Cientistas ingleses contestam a descoberta de pterossauro filtrador brasileiro achado em vômito fóssil
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um espécime identificado no ano passado como o primeiro representante do grupo de pterossauros (répteis alados) filtradores para a bacia do Araripe, no Nordeste brasileiro, está no centro de um debate paleontológico.
Batizado de Bakiribu waridza (boca de pente), o fóssil consiste em dois pares de mandíbulas com uma série de dentes muito finos e alongados preservados em um regurgito (vômito) que fossilizou há 110 milhões de anos. O artigo original, coordenado por Rubi Pêgas, pesquisadora associada do Museu de Zoologia da USP (Universidade de São Paulo), foi publicado em novembro na revista Scientific Reports.
Porém, pesquisadores que não participaram do estudo contestam a descoberta. Eles dizem que os elementos fossilizados seriam filamentos branquiais de peixe, possivelmente um Calamopleurus (espécie comum da bacia do Araripe). Um argumento a favor de tal hipótese é que junto do possível pterossauro foram encontrados também restos de quatro peixes fósseis.
A pesquisa teve início como parte do levantamento da coleção de fósseis do Araripe -até então, catalogados como peixes- no Museu Câmara Cascudo, vinculado à UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), em Natal. William Almeida, aluno de iniciação científica, levou o material para identificação por sua orientadora, a professora Aline Ghilardi, também autora do estudo. Ambos desconfiaram que não se tratava de um peixe, e sim de um pterossauro.
Após a publicação do estudo, os paleontólogos britânicos David Unwin, da Universidade de Leicester, Roy Smith e David Martill, da Universidade de Portsmouth, e Samuel Cooper, do Museu de História Natural de Stuttgart, na Alemanha, compartilharam no repositório online bioRxiv um preprint (isto é, ainda sem revisão por pares) em que discordam da identificação original e afirmam que a concreção e as estruturas anatômicas descritas no estudo seriam de um conjunto de arcos branquiais de peixes.
De acordo com Martill, os arcos branquiais são uma estrutura muito fácil de reconhecer quando se tem um conhecimento anatômico do grupo. "Quando eu li o artigo, pensei 'uau, encontraram um pterossauro filtrador no Araripe'. Mas para mim foi uma decepção. Em peixes grandes, os arcos branquiais são também longos."
Para ele, a afirmação de que se tratava de um pterossauro filtrador deveria ser acompanhada de evidências incontestáveis. "Você precisa encontrar características ósseas de mandíbulas de pterossauros, e eles não encontraram."
Pêgas, porém, refuta as críticas apresentadas no preprint e diz que os britânicos fizeram "interpretações grosseiras e mentiram em parte da descrição" e que ela e seus colegas estão preparando novas análises que corroboram se tratar de um pterossauro.
"Superficialmente, pode até ter semelhanças [com arcos branquiais de peixes], mas as diferenças estão nos detalhes. Nós mostramos que os dentes têm cavidades de polpa", explica Pêgas.
Ela diz que recebeu um email de Martill logo após a publicação do estudo dizendo que haviam cometido um erro e que deveriam retratar o artigo.
Os autores brasileiros afirmam que contestações e opiniões divergentes são parte do rito científico, e estas são bem-vindas, quando acompanhadas de diálogo. "O contato foi impositivo, e não conversativo, digamos assim", diz Pêgas.
Martill diz que o alerta sobre Bakiribu foi feito "apenas para que o erro não continue". Ele afirma ter consultado especialistas em peixes e em pterossauros e que todos confirmaram a reinterpretação. Também diz ter entrado em contato com editores do grupo Nature, que publicou o artigo original, mas que não recebeu resposta da equipe editorial da revista.
Rafal Marszalek, editor-chefe da Scientific Reports, diz que a equipe editorial avaliou as dúvidas levantadas pelos ingleses e levaram a questão aos autores. A conclusão foi que não havia nada que comprometesse a validade do artigo original.
"Nosso papel é garantir que a pesquisa que publicamos seja cientificamente válida e atenda aos nossos padrões editoriais. Divergências de opinião são uma parte normal do processo científico, não indicando necessariamente a invalidade de uma pesquisa. Recebemos e respondemos às comunicações dos críticos. Como seus comentários agora estão disponíveis publicamente via preprint, a comunidade científica pode discutir os pontos levantados", disse por email.
REVISTA BRASILEIRA
O manuscrito com a reinterpretação foi submetido à revista Anais da Academia Brasileira de Ciências (AABC) no final de janeiro e aceito para publicação no dia 16 de março. Segundo Martill, os dois revisores que avaliaram o trabalho -ambos brasileiros- concordaram com a reinterpretação.
De acordo com Alexander Kellner, editor-chefe da AABC responsável pela edição do manuscrito, no mesmo volume será publicado um editorial de sua autoria, dizendo concordar que o fóssil é um peixe e que os autores brasileiros cometeram um equívoco. Kellner, ex-diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro (de 2018 até fevereiro de 2026), é especialista em pterossauros. "Não tinha como não falar nada, e tudo bem, erros na paleontologia ocorrem", diz à reportagem.
Kellner afirma ainda que abriu espaço aos autores do artigo original para publicarem uma tréplica no mesmo volume com o prazo de 30 dias para submissão, o que foi considerado inviável pela equipe. Os pesquisadores dizem que se sentiram pressionados.
"Como autora correspondente, respondi informando que não tínhamos como entregar o manuscrito, pois o material ainda estava passando por novas análises, e ele me respondeu que 'se encerra ali a possibilidade no presente ou no futuro de ter uma resposta àquele assunto'", diz Ghilardi.
Além da pressão do prazo, os pesquisadores alegam que já havia uma posição tomada por Kellner antes mesmo de qualquer resposta. "Vamos procurar agora uma terceira revista para publicar nossa reanálise", afirma Pêgas.
Segundo Kellner, o espaço dado aos autores foi um gesto de responsabilidade editorial. "Foi dada a chance para eles responderem, como editor eu não poderia publicar sem levar a questão aos autores. Mas eles recusaram."
As hipóteses de reinterpretação, até o momento, baseiam-se em fotografias: como o material encontra-se sob estudo, os pesquisadores foram os únicos a ter acesso físico ao fóssil.
"Nem o Martill, nem os seus coautores solicitaram ver o material para análise", diz Borja Holgado, curador do museu onde está o holótipo, em Sanata do Cariri (CE) e um dos autores do estudo. Pêgas afirma que chegou a convidar os críticos para visitar o espécime, que está em empréstimo no MZUSP, em São Paulo, mas o convite não foi aceito.
O preprint suscitou alguns comentários em redes sociais. Ghilardi diz que o artigo vem sofrendo ataques que considera direcionados a ela e aos colegas.
Uma conta sem identificação no Bluesky chegou a marcá-la repetidamente em publicações questionando a competência dos pesquisadores. O usuário tinha localização na Europa.
Martill é conhecido por ter descrito diversos fósseis brasileiros, entre os quais o dinossauro com penas Ubirajara jubatus.
Ghilardi e seu marido, Tito, encabeçaram uma campanha para reivindicar a repatriação do fóssil, que estava depositado em um museu na Alemanha. Após a repercussão, a revista Science retratou ("despublicou") o artigo de Martill, e o material foi devolvido ao Brasil.
Martill afirma que não pretende descredibilizar a ciência brasileira, mas que está apenas apontando um equívoco. "O Brasil tem muitos bons paleontólogos, isso não é um ataque à paleontologia brasileira, é apenas uma tentativa de apontar que, nesse caso, os autores erraram, na nossa opinião."