Sem pedágio, rodovia no interior de SP é um tapete e está entre as melhores do país
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Produtora rural, a aposentada Cleusa França Marfini, 71, mora na Estrada da Uva, em Jales (a cerca de 600 km da capital paulista). Três vezes ao dia, ela e o marido Divanil Lopes, 74, pegam o carro e acessam a SP-320, a 2 km dali, para fazer coisas na cidade ou para distribuir algum produto colhido nas suas terras.
A Euclides da Cunha, como é chamada a estrada que liga Mirassol à divisa com Mato Grosso do Sul, é a única rodovia sob concessão pública ?ou seja, que não foi passada à gestão privada? entre as dez melhores do país.
Avaliada como ótima, ficou na quinta colocação da última edição da pesquisa CNT Rodovias, publicada em dezembro passado pela Confederação Nacional dos Transportes.
É uma exceção entre as dez primeiras colocadas do ranking, por não ter cobrança de pedágio. Ficou à frente de estradas mais conhecidas, como Ayrton Senna, Rodoanel Mário Covas e Raposo Tavares, onde o motorista é taxado ?11ª colocada no ranking, a SP-463, a rodovia Dr. Elyeser Montenegro Magalhães, que liga Araçatuba a Jales, também é pública e igualmente levou avaliação ótima.
Com longas retas, seu asfalto é um tapete, como constatou a Folha no mês passado. Durante três dias, a reportagem percorreu os cerca de 360 km de ida e volta da Euclides da Cunha. A viagem foi feita com muitas paradas nos comércios de beira de estrada e visita a parte de 17 municípios no caminho que crescem economicamente exatamente por causa dela.
Buracos são raros, mas eles existem, principalmente nas proximidades de Mirassol, município da região de São José do Rio Preto, onde ela nasce. Há marcas de trechos recapeados, que dão alguns pequenos solavancos no carro.
Até por isso, a Euclides da Cunha não ficou na liderança, posição que figurou em 2021, quando ocupou o primeiro lugar do ranking que havia sido recém-reformulado pela CNT.
"De início, achamos que havia acontecido alguma coisa errada [na pesquisa], mas foi uma grata surpresa saber que havia uma rodovia pública, com investimentos direcionados a ela, que concorria com as de concessão privada", afirma Fernanda Rezende, diretora executiva da confederação.
Ao todo, 114.197 km de rodovias foram avaliados, conforme o levantamento publicado em dezembro pela CNT. Foram analisados pavimento, sinalização e geometria.
Um dos destaques na avaliação da estrada paulista foi seu canteiro central, com mais de 10 metros de largura, que garante segurança ao motorista. Também conta com acostamento em bom estado em sua totalidade.
Pelo fato de ser duplicada, a topografia ondulada (com longas subidas e descidas) não interfere no trânsito, explica Rezende. Em média, 21 mil veículos circulam por dia entre Votuporanga e Fernandópolis, o trecho com maior fluxo.
"Um ponto que identificamos na última pesquisa é que havia locais, em um trecho de 30 km, sem faixas de sinalização [no acostamento], mas é uma rodovia com boa conservação", afirma.
Manutenção eficiente, pressão de prefeitos para que cada buraco seja tapado rapidamente e o fato de sua duplicação e modernização terem sido concluídas em menos de 15 anos, garantem a avaliação da rodovia.
A Euclides da Cunha é administrada pelo DER (Departamento de Estradas e Rodagem), órgão público do governo estadual. O orçamento de R$ 19,3 milhões previsto para manutenção e conservação neste ano é menor que os cerca de R$ 20,2 milhões de 2025. Não há transformações em vista.
"Considerando satisfatório o atual estado de conservação da rodovia SP-320, está prevista para o exercício de 2026 a continuidade dos serviços de manutenção e conservação rodoviária de rotina", diz o DER, em nota.
O recurso é todo do governo estadual, afirma o departamento. Não há dinheiro de emendas de parlamentares, por exemplo.
Propriedades rurais se espalham ao longo da rodovia e suas entradas. Apenas na CDA (Coordenadoria de Defesa Agropecuária) de Fernandópolis, que envolve 12 municípios, são três usinas de cana-de-açúcar.
Plantações de cana predominam na visão do motorista, principalmente nos 100 primeiros quilômetros a partir de Mirassol.
Mas a paisagem vai mudando com o rodar no asfalto. E a vocação econômica também. Existem enormes centros logísticos, shopping center, hotéis de beira de estrada, pequenos e grandes comércios, condomínios de luxo e, no seu final, paradisíacas praias de água doce nos municípios Santa Fé do Sul e Rubineia, além da olhar sem fim do rio Paraná.
Os enormes caminhões que trafegam pela rodovia transportam de tudo. Everton Elias Horin, 37, tinha saído de casa no Paraná havia mais de 20 dias quando parou em um posto de combustíveis em Urânia.
Fazia o caminho de volta. Havia carregado o caminhão de soja em Mato Grosso do Sul, levado a carga até o porto de Santos, pegado outra de produtos de limpeza em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Quando descarregasse no estado vizinho dois dias depois, já tinha outra leva de soja contratada para fazer tudo de novo.
"É uma rodovia dupla desde a divisa, que não é pesada e sem serra. Bem simples [de dirigir], dá pouco desgaste para o caminhão", diz o motorista.
DIVISOR DE ÁGUAS
Mas nem sempre foi assim. A duplicação da SP-320, no início da década passada no governo Geraldo Alckmin (na época no PSDB, hoje no PSB), foi um divisor de águas.
"Só quem passou muito tempo por ela [rodovia], como nós, sabe como a pista simples era horrível", diz Cleusa França Marfini, que vendia a produção de mandioca em supermercados da região.
Pavimentada nas décadas de 1950 e 1960, a Euclides da Cunha em muitos de seus trechos é usada praticamente como uma via urbana.
A Estrada da Uva, onde fica a propriedade rural dos dois aposentados, está localizada no lado oposto ao centro de Jales. Para ir ao médico ou ao supermercado, o casal precisa entrar sentido a ponte rodoferroviária Rollemberg-Vuolo, sobre o rio Paraná, onde fica a divisa com Mato Grosso do Sul, e fazer um retorno.
Com 50 mil moradores, Jales ganha ao menos mais 30 mil pessoas de cidades vizinhas, em sábados próximos aos dias de pagamento de salários, por causa do comércio. O cálculo é feito pelo prefeito Luis Henrique dos Santos Moreira (PL).
A cidade é referência em saúde da microrregião, mas atrai pessoas do país todo em busca de tratamento de câncer no Hospital do Amor ?uma das unidades do antigo Hospital de Câncer de Barretos ?, inaugurado em 2010, quando se anunciou a duplicação da estrada.
"Era uma rodovia perigosa, com muitos acidentes. Um percurso, então feito em meia hora, hoje em dia não leva mais de dez minutos", diz o prefeito.
Com limite de velocidade de 110 km/h para veículos leves e de 90 km/h para os pesados, a partir de agosto do ano passado foram instalados 15 radares em trechos de sete cidades da estrada, nos dois sentidos.
O número de acidentes e mortes despencou em 2025. Em 2024 ocorreram 219 sinistros de trânsito, com 20 mortes, contra 142 no ano passado, que provocaram 13 óbitos, segundo Detran-SP (Departamento de Trânsito de São Paulo).
PRESSÃO CONTRA PEDÁGIOS
A duplicação mudou o perfil sócio-econômico desta região noroeste paulista, não apenas no setor agropecuário. Faculdades passaram a se instalar nos municípios ligados pela Euclides da Cunha nos últimos tempos, diz Humberto Zanin, presidente do Sindicato Rural de Fernandópolis. "Alunos saem de uma cidade [pela rodovia] para estudar na outra" afirma.
Mas existe o medo de que um dia ela ganhe pedágios urbanos. O DER diz que a SP-320 não está nos planos de concessão de São Paulo, o que precisou ser reforçado no ano passado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), durante evento para entrega de casas populares em Macedônia.
Para viver da rodovia é preciso entendê-la. Há cerca de cinco anos, o casal Cristiane e Márcio Deghiaro comprou uma lanchonete em Votuporanga que funcionava em horário comercial e vivia às moscas. Até perceberem que precisariam chegar ao trabalho antes de o sol nascer. O quiosque rosa se tornou um sucesso quando passou o oferecer café da manhã a caminhoneiros logo nas primeiras horas. "Procuram pão com ovo", diz ela.