Escola guarani é interditada, e aulas vão para local sem banheiros no Jaraguá

Por JORGE ABREU

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O adolescente guarani mbya Gabriel Martins, de 15, diz lamentar a situação em que se encontra a escola estadual indígena Djekupe Amba Arandy, no território Jaraguá, zona norte de São Paulo. A unidade teve salas de aulas interditadas no dia 10 de março, após um deslizamento natural de terra.

Com o incidente, as aulas ficaram paralisadas por mais de uma semana e, como alternativa, foram transferidas para o centro de convivência da aldeia Pyau, localizada na entrada do território. O local, por outro lado, tem problemas estruturais para receber esta demanda.

"Os banheiros estão faltando. As portas também estão faltando, não estão fechando direito. Também, falta ventilador, está muito calor. Os alunos estão reclamando muito sobre isso e a escola não pode fazer nada", relatou o estudante no 9º ano do ensino fundamental.

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo informou, em nota, que o espaço onde funcionava a escola foi interditado pela Defesa Civil Municipal e pela FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação), por questões de segurança.

Segundo a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), a escolha do centro de convivência da aldeia como espaço para a continuidade das aulas ocorreu em diálogo com lideranças da comunidade, "sem prejuízo ao processo de aprendizagem".

"Um cronograma de reposição também foi organizado para assegurar a carga mínima anual dos alunos", diz a nota. "Uma nova unidade está em construção, com investimento superior a R$ 3,5 milhões, e previsão de entrega da primeira etapa para o segundo semestre deste ano."

Gabriel, também representante do grêmio estudantil, ressalta que a promessa do novo prédio é antiga. "Sobre a construção, eles estão prometeram dar a escola completa em 2024, mas não completaram. Depois em 2025, e não completaram de novo. E agora esse ano", falou.

A estudante do 3º ano do ensino médio Layne Kerexu, de 17, afirma que a situação resulta em desinteresse dos jovens pelos estudos, o que pode colaborar na busca por consumo de álcool e outras drogas. Para ela, o prejuízo é educacional e social.

"Com a escola interditada, a gente fica meio desamparado. Mas o problema é que sem a escola, sem a estrutura, os alunos ficam meio desnorteados, sem saber o que fazer. Eu vejo muitos jovens procurando outros lugares para se distrair", frisou.

Kerexu teme possíveis acidentes durante as aulas no centro de convivência. Como exemplo, citou as condições dos forros de teto ?a reportagem percorreu as duas salas improvisadas no espaço e registrou a falta de peças de PVC, deixando brechas sobre a cabeça dos alunos.

"A gente fica invisível nesse mundo. Por mais que o território esteja em São Paulo, o pessoal de fora não vê. A escola que o estado prometeu entregar ficou abandonada, como se fosse nada, como se a gente não precisasse daquilo", finalizou.