Artemis 2 fez mais de 7.000 fotos ao contornar a Lua e deve fomentar estudos sobre crateras

Por GABRIEL GAMA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Tirar fotos da Lua não era exatamente o objetivo principal da Artemis 2, da Nasa, missão voltada a validar equipamentos e abrir caminho para futuras viagens ao espaço. Mas qual o valor científico das imagens que os quatro astronautas fizeram pelas janelas da cápsula Orion?

Especialistas dizem à reportagem que o material deve impulsionar estudos sobre as crateras e a composição do satélite natural da Terra, fortalecendo o conhecimento acerca da formação do Sistema Solar.

Só durante o sobrevoo lunar de 6 de abril a tripulação da Artemis 2 produziu mais de 7.000 imagens da superfície do satélite e do eclipse solar que presenciaram, segundo a Nasa. Entre elas estão registros do pôr e do nascer da Terra, bem como de crateras, de variações de cores do terreno da Lua, de antigos fluxos de lava e da Via Láctea.

"Ao contrário do que as pessoas podem imaginar, não são só fotos bonitas. Elas trazem informação", diz Sandra dos Anjos, professora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP).

David Duarte, doutorando em ciências terrestres e planetárias na Universidade da Califórnia em Riverside (EUA), afirma que as imagens não são aleatórias. "Pelo contrário, todas tinham relevância científica planejada."

Na véspera do sobrevoo lunar, que durou sete horas, o centro de controle em terra enviou à tripulação uma lista com 30 alvos prioritários para fotos e análises. A relação inclui bacias surgidas há 4 bilhões de anos e locais cogitados para pousos em missões futuras.

A Nasa diz planejar a publicação de um relatório preliminar com base nas observações da Lua em até seis meses, incluindo anotações dos astronautas Reid Wiseman, 50, Victor Glover, 49, Christina Koch, 47, e o canadense Jeremy Hansen, 50.

"Uma sala de avaliação com várias dezenas de cientistas já está trabalhando nas imagens", afirmou Kelsey Young, chefe de ciência da missão, em uma entrevista coletiva. "As conversas e o aprendizado científico estão apenas começando."

RECURSOS NATURAIS

O sul da Lua é talvez a porção do satélite que desperta maior interesse, por ser o local em que a Nasa planeja pousar a Artemis 4, prevista para 2028.

A bacia polo Sul-Aitken fica no lado oculto (aquele que nunca é visível da Terra) e é conhecida por ser a maior cratera do Sistema Solar, com cerca de 10 km de profundidade.

O físico Wandeclayt Melo, especialista em imagens científicas e membro do projeto Céu Profundo, afirma que a região tem áreas sempre na escuridão, o que aumenta a chance de existir água congelada. Outra possibilidade é a presença de hélio-3, um gás que poderia mudar radicalmente a produção de energia na Terra.

A tripulação da cápsula Orion sobrevoou a Aitken no momento em que o Sol estava quase se pondo. A iluminação lateral favoreceu observações detalhadas sobre o relevo, graças ao terminador, como é chamada a linha divisória entre o dia e a noite na Lua.

"O Victor Glover falou que conseguia ver picos dentro das crateras, e isso a gente também vê com telescópios da Terra, mas ele falou que dava nitidamente a sensação de 3D e de crateras em que ele não esperava ver esses picos", afirma Duarte. "Isso talvez agregue conhecimento, porque ele deu a entender que viu de uma maneira diferente do que vemos nas fotos."

A tripulação foi treinada para notar variações na tonalidade da superfície lunar e relatou áreas verdes e marrons no planalto de Aristarchus, que provavelmente teve atividade vulcânica no passado.

"Essas cores revelam diferentes composições minerais da superfície, o que será muito importante no futuro para a mineração", diz o pesquisador da Universidade da Califórnia.

Melo acrescenta que observações sobre áreas da Lua que refletem mais luz do Sol (o efeito conhecido como albedo) serão importantes para entender a temperatura e a idade do terreno.

EVOLUÇÃO DE CRATERAS

Os astronautas também tiveram a tarefa de observar a bacia Orientale, uma cratera que se estende entre os lados visível e oculto da Lua. Estima-se que essa formação surgiu há 3,8 bilhões de anos, quando um grande objeto atingiu a superfície do satélite, deixando evidências da colisão preservadas até hoje. Duarte diz que as fotos e observações da Artemis 2 vão fornecer dados sobre o local.

Outro alvo foi a bacia Hertzsprung, que fica próxima à Orientale, na face lunar invisível da Terra. Cientistas dizem acreditar que essa bacia seja mais velha, porque suas características se degradaram com o impacto de meteoritos.

A Nasa prevê que a comparação entre a topografia das duas regiões ajudará a estudar como as estruturas lunares evoluem com o passar dos anos. "Eles viram, ao mesmo tempo, duas crateras formadas por um impacto muito grande, mas de eras geológicas bem diferentes", diz Melo.

Duarte afirma que há uma chance concreta de avanços em estudos a partir dessa análise. "As imagens podem ser um passo na direção de tentar entender por que a crosta do lado oposto da Lua é mais espessa do que a do lado visível. Há várias teses e hipóteses, mas ainda não tem uma definição na comunidade científica."

Sandra, do IAG-USP, diz que as imagens também podem ajudar a fortalecer as hipóteses sobre a origem da Lua. Além disso, segundo ela, os registros contribuem para mostrar a diferença entre o lado virado para a Terra, mais montanhoso, e o lado oculto, repleto de crateras.

"Quanto mais estudamos a Lua, mais nosso conhecimento sobre sua formação e sobre a formação de outros corpos do Sistema Solar avança, aproximando-nos de uma compreensão mais realista da nossa própria origem", diz Ramachrisna Teixeira, professor do IAG-USP.

IMPACTO DE METEORITOS

A tripulação testemunhou o impacto de meteoritos na Lua, vistos como pontos de luz. Young, da Nasa, disse que a colisão traz à superfície materiais que estavam enterrados nas profundezas, o que ajuda a estudar camadas de solo que seriam inacessíveis de outra forma.

Duarte afirma que a Artemis 2 também teve uma vantagem sobre os satélites nesse aspecto, já que o intervalo entre as imagens das sondas compromete essas observações. "Eles coletaram mais dados sobre a distribuição desses impactos na Lua, e isso é bem difícil de fazer aqui da Terra ou mesmo por orbitadores."

ECLIPSE SOLAR

Ao contornarem a Lua, os astronautas puderam observar um eclipse solar, sem a interferência da atmosfera terrestre e com o Sol iluminando o contorno do satélite natural. Melo diz que o momento foi uma oportunidade para avaliar se existe poeira em suspensão na Lua.

Para o especialista, a Artemis 2 saiu na frente dos satélites comuns, que costumam fazer imagens perpendiculares à superfície, impedindo a análise das partículas. "Isso é muito difícil de estudar à distância, precisa estar realmente lá perto para observar melhor."

Ele afirma que essa é uma das conclusões científicas mais aguardadas da missão, porque as partículas em suspensão podem comprometer o funcionamento de veículos e trajes espaciais em missões tripuladas. "Qualquer um dos resultados, se achou ou não, será uma informação muito importante."