Quase metade das interrupções no transporte do Rio por tiroteios acontece em horário escolar

Por YURI EIRAS

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Quase metade dos episódios de interrupção no transporte público do Rio de Janeiro em razão de tiroteios aconteceu em horário escolar, aponta levantamento conjunto do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) com o Geni/UFF (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos) e o Instituto Fogo Cruzado.

A pesquisa considera impactos no transporte da capital fluminense no período entre janeiro de 2023 e julho de 2025. O levantamento indica que houve 2.228 interrupções no sistema de transporte da cidade, incluindo ônibus, trens, metrô e BRT. Deste total, 1.084 foram em dias letivos e horário escolar.

Quase 200 mil estudantes da rede municipal do Rio [188.694 alunos] tiveram o trajeto entre a casa e a escola, ou entre a escola e a casa, afetados por essas interrupções.

O estudo cruzou dados de sistemas de monitoramento do transporte público e dados de tiroteio do Instituto Fogo Cruzado. Além disso, usou georreferenciamento para localizar as escolas municipais e os dados de matrícula para estimar o número de alunos.

A metodologia considera eventos em um raio de até 250 metros como eventos de impacto direto à escola.

O levantamento mostrou que, na média, a duração das interrupções por conta de tiroteio é maior do que o turno escolar, o que inviabiliza chegada e saída de alunos. A média de interrupções é de sete horas por tiroteio. Em dias letivos e em horário escolar, o transporte ficou afetado durante 8 horas e 13 minutos.

A maioria das interrupções ocorreu por barricadas instaladas no trajeto (32,4% dos registros), seguida por operações policiais (22,7%). Foram contabilizados ainda manifestações (12,9%), ações criminosas no local (9,6%) e tiros ou tiroteios (7,2%) como motivações.

"Há anos chamamos atenção para o imenso impacto dessas operações policiais no fechamento de escolas, de unidades básicas de saúde, porque mesmo as operações que se iniciam num horário anterior ao escolar se mantêm durante o horário das aulas. Uma operação que começa às 5 horas da manhã, embora esse ainda não seja o horário escolar, impede as escolas da região", afirma Carolina Grillo, coordenadora do Geni/UFF.

Em nota, o governo estadual, através da secretaria de Educação, disse que mantém diálogo com as polícias Militar e Civil e possui parceria com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha para o programa de acesso mais seguro. De acordo com esse protocolo, escolas podem optar por fechar se sentirem insegurança na região.

A secretaria afirmou as escolas são orientadas a repor o conteúdo pedagógico perdido.

A secretaria municipal de Educação também usa o protocolo que prevê suspensão das aulas.

O bairro da cidade mais impactado pelas interrupções no transporte foi a Penha, com 633 episódios entre janeiro de 2023 e julho de 2025. Localizado na zona norte do Rio, o bairro é alimentado por estações de BRT, pontos de ônibus e estação de trem. Na região está o complexo da Penha, alvo da operação policial mais letal da história do país, em outubro de 2025, com 122 mortos.

As horas de interrupção somadas indicam que a Penha teria o equivalente a 176 dias sem circulação de transporte.

O estudo classificou as escolas municipais em riscos baixo, moderado, alto e muito alto, a depender do nível de confrontos na área. Segundo a pesquisa, 1 a cada 4 escolas está classificada com risco moderado, alto ou muito alto.

Das 120 classificadas de risco alto ou muito alto, 71 ficam na zona norte. A cidade do Rio tem cerca de 1.500 escolas municipais, que atendem crianças e adolescentes da creche ao ensino fundamental.

"As escolas de muito alto risco têm maioria de alunos matriculados negros, ao passo que as escolas de baixo risco têm apenas 35% dos seus alunos matriculados negros. Há impacto não só nos territórios de de população de baixa renda, como também uma concentração na população negra, a mais impactada por essas interrupções. A educação é importante via de mobilidade social. Temos trajetórias interrompidas pelas dificuldades de acesso a serviços públicos", afirmou Carolina Grillo.