Iphan libera obras de estação no Bixiga da linha 6 do metrô de SP após resgate arqueológico

Por FÁBIO PESCARINI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) emitiu parecer técnico favorável pela retomada das obras de futura estação 14 Bis-Saracura da linha 6-laranja do metrô de São Paulo.

O documento com a autorização foi publicado no dia 18 de março.

As obras foram parcialmente paralisadas desde que cerca de 4.000 peças que seriam do quilombo Saracura foram encontradas em 2022.

A autorização se refere à área 4 do terreno da futura estação na região da praça 14 Bis, no Bixiga, região central de São Paulo.

Ao todo, foram analisadas seis áreas e o trecho era o último com vestígios arqueológicos investigados. A liberação ocorreu após relatório enviado pela concessionária Linha Uni, que tem a empreiteira Acciona à frente e foi supervisionado pela consultoria de arqueologia A Lasca.

Questionada sobre como será a retomada das obras e quando a estação deve ficar pronta, a Linha Uni disse apenas que protocolou em 9 de março o relatório preliminar de conclusão do resgate arqueológico da área 4 da futura estação e que aguarda manifestação do Iphan, o que já foi feito.

No parecer técnico, assinado pela arqueóloga Lívia Blaniona de Araújo Silva, o órgão diz ser favorável ao prosseguimento da obra e da adoção de uma metodologia de monitoramento arqueológico e coleta de vestígios arqueológicos apresentada pela concessionária para as próximas fases de escavações.

Ao Iphan, a Linha Uni afirma que a escavação do trecho foi feita por etapas. Na segunda delas, a 3,5 metros de profundidade, por exemplo, foram encontrados 547 vestígios arqueológicos.

A quantidade foi diminuindo até que na sexta e última etapa de escavação manual, a 7,5 metros de profundidade, nada foi encontrado.

Nessa parte do terreno, conforme o instituto, indícios apontam para a existência da estrutura de um possível terreiro e de outros objetos ligados à religiosidade afro-brasileira.

No documento enviado ao Iphan pedindo da continuidade da obra, o consórcio diz que, entre outros, os trabalhos serão acompanhados por dois arqueólogos e auxiliares de campo a partir de agora.

Conforme o órgão de preservação, deverão ser realizados acompanhamento arqueológico, a triagem do material já resgatado, a elaboração do relatório final das atividades e o desenvolvimento e a estruturação da musealização da estação de metrô.

No ano passado, a Linha Uni e o governo do estado apresentaram duas opções para exposição dos achados. Uma na entrada da futura estação e outra no mezanino.

Entre as peças encontradas estão materiais cerâmico, construtivo, vítreo, lítico, metálico, fragmentos em couro, louça, madeira, ossos, tecido, conchas e polímero.

Foram descobertas ainda estruturas de drenagem do córrego Saracura Grande, provavelmente relacionadas à política de saneamento na cidade de São Paulo entre as décadas de 1950 e 1970.

A futura estação receberá o nome Saracura em referência ao sítio arqueológico e à memória histórica da presença negra na região, associada ao antigo quilombo Saracura existente no local.

O resgate arqueológico da área 4 começou efetivamente há um ano, após um ultimato da concessionária e do governo estadual para que o Iphan liberasse os trabalhos.

Na época, a Secretaria de Parceria em Investimentos afirmou que se o Iphan não liberasse o resgate na área 4 do canteiro e o avanço das obras, o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) iria reavaliar a construção da estação de modo a evitar impacto no cronograma da inauguração.

A linha vai ligar a Brasilândia, na zona norte de São Paulo, à estação São Joaquim, na região central, com expectativa de transportar mais de 630 mil passageiros por dia. Com isso, o tempo de deslocamento neste trajeto, que hoje é feito em cerca de uma hora e meia por ônibus, será reduzido para 23 minutos.

O trecho entre Brasilândia e Perdizes tem previsão de entrega para outubro deste ano, em meio ao período eleitoral ?o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) deve concorrer à reeleição.

A operação do traçado entre Perdizes e São Joaquim, onde fica a 14 Bis, é esperado para 2027.

Com apenas 15,33% de obras concluídas, a estação é a mais atrasada das 15 que irão compor a nova linha. É a única que não tem poço perfurado. Seu funcionamento pode ficar para 2029, já com a linha em andamento.

Prometida inicialmente para começar em 2010, a obra da linha 6-laranja sofreu uma série adiamentos e teve início em 2015, com previsão de entrega cinco anos depois. Porém, a construção acabou paralisada em 2016, sendo retomada em 2020 com a atual concessionária.

Houve ainda a interrupção inesperada de sete meses em parte dos trabalhos, quando uma cratera afundou o asfalto na marginal Tietê, em fevereiro de 2022, por causa do rompimento de uma tubulação de esgoto, que também inundou a tuneladora responsável pelas escavações.

No ano passado, o governo autorizou estudos para ampliação da linha com mais seis estações, sendo quatro a partir do centro: Aclimação, Cambuci, Vila Monumento e São Carlos/Parque da Mooca, já no início da zona leste, e Morro Grande e Velha Campinas na direção norte.