Subnotificadas, drogas sintéticas avançam e desafiam a saúde pública nas cidades

Por CLÁUDIA COLLUCCI

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O avanço das drogas sintéticas e a dificuldade de medir com precisão o consumo dessas substâncias no Brasil expõem um novo desafio para a saúde pública nas grandes cidades por ser mais dinâmico, menos previsível e, muitas vezes, invisível às estatísticas tradicionais.

Embora no Brasil crack e cocaína ainda predominem, especialmente nos atendimentos na saúde, gestores e especialistas apontam uma mudança gradual no perfil de uso dessas substâncias vêm ganhando espaço em um cenário ainda marcado pela escassez de dados consolidados.

As drogas sintéticas, como metanfetamina, opioides e canabinoides sintéticos, MDMA, catinonas e cetamina, são conhecidas por sua alta toxicidade e efeitos imprevisíveis no sistema nervoso central. O uso pode levar a sérios problemas de saúde, incluindo intoxicações graves, surtos psicóticos e morte.

O tema foi discutido na Cúpula da Parceria para Cidades Saudáveis, realizada no Rio de Janeiro, rede global apoiada pela Bloomberg Philanthropies em parceria com a OMS (Organização Mundial da Saúde) e a Vital Strategies.

A iniciativa apoia projetos em 11 cidades no mundo -Bogotá, Buenos Aires, Atenas, Londres, Helsinque, Milão, Filipinas, São Francisco, Baltimore, Vancouver e Rio de Janeiro- voltados à prevenção de mortes por overdose.

Entre as ações estão estratégias que levem ao aumento do acesso à naloxona, medicamento antagonista de opioides, usado em emergências para reverter rapidamente overdose ou intoxicação aguda por substâncias como morfina, heroína, fentanil e tramadol.

Cidades como Atenas e Milão, por exemplo, têm trabalhado especificamente com populações vulneráveis, incluindo pessoas em situação de rua em centros urbanos.

Atenas, por exemplo, liderou com sucesso uma nova declaração ministerial nacional para expandir o acesso à naloxona em todo o país, além do ambiente hospitalar, segundo Ariella Rojhani, diretora de programas da Parceria para Cidades Saudáveis da Vital Strategies.

"A naloxona agora está mais facilmente disponível para pessoas que usam drogas e para seus amigos e familiares, para que possam intervir em caso de overdose", relata.

No Rio, a aposta do projeto tem sido combinar informação e cuidado. A integração de dados permite mapear padrões de consumo, identificar territórios mais vulneráveis e antecipar demandas por atendimento.

"Conseguimos ter um mapa da cidade e organizar o cuidado focando nas pessoas mais vulneráveis", diz o médico Daniel Soranz, que deixou a Secretaria Municipal de Saúde do Rio nesta semana para disputar reeleição para a Câmara dos Deputados.

O programa trabalha em várias frentes em relação ao uso de drogas por moradores de rua ou em outros contextos de vulnerabilidade. Entre as ações estão melhoria dos registros e treinamento de equipes para a reinserção no mercado de trabalho.

Segundo Soranz, o crescimento de efeitos adversos das drogas sintéticas já começa a aparecer -ainda que de forma incipiente- nas estatísticas da rede pública de saúde.

"Antes da pandemia, não conseguíamos ter esses dados agregados. Hoje temos o prontuário clínico integrado de uma população de 6,7 milhões de habitantes", diz.

Ele afirma que isso permite identificar rapidamente usuários que chegam ao sistema e estruturar planos terapêuticos individualizados, iniciados na atenção primária e articulados com outros níveis de cuidado, como os Caps AD (Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas). As informações, ressalta, são usadas exclusivamente para fins de saúde.

De acordo com gestores e especialistas de saúde pública presentes na cúpula, o impacto das drogas sintéticas na saúde segue subdimensionado. A própria natureza dessas substâncias, com composições variáveis e cadeias de distribuição menos visíveis, dificulta o monitoramento e exige respostas mais ágeis. "Sem dados, não conseguimos dimensionar o problema. E sem isso, não conseguimos cuidar", resume Soranz.

Esse cenário acompanha uma tendência global. Segundo Daliah Heller, vice-presidente de Iniciativas para a Prevenção de Overdoses da Vital Strategies, o avanço dessas substâncias está redesenhando o mapa do consumo. Países antes vistos apenas como rotas de trânsito passam a se tornar também mercados consumidores, impulsionados por uma lógica de produção descentralizada e de rápida circulação.

"Não é como o ópio vindo do Afeganistão. A produção pode acontecer em um laboratório local e chegar ao usuário rapidamente", explica. Essa mudança encurta rotas, reduz custos e acelera a disseminação.

Além disso, o mercado se caracteriza por mutação constante. Nos Estados Unidos, por exemplo, o fentanil -opioide altamente potente- tem sido misturado a sedativos e outras substâncias para modular efeitos ou substituir drogas escassas. O resultado é maior imprevisibilidade e risco elevado para usuários e serviços de saúde.

Diante desse cenário, cresce a importância de estratégias de monitoramento em tempo real. Heller destaca três frentes principais: testagem de drogas em campo, análise laboratorial (como cromatografia) e sistemas de alerta precoce. Integradas, essas ferramentas permitem identificar rapidamente mudanças na composição das substâncias e informar tanto profissionais de saúde quanto a população.

Modelos desse tipo já operam em cidades como Vancouver e Toronto, onde plataformas públicas divulgam semanalmente o que circula no mercado local. "É informação para salvar vidas", afirma.

A especialista também enfatiza o papel central das cidades. "São os municípios que veem o problema acontecer em tempo real e precisam agir". Experiências internacionais mostram respostas territorializadas.

Diante de um aumento alarmante de 763% nas apreensões de alfa-PVP (uma catinona sintética conhecida localmente como "peukku") no primeiro semestre de 2025, a cidade de Helsinque lançou uma nova estratégia municipal que envolve uma abordagem conjunta entre as autoridades de saúde e segurança para mitigar danos causados por essas substâncias.

Na saúde, por exemplo, houve intensificação de programas de educação, desintoxicação e suporte rápido aos usuários. A alfa-PVP também foi incluída em novos pacotes de testes laboratoriais de saúde ocupacional para melhor detecção e monitoramento

Em Londres, autoridades trabalham em sistemas capazes de detectar surtos de overdose quase em tempo real e emitir alertas rápidos.

Um dos desafios mais críticos, porém, está na própria identificação dos danos. Enquanto overdoses por opioides são mais facilmente reconhecidas, o mesmo não ocorre com estimulantes como cocaína e anfetaminas. "Muitas mortes aparecem como parada cardíaca ou infarto, mas podem estar diretamente ligadas ao uso de drogas", afirma Heller. Essa subnotificação mascara a real dimensão do problema.

Há ainda fatores agravantes. Evidências indicam que o uso frequente de estimulantes, combinado a ondas de calor, aumenta o risco de eventos cardiovasculares fatais -uma preocupação relevante em cidades como o Rio de Janeiro, onde temperaturas extremas se tornam mais comuns e o consumo ocorre muitas vezes em condições de vulnerabilidade.