Técnica cirúrgica influencia resposta imune em transplante intestinal pediátrico, diz estudo da USP
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A forma como o sangue do intestino transplantado é drenado para a circulação da pessoa que recebe o órgão influencia a resposta do organismo nos primeiros dias após a cirurgia ?período crítico em que infecções e rejeição são as principais causas de falha do procedimento. É o que aponta um estudo experimental publicado em outubro pela revista Pediatric Transplantation, conduzido por pesquisadores do Instituto da Criança e do Adolescente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).
O trabalho comparou duas técnicas de reconexão venosa em transplantes intestinais com doador vivo realizados em suínos juvenis ?animais escolhidos por apresentarem fisiologia intestinal e imunológica próxima à de crianças. No total, 14 animais foram submetidos ao procedimento: sete receberam drenagem portal, que preserva o fluxo fisiológico entre intestino e fígado, e sete receberam drenagem sistêmica, que direciona o sangue diretamente para a veia cava.
O transplante intestinal com doador vivo representa menos de 3% de todos os transplantes intestinais realizados no mundo. No Brasil, o procedimento é ainda mais raro: segundo a ABTO (Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos), nenhum transplante de intestino foi realizado no país no último ano.
Desde 2015, foram feitos apenas oito, com os últimos três em 2021. A modalidade intervivos, foco do estudo, ainda não conta com programa clínico ativo no SUS (Sistema Único de Saúde), embora o transplante intestinal já tenha reconhecimento regulatório no sistema nacional de transplantes.
Ao longo de quatro dias, os pesquisadores coletaram amostras de sangue e realizaram biópsias de fígado e intestino para avaliar marcadores bioquímicos, histológicos e moleculares. Nenhum animal desenvolveu trombose vascular e as funções hepática e renal foram preservadas nos dois grupos.
As diferenças entre os grupos apareceram em análises mais detalhadas. No grupo com drenagem portal, a morte celular foi mais intensa logo após a cirurgia, mas diminuiu bastante até o quarto dia. No grupo com drenagem sistêmica, esse nível permaneceu estável ao longo do período.
Para os autores, esse padrão sugere que a drenagem portal ajuda o organismo a controlar a morte celular de forma mais equilibrada, limitando danos à parede intestinal. O grupo portal também apresentou níveis mais altos de interleucina-1 alfa no tecido intestinal ?proteína ligada à proteção da barreira intestinal e à defesa contra bactérias. Os achados sugerem que a técnica pode reduzir o risco de infecções graves no pós-operatório, um dos principais fatores de falha do transplante intestinal.
"O intestino transplantado não precisa apenas sobreviver; ele precisa entrar em equilíbrio com o organismo. E a drenagem portal parece favorecer esse equilíbrio", afirma Guilherme Paganoti, cirurgião pediátrico do HC-FMUSP e autor principal do estudo.
Existem estudos anteriores comparando as duas técnicas, mas focados em desfechos clínicos clássicos como sobrevida e rejeição. Segundo Paganoti, o diferencial deste trabalho está na profundidade da análise biológica. "Não inauguramos a pergunta ?mas avançamos significativamente na compreensão da resposta biológica envolvida", diz.
Os autores descrevem os achados como exploratórios, uma vez que a amostra é pequena e o período de observação cobre apenas a fase aguda do pós-operatório, sem contemplar processos de médio e longo prazo. Os próximos passos incluem refinamento experimental e, posteriormente, estudos clínicos observacionais em centros habilitados.
Para o pesquisador, o estudo tem valor translacional direto para o SUS. Segundo ele, o trabalho foi motivado pela realidade brasileira: escassez de doadores falecidos, alta complexidade da falência intestinal pediátrica e necessidade de desenvolver soluções adaptadas à rede pública.
"O estudo não cria sozinho um programa clínico, mas ajuda a construir a base científica para que isso um dia seja feito com mais segurança", afirma.