'Peixe grande' com trânsito na gestão Nunes tramou conta falsa em meu nome , diz vice-prefeito de SP
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Três integrantes da Rota deixavam o gabinete do vice-prefeito de São Paulo, coronel Ricardo Mello Araújo (PL), no fim da manhã da última terça-feira (17). Era uma visita de cortesia ao ex-comandante da tropa de elite da Polícia Militar paulista. Na véspera, ele havia recebido membros de uma organização ruralista.
Nome indicado por Jair Bolsonaro (PL) na chapa que o elegeu ao lado do prefeito Ricardo Nunes (MDB) em 2024, o coronel cita reuniões com diversos setores e até contatos recebidos pelo Instagram para confirmar o que ele chama de uma ampla rede de aliados unidos por valores comuns aos apoiadores do ex-presidente, que está preso desde novembro de 2025.
Uma dessas conexões, na cidade gaúcha de Sant'Ana do Livramento, fronteira com o Uruguai, o teria alertado para uma suposta abertura de uma conta bancária em seu nome. Os autores, segundo ele, planejavam fazer depósitos que poderiam ser associados a propina de empresas do ramo do transporte coletivo.
A tentativa de golpe teria partido de dois integrantes de um partido político com acesso ou mesmo cadeira no primeiro escalão da prefeitura. "É peixe grande, é gente alta, entendeu? Eu sei quem é", diz Mello Araújo, acrescentando que não divulga os nomes dos supostos envolvidos por ainda não possuir provas.
Questionada sobre a denúncia, a Prefeitura de São Paulo disse que o próprio vice-prefeito registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil, "a quem cabe apuração dessa natureza". A gestão Nunes também afirma que não há relação entre a denúncia com qualquer atividade da administração municipal.
Nos bastidores, porém, o caso é tratado como uma nova crise envolvendo atitudes e declarações do vice. Dois membros da administração próximos de Nunes classificaram a questão como muito grave, mas disseram que o prefeito tem pouco a fazer diante da recusa de Araújo em revelar os nomes.
Eles também negaram que exista uma campanha na cúpula do governo municipal para isolar o vice. Uma dessas fontes ainda afirmou que o prefeito tem feito movimentos para integrar Araújo a decisões da administração, sobretudo em áreas com as quais ele tem afinidade.
Nunes teria, por exemplo, escalado o vice para coordenar as discussões sobre o novo contrato da operação delegada com a Polícia Militar, que deverá ser anunciado em breve.
Em um movimento para arrefecer ânimos, um auxiliar do prefeito sugeriu que alguns integrantes do gabinete que se mantêm distantes do coronel busquem mais contato com ele.
Seria uma forma de amenizar especulações sobre um clima de celebração com a possibilidade do licenciamento de Araújo diante da expectativa de que ele seja um dos nomes indicados por Bolsonaro para concorrer ao Senado.
O coronel refuta, no entanto, que a discussão sobre seu futuro político esteja ligada a algum abalo na sua relação com Nunes.
Ele diz ter total liberdade para percorrer o corredor revestido de jacarandá que separa os gabinetes de prefeito e vice no quinto andar do edifício Matarazzo. "Pergunto por aqui [mostra o celular]: tá muito ocupado aí? Vou lá e falo com ele."
Alguns episódios de desencontro na relação entre prefeito e vice, porém, ocorreram quando eles estavam a uma distância bem maior do que os poucos passos que separam seus gabinetes.
Durante viagem de Nunes ao Japão e à China em abril do ano passado, Araújo exonerou três funcionários lotados na Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, sem avisar ao prefeito, numa decisão que ele descreveu como "a bem do serviço público", sem dar detalhes.
Ainda no período em que esteve interinamente no cargo, o coronel barrou a liberação de uma emenda para a realização de um simpósio de vôlei cujo valor, de R$ 200 mil, ele considerou muito alto.
Situações que, segundo o vice, podem ter desagradado grupos com trânsito na prefeitura.
Um dos funcionários exonerados foi o então secretário-executivo de Segurança Alimentar, Carlos Eduardo Batista Fernandes, que estava na cota do Solidariedade.
Presidente nacional do partido, o deputado federal Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, criticou a menção feita ao caso. "A gente está lidando com um maluco, que sai atrás de todo mundo, esculhambando todo mundo."
Já o autor da emenda negada pelo coronel, o vereador Sansão Pereira (Republicanos), afirmou ter relação cordial com o vice e que o evento, sem quaisquer irregularidades, foi realizado pela própria Secretaria Municipal de Esportes e Lazer. O titular da pasta, Rogério Lins, e seu partido, o Podemos, preferiram não comentar.
Listando denúncias que fez durante o mandato, o coronel ainda citou eventuais irregularidades na oferta de banheiros químicos em feiras-livres e supostos funcionários fantasmas no Centro de Atenção Psicossocial na região da cracolândia.
Araújo nega, porém, que tais episódios tenham provocado um rompimento com Nunes. Ele ainda cita apurações internas da prefeitura e a manutenção das exonerações que ele fez como exemplo de que o prefeito lhe dá ouvidos. "Todas as vezes que eu levei ao conhecimento dele, ele tomou providência."
Para o vice-prefeito, afirmações sobre o desgaste da sua relação com Nunes são "sacanagem" e partem exclusivamente de figuras insatisfeitas com "depurações" realizadas por ele. "Eu acabo sendo o patinho feio da história."