Pavimentação da BR-319 na amazônia eleva risco de novas pandemias, dizem pesquisadores na Science

Por GEOVANA OLIVEIRA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um grupo de 20 pesquisadores ligados a universidades brasileiras e estrangeiras publicou nesta quinta-feira (9) uma carta na revista Science alertando que a autorização do governo federal para obras da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, pode desencadear novas pandemias com impacto global. O avanço da mineração de potássio na região também é apontado como fator de risco.

A publicação ocorre dez dias após o Ministério dos Transportes do governo Lula (PT) autorizar o avanço das obras. A carta reúne dados de um levantamento que identificou mais de 18 mil patógenos na região cortada pela rodovia, entre vírus e bactérias desconhecidos, com características preocupantes como alta virulência, toxicidade, resistência a antibióticos e capacidade de trocar informações genéticas entre si.

"O desmatamento das florestas amazônicas aumenta os riscos de biossegurança em escalas local, regional e global. Se consolidada, a [pavimentação da] rodovia BR-319 conectaria um dos maiores reservatórios zoonóticos do mundo a aeroportos internacionais, aumentando substancialmente a velocidade e a escala com que novos patógenos poderiam se disseminar globalmente", diz trecho da carta.

O documento é assinado por pesquisadores de instituições como USP (Universidade de São Paulo), Unesp (Universidade Estadual Paulista), federais do Amazonas, da Bahia e de Minas Gerais, além do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e centros internacionais, incluindo a Universidade de Utrecht (Holanda) e a Trinity University (EUA).

"A gente está falando de rasgar o maior reservatório zoonótico do planeta", afirma o biólogo Lucas Ferrante, pesquisador da USP e autor principal do artigo. Os grandes rios amazônicos, ele explica, funcionam como barreira natural, isolando essas comunidades microbianas por milhares de anos.

Esses microrganismos, até então desconhecidos, poderão tanto se espalhar, gerando novas epidemias e pandemias, como se misturar a outros patógenos e gerar novas variantes para vírus e bactérias existente, afirma a carta.

O desmatamento na amazônia, diz Ferrante, tem se concentrado historicamente nas bordas, em áreas de transição com o cerrado, biologicamente menos diversas. Avançar até o centro, na floresta intocada, ele afirma, significa entrar em território que a ciência mal conhece. "Nosso organismo não reconhece esses microrganismos para ter uma defesa."

Na carta, os pesquisadores afirmam que esses surtos zoonóticos já estão em curso. Uma nova linhagem do vírus Oropouche, que surgiu no trecho central da BR-319, já circula por todo o Brasil e foi detectada também na América Central, na América do Norte e em países da Europa.

O documento aponta ainda que a variante Gama do coronavírus foi identificada pela primeira vez em Manaus e cruzou rapidamente as fronteiras internacionais. "Nós vemos essa nova negligência em um cenário potencialmente muito mais grave", diz.

Os pesquisadores alertam ainda para riscos ao agronegócio. Eles afirmam que, entre os patógenos encontrados, alguns são capazes de afetar plantações de cana-de-açúcar e soja e prejudicar rebanhos bovinos. "Isso quebra a economia do Brasil", afirma Ferrante.

Um levantamento inicial foi enviado em janeiro pelo grupo de pesquisadores ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), com recomendações para que as obras não prosseguissem diante do risco epidemiológico. "Submetemos para a Science, para passar pelo crivo de revisores e editores, e agora sai no formato de carta baseado nesses dados", diz Ferrante.

"Nossas descobertas indicam que a consolidação da BR-319 e a mineração de potássio não estão apenas ligadas ao desmatamento e à instabilidade climática, mas também criam vias ativas para a emergência e propagação global de patógenos", diz a carta.

Procurado, o Ibama confirmou que recebeu o estudo e disse que o documento está em análise. Afirmou, ainda, que no momento avalia pedidos de licença para a construção de quatro pontes na BR-319 e que o processo de licenciamento para a pavimentação do trecho do meio da rodovia está judicializado.

"O Ibama reitera que a análise do processo é conduzida com rigor técnico e em conformidade com a legislação ambiental vigente, respeitando as decisões judiciais e os limites de atuação da autarquia", disse o órgão, em nota enviada à reportagem.

A autorização das obras pelo Ministério dos Transportes foi embasada na Lei Geral do Licenciamento Ambiental, flexibilizada no fim de 2025 após pressão do Congresso Nacional. A nova regra dispensa o licenciamento para obras de manutenção e melhoria em rodovias preexistentes, e o governo federal entende que as obras na BR-319 se enquadram nessa categoria.

Também procurado, o Ministério dos Transportes não respondeu até a publicação desta reportagem.

Os pesquisadores concluem que os projetos precisam de uma reavaliação urgente, inclusive por parte dos parceiros comerciais internacionais, em conformidade com a abordagem de Saúde Única (One Health), que reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental.