São Caetano vê número de passageiros quadruplicar com tarifa zero e vai restringir programa a moradores

Por MARIANA GRASSO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A prefeitura de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, decidiu mudar o programa que instituiu a gratuidade da tarifa nos ônibus municipais, restringindo o benefício aos moradores da cidade. O Tarifa Zero foi lançado em outubro de 2023 e impulsionou o crescimento no número de passageiros transportados diariamente. A alteração ocorre meio a intensas reclamações sobre a infraestrutura dos veículos, superlotação e insuficiência da frota.

A data da mudança no programa ainda não foi divulgada. No lançamento, a gestão do ex-prefeito José Auricchio Júnior (PSD) previa que a gratuidade atrairia 50% mais usuários. No entanto, o volume de passageiros saltou de 20 mil para 80 mil diários ?um aumento de 300%, segundo dados da prefeitura.

Luisa Nicacio, 22, moradora da cidade, relata um cotidiano de veículos sucateados e espera prolongada. "É raro vir um ônibus novo. À tarde, colocam os mais velhos, sujos e com bancos duros. No calor, é insuportável; já vi gente passando mal pelo abafamento", diz.

Segundo ela, nos horários de pico, as filas impossibilitam o embarque imediato, forçando esperas que superem os 25 minutos.

Em dezembro do ano passado, o atual prefeito de São Caetano do Sul, Tite Campanella (PL), utilizou suas redes sociais para anunciar que o programa Tarifa Zero passaria por uma "revisão profunda" em 2026.

A decisão de limitar a gratuidade é uma resposta direta ao que a gestão classifica como um "mau dimensionamento" na origem do projeto.

"Fizemos muitos estudos e planejamos as mudanças para que o programa atenda ao morador da cidade, ao pagador de imposto", disse Campanella.

Segundo o prefeito, cerca de metade dos usuários atuais não reside em São Caetano do Sul. A restrição deve gerar uma economia de R$ 15 milhões por ano aos cofres públicos,segundo a prefeitura.

Para quem cruza o limite municipal para trabalhar, a mudança é vista com apreensão. A venezuelana Daniela Sanchez, 23, mora em Santo André e utiliza a linha 02 (Circular Gerty) para trabalhar em São Caetano. "Os ônibus estão superlotados; a maioria vai em pé. Para conseguir ir sentado, é preciso chegar na fila 30 minutos antes", conta.

Daniela aponta que o fim da gratuidade para não moradores terá impacto direto no seu bolso. "É uma situação extremamente desconfortável. Moro perto da divisa e, com essa cobrança, terei de pagar mais passagens, o que significa que o desconto do vale-transporte no meu salário será ainda maior", afirma a jovem, sugerindo que o benefício deveria ser mantido, ao menos, para moradores de cidades vizinhas do ABC.

A promessa do governo municipal é de que, ao restringir o acesso, a qualidade do serviço seja "qualificada significativamente". Para isso, o sistema passará a exigir um cadastro digital, validado por reconhecimento facial, utilizando a base de dados de programas municipais já existentes.

Quando foi aprovado pela Câmara por unanimidade, o Tarifa Zero era visto como uma ferramenta para reduzir a poluição e estimular a economia local. O investimento inicial projetado era de R$ 35 milhões anuais, cerca de 1,44% do orçamento municipal.

Contudo, a alta demanda pressionou o sistema: apenas em 2025, o programa contabilizou 5,1 milhões de passageiros transportados.

Procurado pela Folha para detalhar o cronograma e as mudanças na frota, Marcelo Pante, diretor da Secretaria de Mobilidade Urbana de São Caetano do Sul, preferiu não dar entrevistas no momento. "Adianto que estamos estruturando algumas mudanças no programa e que ainda não estamos divulgando enquanto não finalizamos tudo."