Ocupação de áreas do parque Villa-Lobos por eventos fechados mobiliza frequentadores em SP

Por MARIANA ZYLBERKAN

SÂO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Frequentadora há mais de 15 anos da biblioteca do parque Villa-Lobos, na zona oeste de São Paulo, a advogada Ivy Farias, 44, conta que deu uma "baqueada" nos últimos tempos em relação à assiduidade do passeio que ocupava seus finais de semana. "É surreal o que eu vejo no caminho do portão até lá. Está tudo gradeado, ilhas e ilhas de espaços fechados", diz.

No caso, as grades são usadas para cercar áreas internas do parque para controlar o acesso do público a eventos e atividades patrocinadas por marcas.

Concessionária responsável pelo Villa-Lobos e pelo vizinho Cândido Portinari, a Reserva Parques disse que não houve mudança no padrão de uso do local.

Segundo a empresa, as ocupações "integram o modelo de uso multifuncional dos parques" e contam com planejamento para preservar a função pública dos espaços.

Levantamento feito pela Folha com base em comunicados da concessionária ao Conselho de Orientação aponta que no período de setembro a dezembro de 2025 foram 55 eventos ou atividades realizados no parque. No mesmo intervalo do ano anterior, tinham sido 31, o que indica um aumento de 77%. Os dados de 2026 ainda não foram divulgados.

A alta foi puxada sobretudo pelas ocupações de pequeno porte, que passaram de 9 para 34. Esse grupo inclui ativações de marca, experiências promocionais e atividades que, em geral, ocuparam áreas menores e atraíram público reduzido. Na base analisada, esses eventos ocuparam, em média, 4.570 m² e chegaram a reunir no máximo 3.000 pessoas por dia.

Embora não sejam consideradas eventos formais, as ativações de marcas acabam por delimitar áreas do parque. Um exemplo foi a instalação de um iglu por uma marca de inseticida em outubro do ano passado onde os participantes participaram de um jogo para expulsar insetos fictícios.

Em escala maior, há festivais, shows e grandes estruturas temporárias, que ocuparam, em média, 13,9 mil m² e receberam público superior a 10 mil pessoas diários. Esses eventos tiveram aumento mais contido no período: os de grande porte passaram de 9 para 13 registros, enquanto os de médio porte variaram de 7 para 8.

De setembro a dezembro de 2025, os parques receberam 15 corridas patrocinadas por marcas e 9 festivais de música e gastronomia. No mesmo período de 2024, foram 9 corridas e 8 festivais. O número de programação paga também cresceu, de 7 para 24, enquanto o de eventos gratuitos foi de 12 para 16 no período.

A Reserva Parques disse que usa números diferentes, a partir de "critérios reportados ao Poder Concedente, conforme definição técnica aplicável", sem detalhar o recorte utilizado.

Segundo a concessionária, o aumento da programação no período foi de 11%. "Em 2024, 63% das atividades ocorreram sem cobrança de ingresso, e 29% com cobrança. Em 2025, 58% foram sem cobrança e 42% com cobrança", afirmou a nota da empresa.

Um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) de 2006 limita em 10 mil pessoas o limite de público por dia nos parques Villa-Lobos e Cândido Portinari. Os termos, que incluem priorizar atividades culturais, esportivas e educativas, foram anexados ao contrato de concessão.

Em nota, a Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), órgão estadual responsável por fiscalizar a execução do contrato, disse que permite a delimitação temporária de áreas para eventos e a instalação de estruturas provisórias, desde que não haja prejuízo às demais atividades.

A agência também disse que tanto ela quanto o Conselho de Orientação dos parques precisam aprovar eventos com duração superior a 30 dias e público superior a 5.000 pessoas por dia.

Para José Police Neto, coordenador de núcleo do Centro de Estudos das Cidades, do Insper, a profusão de eventos privados no parque é indício de que a iniciativa privada tem valorizado e priorizado as áreas verdes em detrimento a espaços fechados.

"O desejo do setor privado de estar na área verde é benéfico porque traz competências de gestão para o local público, o que remunera e melhora o parque", diz o especialista. "Mas tem que ter responsabilidade para gerar beneficio para o coletivo e não somente para quem pode pagar."

Esse controle deve ser mediado pela sociedade civil por meio da participação nos conselhos gestores dos parques, que inclui representantes do poder público e da concessionária, segundo Police Neto.

O contrato de concessão assinado em 2022 permite o uso privado, mas não delimita a prática, apenas determina a obrigação da concessionária em manter sua função pública. A única proibição explícita é a cobrança de ingresso para entrar nos parques.

Vizinho dos parques há três anos, o gestor financeiro Jorge Larangeira, 56, conta ser recorrente finais de semana em que tem que ficar com tampões de ouvido em casa para minimizar o impacto do som alto dos eventos no Villa-Lobos. "Usam caixas de som em um volume altíssimo com músicas eletrônicas que começam às 7h", diz ele, afirmando ser a favor da privatização devido às melhorias na zeladoria e segurança dos parques.

A Reserva Parques disse que "adota medidas permanentes de controle", "com monitoramento acústico em eventos de grande porte". Desde a concessão, segundo a empresa, foram feitas readequações para reduzir a propagação sonora às áreas residenciais.