Edir Macedo e seus bispos promovem 'terremoto espiritual' em megaevento da Universal

Por LOLA FERREIRA E ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER

RIO DE JANEIRO, RJ, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A igreja que "começou pequeneninha, com uma sementinha" reuniu nesta Sexta-Feira da Paixão (3) "quase 200 mil pessoas aqui no Maracanã e mais algumas do lado de fora", exaltou o bispo Edir Macedo ao pregar no Família ao Pé da Cruz, evento promovido simultaneamente por sua Igreja Universal do Reino de Deus em vários estádios do país. "Fora o Brasil inteiro, o mundo inteiro, são milhões e milhões de pessoas. Tudo começou com duas ou três pessoas."

Macedo fez paralelos entre versículos bíblicos e sua própria trajetória como religioso. Ele afirmou que, no início, a Universal começou "com duas ou três pessoas" que iam aos cultos em que ele pregava. Era uma referência ao versículo 20 de Mateus 18, no qual Jesus diz a discípulos que "onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles".

"Eu não sabia o que pregar, então recorria a esse texto. Dava as mãos a duas pessoas ou três que estavam na igreja e dizia [o versículo]."

Pouco depois, no estádio do Pacaembu, o bispo Adilson Silva falava em "terremoto espiritual" que faria "estremecer os alicerces do inferno" para que homens que traiam suas esposas "sintam nojo da amante", que viciados em drogas as repelissem.

Silva iniciou sua pregação no estádio no centro de São Paulo buscando afastar motivações outras que não a fé e a exaltação da família. "Há quem pense que essa concentração tem motivação política, mas isso seria muito pobre da nossa parte, diante da grandeza que esse dia significa, nos reunirmos num lugar como esse, com milhares e milhares de pessoas, por causa de Deus. Só se nós tivéssemos uma mentalidade muito tacanha."

Dias atrás, o bispo Renato Cardoso, casado com a primogênita de Edir Macedo, Cristiane, apresentou o evento como "a maior lata de conservas da família", chiste com o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Lula (PT) no Carnaval do Rio. A ala que irritou grupos cristãos, batizada "neoconservadores em conserva", trazia foliões fantasiados de lata cujo rótulo exibia um casal hétero com dois filhos, a tal "família em conserva".

Fiéis que lotaram estádios Brasil afora pareciam preocupados sobretudo com problemas pessoais que desarranjam seus lares, como doenças e crises conjugais.

Em São Paulo, antes do bispo Adilson começar a pregar, o pastor Franklin de Lara puxou uma "ola pra Jesus". Não tem por que esse movimento de onda que contagia toda a plateia, tão típico em jogos de futebol, não exaltar também a família, disse.

"Quem crê que a partir de hoje sua família vai estar com Deus?", questionou o pastor antes de incentivar um coro para honrar essa instituição central no discurso cristão. "Se anima, dá uma testada na voz para não falhar. Quando eu disser você vai dar o grito ?vai, família!?. Um? Dois? Três!"

As caravanas vinham de muitas cidades próximas: Osasco, Diadema, Santo André. A microempresária Rosemeire Santos, 43, que vende sanduíches que faz com sua irmã, estava pela primeira vez no megaevento que a Universal realiza há anos.

Diz que está ali, diante de uma gigantesca cruz branca posicionada no meio do estádio, para que Deus abençoe sua família. O marido era "adúltero" e "tem um problema que bebe demais", mas começou a frequentar a igreja, e tudo mudou. "Deus é poderoso, minha filha. Ele hoje é atencioso, ajuda a lavar louça até", ela conta, rindo.

Na NeoQuímica Arena, antigo Itaquerão (na zona leste de São Paulo), o bispo Renato Cardoso falou sobre quem "traiu a confiança do seu marido, da sua esposa, e que agora está querendo reconstruir". "Salva essa família, salva essa casa, restaura esse lar, restaura esse casal, meu Deus, que vive agora em ódio, que vive agora com frieza, trocando palavras duras, palavras afiadas."

Além de Rio e São Paulo, o Família ao Pé da Cruz aconteceu também em Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Cuiabá, Porto Alegre, Teresina, Palmas e Belém.

A lotação atingiu todos os equipamentos do Complexo Esportivo do Maracanã, que além do estádio de futebol conta com o ginásio Maracanãzinho, o parque aquático Julio Delamare e o Estádio de Atletismo Célio de Barros.

Do lado de fora, uma multidão acompanhou as palavras de Macedo por meio de um telão. Mesmo com a frustração inicial de não conseguir entrar, as caravanas logo se acomodaram na rua Mata Machado, uma das que contornam o complexo.

Com os termômetros marcando 34ºC, alguns fiéis foram resgatados ao posto médico ao desmaiar. Cenas similares se repetiram em São Paulo, onde uma fila de ônibus nos arredores do Pacaembu revelava o gigantismo do evento da Universal. Alguns fiéis estavam com roupa de gala, como vestidos com canutilhos e pedras brilhantes.

Um vídeo exibido à plateia mostrou o poder de Macedo em mobilizar multidões, já lotando complexos esportivos nos anos 1980.

O público nos estádios e imediações ganhou o "azeite ungido" para abençoar a família. Após a distribuição, alguns grupos começaram a voltar aos ônibus, enquanto os telões apresentavam chave pix e contas bancárias para que os fieis doassem à Universal. Há um segundo turno, no fim da tarde, previsto para o Família ao Pé da Cruz, descrito pela igreja como "o maior evento pela salvação das famílias".