Arqueóloga organiza 'tijoloteca' para contar história de construções em São Paulo
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nascida no Sacomã, na zona sul de São Paulo, a historiadora e arqueóloga Angélica Moreira da Silva, 57, cita o bairro quase como um catalisador do que viria a ser seu caminho profissional. Na vizinhança, onde hoje funciona um terminal de ônibus, existiu uma olaria fundada por imigrantes franceses no fim do século 19.
Proeminente na época, a marca Sacoman Frerès aparece em uma série de tijolos presentes em construções históricas de São Paulo, como o edifício Ramos de Azevedo, um dos sítios arqueológicos analisados pela especialista para organizar a primeira "tijoloteca" do estado, com 216 peças classificadas em dois catálogos lançados em 2024 e 2025 que narram parte do início da industrialização em terras paulistas.
Por serem de Marselha, região portuária na França, os donos da olaria Sacoman possivelmente usavam a figura de uma âncora como uma espécie de marca original, que foi amplamente reproduzida por oficinas menores como uma forma de referência de qualidade, especula a arqueóloga. "Tijolo pode ser um arroz de festa e passamos batido por ser recorrente, mas é um artefato histórico como qualquer outro, como as cerâmicas indígenas", diz a especialista. "São referências de narrativas e informações sobre nossas construções", continua.
A dedicação aos tijolos como condutor de histórias começou em 2017, quando pesquisas a levaram a uma sala no Centro de Arqueologia de São Paulo. "Era um acervo técnico com mais de 2.000 tijolos em caixas, sem tratamento ou catalogação", lembra.
A identificação incompleta do material a incentivou a criar uma metodologia que deu origem aos dois catálogos lançados como coleção referência.
As peças analisadas foram encontradas em escavações feitas nas décadas de 1980 e 1990 em sítios arqueológicos paulistanos, como o Morrinhos, conjunto arquitetônico construído em 1700, e, mais recentemente, o parque Augusta, onde funcionou um colégio de freiras no começo do século 20. "Antes, tinham apenas fichas de campo de arqueologia. Organizei os tijolos por descrição, peso, cor e dimensão."
O trabalho mais minucioso foi o de decifrar as letras e símbolos impressos nas peças que guardam informações sobre as construções em que foram usadas, e a história do início do desenvolvimento da cidade. "Não quero tijolo em caçambas, mas contando história."
Para isso, Angélica conta que recorreu a livros de impostos da época e referências de materiais construtivos para tentar descobrir a identidade dos proprietários das olarias que funcionavam na várzea dos rios Tietê e Pinheiros para facilitar o acesso às jazidas de argila.
O tamanho das peças também deram pistas sobre a época da construção a partir da padronização de regras de engenharia civil de cada época.
Por exemplo, pela inscrição "B. Retiro" em tijolos encontrados em 1992 no subsolo do edifício Ramos de Azevedo, onde hoje funciona o Arquivo Histórico de São Paulo, a pesquisadora analisou se tratar de um material usado antes da construção do prédio histórico, datado de 1907. As letras fazem referência à olaria Bom Retiro, ativa até 1896. Portanto, os tijolos foram usados, possivelmente, nas obras da residência que ocupou o terreno anteriormente.
Há peças que, no lugar de letras, aparecem figuras como estrelas, meias-luas e flechas, indício de apagamento do trabalho de artesãos que não sabiam ler ou escrever, na opinião da arqueóloga. "O tijolo é um artigo reproduzível e precisa de marcas para diferenciar a origem da produção. A partir dessa análise podemos olhar para a cidade por meio dessas histórias não contadas."
Entre os símbolos que mais intrigam a pesquisadora, é o de uma estrela acompanhada por uma cauda que pode fazer referência à passagem do cometa Halley próximo a Terra em janeiro de 1910, já que o fenômeno se repetiu 76 anos depois, em 1986. "Esse tijolo aparece em uma série de construções, como no sítio Morrinhos, na Casa do Grito, no parque Augusta, dentro do Batalhão da Rota e na Pinacoteca", diz.
Apesar da referência a um marco do início do século 20, a peça aparece em edificações de datas diferentes, segundo Angélica. "Além disso, as construções demoravam até 20 anos para serem concluídas naquela época."
Antes de se dedicar à "tijoloteca", ela trabalhou por mais de 30 anos em obras do Metrô de São Paulo como analista arqueológica, e estagiou no Departamento do Patrimônio Histórico, órgão municipal responsável pela preservação do patrimônio cultural da cidade.