Resistência
Gean destaca que tem levado a história de luta e de resistência dos povos indígenas do Brasil ao público por meio de suas obras.
A música é um portal muito grande na minha vida e na história do meu povo. É uma relação espiritual que parte da conexão com a terra e com a natureza.
Para o artista, a música tem a missão de construir consciência e bases para as futuras gerações, além de ser um instrumento de luta e resistência.
Minha relação com a música profissional tem sido nesse lugar de consciência indígena, de escrever uma história a partir da cosmovisão e da cosmopercepção indígena, como eu tenho processado todas essas informações, disse.
Esse é um trabalho consolidado de consciência e de muito respeito às minhas origens, mas também criando uma ponte entre mundos, contou.
A música mais antiga que a gente tem nesse país é a música indígena, ressaltou Gean sobre a necessidade de valorização dessa manifestação cultural.
Segundo ele, no início dos anos 2000, começa um movimento de visibilização de artistas indígenas: Estamos em meio ao processo de consolidar nossos nomes, trazendo nossa história, que é de muita resistência. E a música é um instrumento de luta, tanto a música tradicional, quanto a música que a gente faz para adentrar os espaços [artístico-profissionais].
Gean lembra que nessa época não havia mercado para seu trabalho.
Eu sempre compus aquilo que os meus olhos estavam vendo e o que eu estava vivenciando, eram contextos pessoais. Com estilo na linha da música popular brasileira, sempre tive essa relação muito forte com o território, mas não havia um mercado, vamos dizer assim, para artistas indígenas.
Sonora Brasil - 28 anos
Sonora Brasil é um dos projetos mais longevos do Sesc que, desde 1998, promove a difusão da música e das manifestações culturais brasileiras.
É um projeto que tem como foco a formação de ouvintes musicais e levar ao [público] conhecimento da sua própria riqueza e diversidade cultural, conta Leonardo Minervini, gerente interino de Cultura do Departamento Nacional do Sesc.
Cada artista ou grupo fará cerca de 30 a 40 apresentações em todas as regiões do país ao longo do ano.
É um projeto muito dinâmico, muito vivo, que responde a demandas conforme os diferentes contextos da cultura brasileira, explicou.
Segundo ele, a organização do festival trabalha para garantir essa diversidade cultural sempre representada e, a cada edição, trazer novidades da cena musical para o projeto.
Primeiro grupo de carimbó de mulheres indígenas do Brasil, Suraras do Tapajós (PA) também integra a turnê deste ano. Com repertório autoral e releituras da música paraense, o grupo traz letras que exaltam natureza, força feminina e ancestralidade.
O grupo baiano Cabokaji une referências indígenas e afro-brasileiras a ritmos eletrônicos e dançantes, com performance que envolve música, corpo e elementos rituais. No show, há referência a comunidades como Xukuru-Kariri (AL) e Fulni-ô (PE), além de trazer o debate sobre territorialidade e reparação histórica e ambiental.
Já o grupo Nderé Oblé reúne artistas do Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Costa do Marfim. A proposta é criar pontes entre ancestralidade e futuro por meio de música, palavra e corpo, dentro do circuito de música afro e indígena contemporânea.
Em relação à presença indígena na música brasileira, além dos instrumentos, há um atravessamento histórico que aborda temas como territórios, crenças, modos de vida, formas de fazer, de produzir e de se manifestar por meio da música, e que se entrelaçam com as matrizes africanas na formação do nosso país, ressaltou Minervini sobre o tema desta edição.
Edição 2024-2025
No biênio 2024-2025, circularam pelo Brasil dez combinações de grupos e artistas, fruto da curadoria do Sesc. Em shows inéditos, eles apresentaram uma mistura de suas referências, estilos e instrumentos.
O tema da edição foi Encontros, Tempos e Territórios, que gerou uma série documental produzida pelo SescTV. Os episódios da série estão no site do Sesc Digital, com acesso gratuito.