Alerta de aquecimento no Pacífico aponta para El Niño intenso em 2026
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Sinais recentes de aquecimento no Oceano Pacífico reacenderam o alerta de centros meteorológicos internacionais para a possível formação de um El Niño intenso ainda em 2026.
A chance de um El Niño se formar em 2026 cresceu e os primeiros sinais do fenômeno apareceram no Pacífico. A NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos) registrou ventos de oeste mais fortes no Pacífico Oeste e perto da Linha de Data (linha imaginária no oceano na região) no início de abril.
A NOAA calcula 62% de chance de o El Niño surgir entre junho e agosto. O órgão avalia que existe uma possibilidade em três de o evento ser forte no último trimestre do ano. Sinais oceânicos de transição são confirmados, mas o evento ainda não é classificado como "intenso" ou "super" neste momento.
Se a hipótese de um "super El Niño" se confirmar, o fenômeno pode ajudar a levar a temperatura global a níveis inéditos. O impacto dependerá da intensidade do evento e de como ele vai se combinar com o aquecimento. Isso porque o calor extra liberado pelo Pacífico se somaria a um planeta já superaquecido pelas emissões de gases de efeito estufa, o que faz elevar o risco de novos recordes.
COMO O FENÔMENO AFETA O CLIMA
O El Niño aquece as águas superficiais do Pacífico equatorial e altera a circulação da atmosfera. O fenômeno muda padrões de chuva, seca e temperatura em várias partes do mundo ao enfraquecer os ventos alísios. O evento natural funciona como um impulso extra em um planeta já aquecido pela ação humana.
Modelos europeus indicam a chance de um "super El Niño". Uma projeção do ECMWF (Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo), divulgada no último domingo (5), elevou o risco de um evento extremo, comparável aos recordes de 1997-98 e 2015-16.
No caso de 1997-98, a NASA diz que a ONU atribuiu ao fenômeno mais de 20 mil mortes e cerca de US$ 36 bilhões em danos de infraestrutura. A Organização Meteorológica Mundial (WMO) também trata o episódio como um dos mais fortes já registrados e o relaciona a alguns dos piores desastres de enchente e tempestade das últimas décadas.
Já o de 2015-16 também foi muito severo, embora a referência mais citada não seja tanto um número global de mortos, e sim o tamanho da crise social e alimentar. Segundo a NASA, os extremos climáticos ligados àquele El Niño deixaram 60 milhões de pessoas na África, Ásia, Pacífico e América Latina dependentes de assistência alimentar.
AVALIAÇÃO DE ESPECIALISTAS
A configuração atual dos ventos atua como um acelerador para o fenômeno. "Já é um cenário concreto", diz a meteorologista Estael Sias, da Metsul. Ela explica que episódios seguidos de ventos fortes criam um "gatilho atmosférico" que intensifica o El Niño.
O alerta tem base física observável e afeta as águas profundas do oceano. O fortalecimento dos ventos empurra o calor para o leste e favorece as chamadas ondas Kelvin (ondas de calor abaixo da superfície), mecanismo essencial para o evento surgir.
O El Niño aquece a água do oceano e altera as chuvas no Brasil. A redução dos ventos no Pacífico aumenta a temperatura na costa da América do Sul. Com isso, o Sul e parte do Sudeste brasileiro enfrentam mais chuvas, enquanto o resto do país sofre com a seca.