Estudo aponta para possíveis falhas na assistência em mortes de prematuros em São Paulo
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um estudo da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) indica que parte das mortes de bebês prematuros de muito baixo peso em São Paulo pode estar associada a lacunas na assistência, do pré-natal ao cuidado nas UTIs neonatais.
A pesquisa analisou 137 mil nascimentos de bebês com peso entre 400 g e 1,5 kg entre 2004 e 2020. Ao todo, 42.230 morreram nos primeiros 28 dias de vida. Os dados mostram que a causa e o momento da morte ajudam a identificar onde estão os principais problemas no sistema de saúde.
Chamam atenção as mortes por infecção, responsáveis por 28% dos óbitos, e as ligadas a problemas no parto, como asfixia ao nascer e falta de oxigenação. Juntos, esses grupos concentram situações que, segundo os pesquisadores, podem indicar oportunidades de melhoria na assistência.
Problemas respiratórios foram a principal causa de morte, respondendo por 46% dos casos, algo esperado, segundo a pesquisadora Daniela Testoni, autora do estudo e professora da Escola Paulista de Medicina da Unifesp.
"Estamos falando de bebês muito pequenininhos, e os problemas respiratórios estão associados à prematuridade", afirma.
Malformações congênitas responderam por 9% das mortes. Um quinto grupo, com 13% dos casos, reúne causas diversas, que não formam um padrão.
A pesquisa sugere que os casos de óbitos por causas respiratórias e malformações também podem estar ligadas ao acesso insuficiente a cuidados especializados imediatos, suporte ventilatório inadequado ou falta de intervenção cirúrgica no momento adequado.
O peso dos bebês analisados está em uma faixa considerada de alto risco, que concentra os casos mais graves de prematuridade. Para o estudo, os pesquisadores partiram de uma base de 10,2 milhões de nascimentos registrados no estado ao longo de 16 anos para identificar os 137 mil casos de bebês de muito baixo peso incluídos na análise.
A pesquisa identificou que o tempo até a morte varia conforme a causa e, para os pesquisadores, funciona como um indicativo de onde estão as falhas.
Mortes ligadas a problemas no parto ocorrem muito cedo, com média de sete horas após o nascimento. Malformações aparecem em cerca de 11 horas e problemas respiratórios, em torno de 37 horas.
Mortes muito precoces, como as associadas ao parto, tendem a refletir problemas no pré-natal, na assistência no momento do nascimento e a atrasos no encaminhamento (referenciamento) das gestantes para serviços especializados, diz Testoni. A asfixia ao nascer, por exemplo, é considerada evitável e pode evoluir rapidamente sem intervenção.
Para reduzir esses casos, há protocolos específicos, como o programa de reanimação neonatal da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), que treina equipes para atuar no chamado "minuto de ouro" ?o primeiro minuto de vida, quando ações imediatas para garantir a respiração do bebê podem evitar complicações graves e mortes.
A prevenção, porém, começa antes. Segundo a pesquisadora, parte dos próprios casos de prematuridade poderia ser evitada com melhor acompanhamento das gestantes. "A gente teria menos nascimentos de bebês de muito baixo peso se cuidássemos melhor do pré-natal", diz.
Já as mortes por infecção acontecem, em média, após oito dias do nascimento. Isso indica que muitos desses bebês sobrevivem ao período mais crítico do nascimento, mas não resistem durante a internação, o que sugere problemas nas UTIs neonatais. O estudo cita como possíveis causas as brechas nas práticas de controle de infecção hospitalar, demora no reconhecimento da piora clínica do bebê e uso inadequado de antibióticos.
Um projeto conduzido pela Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais (RBPN) em 12 centros neonatais entre 2021 e 2023 mostrou que reduzir o uso desnecessário de antibióticos e antecipar a alimentação com leite materno, por exemplo, diminuiu em 18,5% a incidência de sepse tardia ?infecção que é a principal causa de morte entre prematuros de muito baixo peso.
Prematuros e bebês de baixo peso são especialmente vulneráveis a infecções hospitalares, diz Lícia Moreira, presidente do Departamento Científico de Neonatologia da SBP. Segundo a especialista, esses bebês têm pele mais fina, sistema imunológico imaturo e não receberam anticorpos suficientes da mãe.
Além disso, frequentemente precisam de cateteres para receber medicação e nutrição, o que aumenta o risco de infecção. Embora indispensáveis, os equipamentos também podem atuar como porta de entrada para agentes infecciosos.
"Por mais cuidado que se tenha, isso pode acontecer", afirma. "Mas taxas elevadas de infecção tardia são um indicador direto da qualidade do serviço."
O estudo também mostra que esses padrões não se distribuem de forma uniforme no estado, o que reforça a relação entre os diferentes perfis de morte e falhas específicas na assistência. Mortes por infecção, malformações e problemas respiratórios se concentram principalmente no sul de São Paulo. Já os óbitos ligados ao parto são mais frequentes no norte e no noroeste.
Para os pesquisadores, identificar esses perfis ajuda a direcionar ações. Onde predominam mortes precoces, o foco deve ser o pré-natal e a assistência ao parto. Onde as infecções lideram, o problema tende a estar na estrutura hospitalar e nos cuidados durante a internação.
"Óbitos mais tardios, como os por infecção, estão mais relacionados à qualidade do cuidado dentro dos hospitais", afirma Testoni.
Para as especialistas, a conclusão é que uma parcela relevante dessas mortes poderia ser evitada com melhorias na assistência em diferentes etapas do cuidado.
Procurada, a Secretaria de Saúde de São Paulo afirma que acompanha os indicadores de mortalidade neonatal e diz que houve queda recente nos índices. Em 2025, o estado registrou 7,34 mortes por mil nascidos vivos, ante 7,68 em 2022.
"Esse índice vem apresentando queda gradativa nos anos de 2024, 2025 e 2026 (até o momento)", diz a pasta em nota.
Segundo a pasta, foram ampliados leitos de alto risco, fortalecidos centros de parto normal e inauguradas novas maternidades, como a de Franco da Rocha, em 2024.
Diz ainda que foi implementada ano passado a revisão da Rede de Atenção à Saúde Materno-Infantil, com foco na redução da mortalidade materna e infantil. Entre as ações citadas estão a ampliação de leitos de alto risco, o fortalecimento dos Centros de Parto Normal e a inauguração de novas maternidades, como a de Franco da Rocha, em 2024.