Com registros de assédio contra policiais mulheres, tenente-coronel réu pela morte da PM Gisele teve punição branda

Por CLAYTON CASTELANI E TULIO KRUSE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, 53, protagonizou ao menos quatro episódios de assédio, violência ou ameaça contra mulheres policiais militares de São Paulo nos últimos 17 anos, segundo informações da ficha funcional do oficial, depoimentos de testemunhas à Polícia Civil e ao Ministério Público, entre outros documentos aos quais a Folha teve acesso.

Um desses episódios resultou na abertura de três sindicâncias pela Polícia Militar. Apenas uma dessas apurações determinou uma punição: Neto recebeu um dia de detenção disciplinar, permanecendo 24 horas dentro da unidade policial à disposição da instituição.

Os casos antecederam a morte da soldado Gisele Alves Santana, 32, com quem Neto era casado desde 2024. Ele está preso sob acusação de ter atirado na cabeça da esposa em 18 de fevereiro, no apartamento do casal, no Brás, região central da capital.

A Polícia Militar afirma que as denúncias formais foram apuradas e que ainda há um procedimento em andamento. O secretário de Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, afirmou que o militar será submetido a um Conselho de Justificação, que pode expulsá-lo da corporação.

O caso que resultou na única punição a Neto é de 2022, quando ele transferiu quatro policiais para outras unidades sem justificativa legal. Segundo a sindicância, o militar tomou essa decisão porque as mulheres supostamente conversavam sobre sua relação com Gisele.

Outras policiais também foram ameaçadas de transferência na época, aponta a ficha funcional do tenente-coronel. Duas novas investigações internas foram abertas, ambas encerradas sem qualquer punição.

Em um desses processos da PM, o oficial chegou a acusar a vítima de desviar documentos de procedimentos disciplinares, mas ficou provado que isso não ocorreu. Inicialmente, a sindicância considerou que Neto mentiu ao ser ouvido. A transgressão é considerada grave, ainda assim não houve sanção.

A vítima, uma sargento que relatou ter sido hostilizada e ameaçada de transferência, levou o caso à Justiça comum e conseguiu provar o assédio moral. O estado foi condenado a pagar uma indenização de R$ 5.000.

Transferências injustificadas e outras "violências institucionais" praticadas por chefes homens contra subordinadas mulheres são frequentes nas forças de segurança do país, afirma Inara Amorim, policial civil e diretora da Ampol (Associação Nacional das Mulheres Policiais do Brasil). "As penas são extremamente brandas para coibir práticas dos algozes", diz.

Assédios praticados por superiores, mesmo quando denunciados, podem ter um efeito ainda mais prejudicial às vítimas porque frequentemente resultam em retaliações, segundo a pesquisadora em segurança pública Kerlly Santos. "Isso reforça a percepção de protecionismo institucional", afirma.

As primeiras queixas documentadas de constrangimentos atribuídos ao tenente-coronel teriam ocorrido entre 2009 e 2010. Na época, a ex-mulher dele registrou dois boletins de ocorrência numa delegacia em Taubaté (SP). Ela relatou ameaças e uma vigilância constante de sua rotina. Em um dos boletins, ela informou ter movido uma ação para obrigá-lo a manter distância.

Ela relata situações em que o policial teria se descontrolado durante discussões, desrespeitado horários de visita à filha determinados pela Justiça e a perseguido até a delegacia.

Mesmo dois anos depois da separação, a ex-mulher relatava que ele a proibia de se relacionar com outros homens. Dos quatro casos, esse foi o único que não envolveu a PM.

Outro caso de violência foi a agressão do tenente-coronel contra a soldado Gisele dentro da sede do Comando-Geral da PM, onde ela trabalhava. Dois policiais que trabalhavam no mesmo departamento de Gisele afirmaram que o oficial a agrediu num corredor do quartel. Um deles descreveu que Neto pegou Gisele pelos braços e a pressionou contra a parede.

Eles não especificaram a data exata da agressão. Um deles menciona apenas que o episódio ocorreu após dezembro de 2022 e antes de junho de 2024, quando Neto e Gisele se casaram.

Quatro policiais que trabalhavam diretamente com ela relataram que ficaram sabendo sobre agressões ou discussões graves envolvendo o casal dentro do quartel-general da PM. O caso veio à tona com a morte de Gisele. Colegas dela relataram a agressão em depoimentos à Polícia Civil. Na ficha de Neto, porém, não há indicação de que o acusado tenha sido investigado por esse motivo.

Após a morte de Gisele, uma policial militar procurou o Ministério Público para relatar que Neto a assediou sexualmente entre julho e novembro do ano passado. O depoimento da PM, que teve o nome mantido sob sigilo, narra uma série de constrangimentos morais e sexuais praticados ao longo de meses.

Segundo o depoimento, Neto tentou beijar a policial no local de trabalho quando estava sozinho com ela e foi repelido. O episódio teria sido precedido por situações em que o tenente-coronel usava sua autoridade para se aproximar e ficar sozinho com a vítima, fazendo insinuações de cunho sexual.

Diante da resistência às tentativas de contato íntimo, Neto a transferiu para uma unidade a cerca de 20 km da residência dela, ainda segundo o relato. A policial ainda afirma que tinha conhecimento de que o tenente-coronel assediava outras colegas e que tem medo de represálias.

Essa informação é corroborada pelo advogado José Miguel da Silva Júnior, contratado pela família de Gisele. Ele afirmou que foi procurado por diversos policiais que afirmaram terem sido vítimas dos assédios de Neto. "Recebi pelo menos dez relatos de pessoas que têm medo de trazer isso a público", disse Silva.

A defesa do tenente-coronel afirmou desconhecer os relatos de agressão contra Gisele e outros episódios de violência que o envolveram. Disse, ainda, que houve divulgação de informações da vida privada de Neto "muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade".