Universidades eliminam segunda fase dos vestibulares após impacto mínimo na seleção

Por GUSTAVO GONÇALVES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os vestibulares próprios de universidades públicas passam por nova mudança e são concentrados em um único dia. Decisões recentes de instituições como a UFPR (Universidade Federal do Paraná) e a UFU (Universidade Federal de Uberlândia) se apoiam em estudos internos que indicam baixo impacto da segunda fase no resultado final, com pouca alteração entre aprovados e reprovados

Ao longo das últimas décadas, esses exames --que já chegaram a durar mais de três dias-- foram encurtados e passaram a ter menos fases, com provas objetivas e discursivas em datas distintas. Agora, instituições eliminam essa divisão e concentram a seleção em poucas horas, com menos questões e menor peso para as etapas dissertativas.

Na UFU, o vestibular a partir de 2026 será aplicado em um único dia, com 65 questões objetivas e uma redação. O modelo anterior previa duas fases, com maior número de provas discursivas.

Segundo o pró-reitor de graduação, Waldenor Moraes, a decisão se baseou em simulações internas. "Se rodássemos o vestibular só com a primeira fase, o resultado mudaria basicamente a ordem de classificação", afirma. De acordo com ele, cerca de 80% dos candidatos manteriam a mesma posição, com variações de 15% a 20% na lista final.

A mudança também responde ao abandono de vestibulandos ao longo do processo. A universidade identificou taxas altas de ausência na segunda fase e provas discursivas deixadas em branco, o que reduzia a eficácia da seleção e dificultava o preenchimento das vagas.

Outro fator foi o custo para os candidatos. Como a segunda fase era concentrada em Uberlândia, estudantes de outras regiões precisavam arcar com despesas de viagem, hospedagem e alimentação. "Muitas vezes, a gente perdia esse jovem por uma questão socioeconômica", diz Moraes.

Na UFPR, o vestibular também deixará de ter duas fases e será realizado em um único dia. O modelo anterior previa até três dias de prova.

Segundo o diretor do Núcleo de Concursos, Marco Randi, simulações internas também indicaram impacto limitado sobre os resultados. "No máximo 10% das vagas seriam trocadas de mãos. Altera pouco o perfil dos aprovados", afirma.

Até 2025, o processo incluía 90 questões objetivas, prova de compreensão e produção de textos (CPT) com três questões e, conforme o curso, até duas avaliações discursivas específicas, além da etapa de habilidades para música. No novo formato, a prova terá cinco horas e meia, com 80 questões objetivas e duas questões de CPT --uma longa e uma curta--, mantendo a avaliação específica apenas para música. .

Para manter a especificidade de cada curso, a universidade prevê pesos diferentes para disciplinas na prova objetiva. A instituição também aponta redução de custos operacionais, com menor necessidade de aplicadores e corretores, o que deve permitir queda na taxa de inscrição.

Assim como na UFU, a UFPR cita o custo para o candidato como fator relevante. A concentração da prova em um único dia reduz gastos com deslocamento e hospedagem e diminui conflitos de calendário com outros vestibulares. "Como universidade pública, buscamos um processo mais isonômico, especialmente para quem tem vulnerabilidade social e econômica", afirma Randi.

NOVO PERFIL DO VESTIBULANDO

Outras universidades já vinham fazendo ajustes no formato das provas. Em 2025, a Unicamp reduziu o número de questões da segunda fase. A USP também anunciou mudanças no vestibular aplicado em 2026, com diminuição no total de questões. As instituições justificam as alterações como forma de dar mais tempo para a elaboração das respostas.

À época dos anúncios, o diretor da Comvest, responsável pelo vestibular da Unicamp, José Alves, afirmou que houve queda no rendimento dos candidatos desde a pandemia.

Em Uberlândia, segundo Moraes, os estudantes apresentam maior dificuldade de concentração e menor resistência a provas longas. "O jovem chega muitas vezes desatento, com ansiedade e dificuldade de manter o foco durante o exame", diz.

Para ele, alunos que cursaram o ensino médio de forma remota durante a pandemia chegam à universidade com lacunas em disciplinas básicas, como física, química e matemática.

Diante disso, a UFU passou a adotar estratégias de acolhimento acadêmico para ajudar o estudante a se organizar, ler textos científicos e se adaptar ao ambiente universitário.

No Paraná, Randi aponta mudanças mais amplas no perfil dos candidatos. Segundo ele, há uma reconfiguração nas sociedades ocidentais, em que a educação formal perde centralidade. "Há um histórico internacional de desestímulo ao ensino superior", afirma.