Artista que teve castelo de areia demolido na praia da Barra (RJ) volta a esculpir e diz não ter alternativa
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O escultor e livreiro Marcio Mizael Matola, 52, responsável pela construção de um castelo de areia que foi demolido por agentes da prefeitura na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, voltou ao local e está reconstruindo a escultura.
A construção na altura do posto 2 serve de abrigo para Marcio, que costuma dormir e guardar objetos pessoais na parte interna da escultura. O espaço tem uma prateleira de doação e troca de livros.
Demolida no último dia 30, a escultura anterior possuía torres laterais e centrais, fortes e casamatas. Nesta segunda-feira (6), uma semana depois da demolição, o escultor estava novamente no local e trabalhava na reconstrução.
A nova versão do castelo tem por enquanto uma torre central, feita com areia endurecida com água.
A escultura foi demolida, segundo a subprefeitura da Barra da Tijuca, por conta de denúncias sobre as condições do local ?o órgão não especificou quais condições.
Ainda segundo a subprefeitura, a Defesa Civil do município identificou que havia risco de instabilidade e desabamento em uma vistoria feita antes da demolição, e afirmou que Marcio foi orientado previamente.
A reportagem perguntou por e-mail, nesta segunda, se Marcio foi multado em dinheiro e se haveria possibilidade de regularização do artista no local, como uma autorização para esculpir sem que haja estrutura interna de abrigo. Não houve resposta até a publicação deste texto.
A ação dos agentes da prefeitura gerou opiniões divergentes. Em publicações no Instagram, Marcio recebeu apoio de críticos à demolição. Já em perfis dedicados a notícias sobre a Barra da Tijuca, pessoas defenderam a ação com o argumento de que é preciso ordenamento na praia.
O escultor afirma entender que a presença no local pode gerar incômodo em alguns moradores. A avenida do Pepê tem hotéis e condomínios residenciais.
Marcio afirma que dorme no local porque considera haver risco de alguém destruir as esculturas.
"Cria-se uma perspectiva de casa, mas dentro do castelo eram sacos de areia, como uma trincheira, com madeira por cima. O risco de cair era mínimo porque havia duas madeiras muito fortes no teto e o peso do castelo estava sobre essas madeiras. Embaixo [no chão] pus uma tábua grande para não afundar", afirma.
Marcio afirmou que antes da demolição agentes da prefeitura foram até o local para indicar irregularidades, mas a conversa, segundo ele, foi sobre os objetos que estavam espalhados pelo trecho da praia e obstruíam a passagem de banhistas.
As esculturas de areia, temporárias por conta de intempéries como chuva e umidade, são refeitas a cada dois meses, em média. O escultor está no local há 30 anos e aprendeu o ofício na infância, na praia do Flamengo ?ele vendia livros infantis e se interessou pelo trabalho de um artesão local, que o ensinou.
Marcio vive de doações de banhistas, especialmente turistas, e afirma ter voltado ao local porque "não tem alternativa". Ele diz que não pretende mudar de ponto.
As praias da zona sul, diz ele, são barulhentas e os ruídos atrapalham sua leitura diária. A secretaria de Assistência Social ofereceu acolhimento, mas ele recusou.
"Todo mundo tira foto, é um ponto turístico. A biblioteca era útil, as pessoas pegavam livros. Eu dependia da caixinha."