População de peixes migratórios de água doce caiu 81% em 50 anos

Por JÉSSICA MAES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sob a linha d'água de rios do mundo todo se desenrola uma crise de biodiversidade que passa despercebida para a maior parte da população. Peixes migratórios de água doce estão entrando em colapso em um ritmo mais rápido do que espécies terrestres e marinhas, segundo um relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) publicado nesta terça-feira (24).

Desde 1970, a população destes animais caiu 81%, colocando-os entre os mais ameaçados do planeta. Entre os maiores exemplares, os chamados "megapeixes", o índice chega a 94%.

O levantamento é de autoria da Convenção das Espécies Migratórias (CMS, na sigla em inglês), em parceria com a organização WWF e a Universidade de Nevada, Reno, e está sendo divulgado durante a COP15, cúpula da CMS que acontece em Campo Grande (MS) até domingo (29).

O estudo identificou 349 peixes de água doce que atravessam fronteiras de países e precisam de algum tipo de proteção sob a convenção. Destes, apenas 24 já fazem parte das listas da CMS ?seja por estarem ameaçados de extinção (97% deles) ou por precisarem de medidas de conservação transnacionais.

Das outras 325 espécies, a grande maioria ocorre na Ásia (205 espécies), principalmente na bacia do rio Mekong. Em seguida vem a América do Sul (55), onde as bacias fluviais prioritárias são as dos rios Amazonas (que se estende por Peru, Colômbia, Equador, Venezuela, Guiana, Suriname, Bolívia e Brasil) e Prata (que inclui Paraguai, Uruguai e Brasil).

"Os habitats de água doce cobrem uma fração mínima da água do planeta ?mas sustentam uma parcela desproporcional da biodiversidade e dos meios de subsistência humanos. Os peixes migratórios concentram esse valor ao longo de corredores conectados ou 'rotas de natação'", diz o relatório.

Muitas dessas espécies dependem de longas rotas conectam áreas de desova, alimentação e reprodução, frequentemente localizadas em países diferentes. Quando barragens, alterações de fluxo, poluição, pesca excessiva, degradação de habitats ou mudanças climáticas interrompem esses corredores, as populações podem diminuir rapidamente.

"A crise que se desenrola sob nossos cursos d'água é muito mais grave do que a maioria das pessoas imagina", diz Michele Thieme, vice-presidente da WWF nos Estados Unidos. "Os rios precisam ser gerenciados como sistemas conectados, com coordenação entre fronteiras e investimentos em soluções para toda a bacia agora, antes que essas migrações se percam para sempre".

Peixes de água doce são a principal fonte de segurança econômica e alimentar para bilhões de pessoas. A bacia do Mekong, por exemplo, produz 15% da captura mundial de peixes de água doce, com um valor anual de mais de US$ 11 bilhões (cerca de R$ 58 bilhões, na cotação atual).

Na amazônia, os peixes migratórios representam mais de 90% das capturas para consumo e sua importância econômica ultrapassa US$ 436 milhões (R$ 2,29 bilhões) por ano, diz o levantamento, que inclui um estudo de caso sobre a região.

"Os peixes migratórios da amazônia constituem uma parte importante do tecido biocultural da vida, tradições, visões de mundo, cosmologias e narrativas de muitos povos indígenas", dizem os pesquisadores.

Foram identificadas 21 espécies de peixes na bacia amazônica que migram entre países e se beneficiariam de medidas de proteção. Entre elas estão o tambaqui e a dourada ?maior migrador de água doce do mundo, viaja por 11 mil quilômetros em seu ciclo de vida, desde as nascentes andinas até a costa.

Emblemático no prato dos amazônidas, o tambaqui ocorre em vários países sul-americanos. Ele migra de acordo com diferenças no pulso de inundação: os adultos viajam rio acima para desovar no início das cheias por meio de canais que conectam rios a planícies inundadas e florestas alagadas.

No limiar para ser classificada como ameaçada de extinção, a espécie é considerada vulnerável à sobrepesca. Assim, o relatório da CMS propõe medidas de cooperação internacionais para sua preservação, como harmonizar períodos de defeso durante a desova, no início das cheias; coordenar a proteção de habitats em planícies de inundação (áreas-chave de alimentação); e compartilhar dados impactos sobre estoques pesqueiros.

A dourada está entre os peixes que o Brasil e outros governos da região pretendem proteger por meio do Plano de Ação Multiespécies para o Bagre Migratório Amazônico, que define medidas a serem adotadas ao longo da próxima década para garantir a manutenção das espécies.

O Brasil, que preside a COP15 pelos próximos três anos, também propôs a inclusão do pintado na lista da CMS, destacando a necessidade de ação coordenada na bacia do Prata, onde é ameaçado por barragens, mudanças no fluxo dos rios e pesca.