Obras de parques públicos se arrastam na zona leste de SP, onde áreas verdes são escassas
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A zona leste de São Paulo concentra a menor quantidade de áreas verdes por habitante da capital paulista, enquanto projetos de parques públicos enfrentam anos de atraso e disputas judiciais. Apesar de investimentos anunciados pela prefeitura, moradores ainda lidam com falta de arborização, altas temperaturas e longas distâncias até espaços de lazer. Bairros como Mooca, Vila Prudente e São Lucas estão entre os afetados.
Na Mooca, moradores enfrentam dificuldades para acessar áreas verdes. O parque mais próximo, o Parque Estadual do Belém, fica a cerca de 1 hora e 13 minutos de caminhada ou 44 minutos de transporte público a partir do terreno onde será implantado o Parque da Mooca. Já o Parque do Piqueri, está a aproximadamente 1 hora e 26 minutos a pé ou 54 minutos de transporte público.
De acordo com a tabela de cobertura vegetal por habitante do Mapeamento Digital da Cobertura Vegetal do Município de São Paulo, publicado pela prefeitura em 2020, a Mooca aparece na 25ª posição entre as 32 subprefeituras da capital paulista, com 4,35 km² de cobertura vegetal e 11,83 m² por habitante
No mesmo levantamento, a Vila Prudente ocupa a 28ª colocação, com 2,46 km² de área verde e apenas 10,14 m² de cobertura vegetal por habitante.
A escassez de espaços verdes impacta diretamente o clima da região. A Mooca é frequentemente apontada como uma das regiões mais quentes da cidade, com temperaturas até 3°C acima da média. Em um dos dias mais quentes deste ano, o bairro registrou 36,4°C.
Os moradores aguardam desde 2024 a abertura do Parque da Mooca. Em junho daquele ano, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) visitou o local na 31ª edição da Prefeitura Presente para mostrar o início das obras, entre a rua Barão de Monte Santo e Dianópolis. Durante a visita, foi previsto que o parque seria entregue ainda em 2024. Quase dois anos depois, a obra ainda não foi concluída.
O futuro Parque da Mooca deve contar com playground, academia ao ar livre, trilhas para caminhada e áreas de convivência. Ainda assim, a demora gera frustração entre moradores.
O publicitário Daniel Santiago, morador do bairro, afirma que a falta de áreas verdes é uma preocupação constante. Segundo ele, a criação de um parque na região seria uma "dádiva" para os moradores, especialmente diante das altas temperaturas.
"Um parque desse porte seria excelente para andar, correr, levar os filhos ou até fazer um piquenique", diz. Daniel também critica a falta de arborização nas ruas e aponta que alternativas na região são limitadas. Segundo ele, o Centro Esportivo Mooca é uma opção, mas voltada principalmente à prática esportiva, e não ao lazer.
Procurada, a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SMVA) informou que a entrega do Parque da Mooca está prevista para o primeiro semestre de 2026. Segundo o órgão, a obra está em fase final de acabamento, mas a data de inauguração ainda não foi definida.
No distrito da Água Rasa, o projeto do Parque Vila Ema se arrasta há mais tempo. A região não conta com parque municipal. O terreno, localizado na Avenida Vila Ema, tem cerca de 17 mil m² e era uma antiga chácara de imigrantes alemães.
A área abriga centenas de árvores nativas, nascentes e diversas espécies de aves. Já foram registradas 42 espécies de animais no local, incluindo algumas ameaçadas de extinção, como o tucano-de-bico-verde e o periquito-rico, típicos da Mata Atlântica.
Apesar da importância ambiental, o terreno permaneceu por anos no centro de uma disputa entre moradores e a construtora responsável. A mobilização começou em 2010, quando havia previsão de construção de torres residenciais no local. Desde então, moradores organizaram abaixo-assinados, manifestações, audiências públicas e ações judiciais para garantir a preservação da área. O processo só avançou no fim de 2025.
Em 28 de janeiro de 2026, a prefeitura tomou posse oficial do terreno, abrindo caminho para a implantação do parque. Segundo Fernando Sálvio, integrante do movimento Viva o Parque Vila Ema, a comunidade segue acompanhando o andamento do projeto. "Estamos aguardando o término da licitação e continuamos fiscalizando e cobrando a obra. Agora vemos um empenho maior da prefeitura, o que traz um alívio", afirma.
O integrante do movimento ressalta que o abandono prolongado do parque deixou marcas. "A construtora deixou o terreno com lixo e árvores mal cuidadas. Foi uma luta longa para garantir a preservação", diz.
O secretário do Verde e Meio Ambiente da cidade de São Paulo, Rodrigo Ashiuchi, afirma que a demora do projeto do parque se deveu a entraves jurídicos e à negociação do valor do terreno. Segundo o secretário, a construtora inicialmente pediu R$ 20 milhões, valor recusado pela administração pública, fazendo com que a situação se arrastasse ao longo dos anos. O terreno acabou sendo adquirido por R$ 7,5 milhões.
De acordo com o secretário, as obras devem começar ainda no fim do primeiro semestre de 2026, "se tudo der certo". A conclusão está prevista para junho de 2027, com cerca de 12 meses de execução. Ashiuchi ressalta que o governo Nunes investiu altos valores em parques em áreas verdes na zona leste de SP.
O secretário ainda acrescentou que o novo parque deve contar com uma sede administrativa, guarita, mini quadra, academia, horta e pista de caminhada. A proposta é preservar ao máximo a vegetação existente e a fauna local.
De acordo com plano oficial da prefeitura, mais de R$ 280 milhões foram investidos em áreas verdes, incluindo aquisição de terrenos e requalificação de parques. Ainda assim, moradores seguem cobrando a efetivação das obras e maior acesso a espaços públicos de lazer na zona leste da capital.
No distrito de São Lucas, outro projeto segue sem sair do papel. Em 2017, o então presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite, sancionou o projeto de lei que criou o Parque Verde do São Lucas, proposta originalmente em 2013 pela vereadora Edir Sales.
O projeto previa a implementação do parque em uma área de cerca de 90 mil m² no terreno da antiga fábrica da Linhas Corrente, no Jardim Independência. Após desapropriações, restaram 86 mil m² disponíveis. A área foi objeto de uma proposta de doação à prefeitura.
Até hoje, o parque não foi implementado. A SMVA afirma que o atraso se deve a impasses burocráticos na aquisição da área, classificados como "imbróglios recorrentes". O órgão acrescentou que a a proposta da doação da área para a prefeitura está em análise quanto ao seu grau de vantagem para o município.
Segundo a secretaria, o estudo preliminar da área já foi concluído. As próximas etapas incluem a elaboração do projeto executivo e, posteriormente, a abertura de licitação para implantação do parque.
Moradores da região relatam que o terreno permanece abandonado, com árvores caídas e sinais de descuido.