Áreas protegidas na região de Abrolhos geram 29 mil empregos e R$ 536 milhões em renda, diz estudo

Por JÉSSICA MAES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A preservação de paisagens costeiras entre o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo não apenas zela pela biodiversidade, mas também se reverte em renda. É o que mostra um novo levantamento do WWF-Brasil, ONG (Organização Não-Governamental) voltada para a conservação, que estimou que nove unidades de conservação na região geraram mais de 29 mil empregos e injetaram R$ 536,3 milhões na economia local.

Publicada nesta terça-feira (7), a pesquisa analisa a importância econômica das áreas protegidas marinhas e costeiras para os setores da pesca e do turismo, além dos empregos associados à gestão das unidades. Os dados são referentes a 2024.

Foram estudadas cinco UCs (Unidades de Conservação) em território baiano: o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, as Resex (Reservas Extrativistas) de Cassurubá e Canavieiras, a Resex Marinha do Corumbau e o Parque Natural Municipal Marinho do Recife de Fora ?o único fora da esfera federal.

No Espírito Santo, por sua vez, foram analisadas: as APAs (Área de Proteção Ambiental) de Costa das Algas e da Foz do Rio Doce, o Refúgio de Vida Silvestre de Santa Cruz e a Reserva Biológica de Comboios.

"O pessoal da região ficou muito animado e também impactado quando levamos essas informações para conselhos e comunidades. As pessoas não sabiam o valor do serviço que fazem", afirma a bióloga Danieli Nobre, analista sênior de conservação do WWF-Brasil, com foco em preservação marinha.

Natural de Cumuruxatiba, distrito do município de Prado (BA), ela faz parte de uma das 600 famílias beneficiárias da Resex Corumbau. São apenas as comunidades tradicionais que podem usar e extrair os recursos naturais, fazer turismo e pescar neste tipo de reserva, classificada como de uso sustentável.

No caso das APAs, é possível que pessoas que não são daquela região desenvolvam atividades econômicas, mas seguindo regras específicas. Já áreas de proteção integral, como parques e reservas de vida silvestre, são destinadas exclusivamente à preservação de ecossistemas, sendo permitida apenas a visitação.

Do total, a pesca respondeu por 22.137 postos de trabalho associados às UCs, com destaque para as Resex Canavieiras, Cassurubá e Corumbau, enquanto o turismo impulsionou a geração de 6.955 empregos. Outros 71 postos vêm do setor ambiental, "essencial para garantir a proteção dos ecossistemas que sustentam essas atividades", segundo o estudo.

O número de visitantes que se deslocaram para a região motivados pelos seus recursos naturais foi estimado com base em informações do Ministério do Turismo. Os dados mostram que a categoria natureza/ecoturismo é o principal atrativo para, em média, 12% dos viajantes.

A pesquisa integra um projeto coordenado pela ONG, em parceria com o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e com atores da sociedade civil, com o objetivo de apoiar a implementação e ampliação da rede de áreas marinhas protegidas do Brasil.

A paisagem costeira-marinha estudada abrange dois dos mais importantes bancos de corais do Atlântico Sul, o banco de Abrolhos e o Royal Charlotte, que incluem a foz do rio Jequitinhonha até a foz do Rio Doce.

"Os limites dessa região foram definidos com base em critérios ecológicos, geográficos e científicos, refletindo a importância da região para a biodiversidade marinha do Atlântico Sul. A área cobre aproximadamente 56 mil km² da plataforma continental brasileira, estendendo-se até 200 km da costa", explica Nobre.

Em termos de biodiversidade, recifes de coral podem ser comparados às florestas tropicais: apesar de ocuparem só 1% da superfície da Terra, esses ecossistemas abrigam um quarto de toda a vida marinha. Assim, são fundamentais para a manutenção de atividades como a pesca.

Além disso, a região faz parte da rota migratória das baleias-jubarte, que viajam da Antártida até as águas quentes da Bahia para se reproduzir e cuidar dos filhotes.

"O parque de Abrolhos serve como um berçário", conta a bióloga, ressaltando que o veto à pesca nas áreas de proteção integral garante a manutenção dos estoques pesqueiros fora delas.

"Os peixes não têm limites, então eles vão de Abrolhos para áreas sem proteção ou onde pode haver extração. É a partir desse entendimento que foram criadas as áreas protegidas?primeiro, o parque e depois as reservas extrativistas, já que os pescadores utilizam muito a pesca como subsistência e fonte de renda", diz ela.

A especialista destaca, ainda, que os dois modelos de UCs são complementares e fazem parte de uma visão sistêmica.

Na área compreendida pela pesquisa estão 14 municípios, dez na Bahia e quatro no Espírito Santo.

Considerando os empregos diretos e indiretos da região, a atividade pesqueira gerou 31,3 mil postos de trabalho e uma renda estimada de R$ 537 milhões em 2024. O setor de turismo criou 65,7 mil empregos e uma receita de R$ 1,35 bilhão. Assim, os dois setores garantiram 97 mil postos de trabalho e movimentaram R$ 1,9 bilhão no período.

A ideia, segundo a especialista do WWF-Brasil, é que as informações sejam usadas no fortalecimento de políticas públicas para a região.