Estudo traz pistas sobre células do HIV que continuam no corpo humano mesmo durante tratamento

Por SAMUEL FERNANDES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma nova tecnologia ampliou o entendimento sobre as células infectadas por HIV que persistem mesmo durante tratamento com antirretroviral. Através da ferramenta os cientistas identificaram hipóteses que podem explicar como as células do vírus continuam latentes mesmo diante da terapia, algo que pode ser convertido futuramente em novas estratégias de tratamento.

O artigo foi publicado na revista científica Nature Communications. Uma das autoras é Nadia Roan, pesquisadora sênior do Instituto Gladstone e professora da Universidade da Califórnia em San Francisco, ambos nos Estados Unidos. Ela afirma que entender mais sobre o reservatório de células latentes do HIV é importante porque, frente a uma interrupção do tratamento com antirretrovirais, é comum que essas células voltem a replicar.

Essas células persistentes também são uma das razões de por que pacientes que vivem com HIV são mais suscetíveis a comorbidades, respondem menos a vacinas e apresentam envelhecimento precoce, entre outros problemas de saúde. "Mesmo que o vírus não possa infectar novas células [por conta dos antirretrovirais], não é bom para o sistema imunológico lidar com o patógeno por anos a fio", afirma Roan.

Mas ainda não existia uma tecnologia que permitisse analisar as células remanescentes de forma precisa. Uma ferramenta promissora era o sequenciamento de RNA de célula única, que permite identificar quais genes estão ativos em células individuais. O instrumento, no entanto, não funciona de forma adequada no caso do HIV porque os fragmentos produzidos pelo vírus nas células infectadas não são bem captados pelo sequenciamento.

A solução proposta pelos autores da pesquisa foi criar uma tecnologia, chamada HIV-seq, para identificar especificamente células que produzem RNA do HIV. Em testes, os pesquisadores observaram que a HIV-seq permite detectar o dobro de fragmentos de RNA do vírus por célula em comparação ao sequenciamento convencional.

Para validar a ferramenta, os pesquisadores realizaram uma análise preliminar com três pessoas que vivem com o HIV. Células desses indivíduos foram coletadas antes e depois do tratamento com antirretrovirais. Ao comparar essas duas categorias de células, os autores constataram hipóteses que podem explicar como algumas células infectadas pelo HIV sobrevivem e ficam em estado latente mesmo diante da terapia com medicamentos.

Uma das hipóteses levantadas é que as células latentes de HIV resistem ao processo de apoptose, um mecanismo natural de morte celular. Outra característica dessas células é que elas se escondem do sistema imunológico, o que também pode levar à sua existência prolongada no corpo humano.

Esse entendimento pode ser essencial para desenvolver tratamentos que mirem as células latentes, o que, aliado aos antirretrovirais, seria importante para o controle do HIV. "Os medicamentos antirretrovirais estão cumprindo muito bem o seu propósito de impedir a disseminação do HIV. O que a terapia não faz é eliminar a pequena população de células de longa duração, pois não há nada nesse tipo de medicamento que faça isso", afirma Roan.

A pesquisadora diz, contudo, que definir novos mecanismos terapêuticos requer a realização de outras pesquisas, uma vez que o estudo em questão foi focado em desenvolver a tecnologia HIV-seq e testá-la de forma experimental em somente três participantes. Ainda assim, a pequena amostra já traz algumas percepções preliminares que posteriormente podem se converter em mecanismos contra as células de longa duração do vírus, ela afirma.

Células cancerígenas, por exemplo, também são reconhecidas por resistirem ao processo natural de morte celular, e existem medicamentos que têm como alvo a proteína responsável por tal mecanismo. Esses remédios poderiam ser testados para o caso do HIV a fim de observar se haveria efeito parecido nas células persistentes do vírus.

Outra possibilidade é entender mais a fundo como as células latentes agem após a suspensão da terapia contra o HIV. Em outra pesquisa, publicada na revista científica Immunity, Roan e os co-autores investigaram o tema ao focar em pacientes que, mesmo após a interrupção do tratamento, mantêm o vírus controlado por meses ou até mesmo por anos.

Os cientistas concluíram que dois genes aparentam manter o vírus em estado latente mesmo com o fim da ingestão de antirretrovirais. "Esses dois estudos estão interligados. Em um deles, desenvolvemos uma tecnologia para entender melhor o reservatório de células latentes do HIV, enquanto que, no outro, buscamos compreender o que acontece com esse reservatório quando as pessoas interrompem a terapia", afirma Roan.