do santuário.
Segundo ele, o processo de Sandro é o mais avançado, com sentença em primeira instância a favor da transferência, mas o Tribunal de Justiça de São Paulo ainda precisa julgar um recurso da Prefeitura de Sorocaba. Bontempi diz esperar que a decisão ocorra ainda no primeiro semestre de 2026.
O advogado também afirma que os laudos de necropsia de Kenya e Pupy, as elefantas que faleceram no santuário pouco tempo após a chegada, ainda não estão disponíveis.
Hoje, o SEB tem autorização para receber até 15 paquidermes, mas há planos de construir mais 1,2 milhão de m2 de recintos. Quando as obras terminarem, a capacidade será superior a 50 animais, segundo Blais, o que seria suficiente para abrigar toda a população de elefantes em cativeiros na América do Sul.