Romance usa terremoto de Áquila, na Itália, para narrar luto que atravessa gerações
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em uma noite de abril, as gêmeas Caterina e Olivia dormiam aninhadas no sofá, quando a terra começou a tremer. No meio de móveis se batendo e espelhos quebrando, elas e Marco ?filho de Olivia? refugiaram-se sob a mesa de jantar. Quando o tremor deu lugar ao silêncio, Caterina e o sobrinho escaparam pela janela, mas Olivia voltou para buscar calças e sapatos para o filho. Foi nesse instante que um pilar de sustentação ruiu, soterrando Olivia. Horas depois, os bombeiros a encontraram sem vida, com os dedos ainda estendidos na direção do jeans de Marco.
A forma como Caterina tenta reconstruir sua vida enquanto lida com seu próprio luto, com sua mãe e com a criação de Marco conduzem a narrativa de "Bella Mia", livro escrito pela italiana Donatella Di Pietrantonio e lançado pela Relicário Edições.
O abalo sísmico que ambienta a narrativa é o que aconteceu de fato em 2009, na cidade de Áquila, na Itália, e que deixou 308 mortos, mais de 1.500 feridos, 15 desaparecimentos, centenas de edifícios em ruínas e milhares de desabrigados. Naquela noite, Pietrantonio estava em sua casa na cidade de Penne, a 80 km do epicentro, e mesmo assim o sentiu de forma intensa, descrito como um "tempo interminável".
A autora morou por cerca de cinco anos em Áquila, onde cursou odontologia. À Folha, ela conta que escrever sobre um lugar ao qual se está afetiva e emocionalmente ligada é uma prova árdua, principalmente se narra o trecho mais dramático de sua história.
"Narra-se um luto coletivo que, no entanto, é também meu próprio luto, utilizando uma dor pessoal como instrumento de conhecimento e reconhecimento da dor alheia. A personagem Caterina é, ao mesmo tempo, protagonista, testemunha e voz de um trauma que atingiu toda uma comunidade", diz.
Ela não se diz pretensiosa a ponto de pensar que seu livro possa ter ajudado os habitantes de Áquila a elaborar o luto, mas diz acreditar que "a arte e a literatura tenham a função de fragmentar o bloco de pedra da dor e deixar que, entre os estilhaços, passe um pouco de luz".
É também pela arte que Caterina consegue nomear e elaborar seu luto individual. A personagem descreve como a argila atinge a mesma temperatura da sua pele e carimba na massa as suas próprias "linhas da vida, do coração e do destino".
Ela tinha se acostumado a viver na sombra da irmã, em uma posição confortável e defensiva, a única que considerava sustentável para si. Quando Olivia morreu, a gêmea se viu exposta e obrigada a assumir um protagonismo que não desejava.
Como se não bastasse sustentar a si própria e o seu luto, Caterina se descobre mãe ao ter que cuidar do sobrinho, um adolescente tímido e ranzinza. Marco expressa sua dor por meio do silêncio, usando fones de ouvido e recusando-se a falar.
O ressentimento em relação ao pai, Roberto, é um ponto em comum na família. A mãe das gêmeas o culpa pela morte da filha, dizendo que, se não fosse a separação, ela não teria se mudado para a cidade e estaria viva. Desde o primeiro momento após o terremoto, ela buscou socorro em Deus, rezando constantemente pela filha morta.
A sua devoção e sacrifício é outro ponto chave no conflito geracional que se apresenta na história. Principalmente no entendimento do que e como ser mulher.
Enquanto a mãe representa um modelo de mulher ancorado no serviço ao outro, as filhas são descritas como mulheres contemporâneas, libertadas e autônomas, que não se definem necessariamente por meio de uma figura masculina.
Para Caterina, a emancipação feminina é a liberdade de sofrer e se reconstruir de forma individual, sem estar presa aos modelos tradicionais de cuidadora eterna que a mãe acredita dever ocupar.
Para a autora, esse movimento é um percurso histórico de emancipação feminina que se manifesta dentro de uma mesma família.
Elaborar o luto, segundo Pietrantonio, é conservar a "luz das estrelas mortas" enquanto se caminha com as próprias pernas em direção a uma autonomia que a tragédia, paradoxalmente, a forçou a conquistar.
Ela afirma que todos vivem o luto de maneira singular, mas "a grande diferença reside na capacidade de integrar a perda na nova vida que vem depois, na qual a pessoa amada faz falta de modo doloroso, mas sua presença persiste na memória, na bagagem de vida de quem fica".