Ouvidoria quer apuração por demora em socorro a mulher baleada por PM em SP
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A Ouvidoria das Polícias de São Paulo solicitou que a Corregedoria da Polícia Militar apure a demora para o socorro da mulher que morreu após ser baleada por um tiro de uma policial na zona leste.
Ouvidoria aponta falha no protocolo da Polícia Militar. Segundo ouvidor Mauro Caseri, PMs teriam que permitir que Luciano Gonçalves Santos, companheiro de Thawanna Salmázio, 31, prestasse socorro.
Policiais argumentaram que socorro de Luciano iria interferir na cena do possível crime. Eles citaram a resolução SSP-05, de 2013, que já é considerada obsoleta após decisão do TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo), que tem o entendimento de que, em muitos casos, o atendimento não pode esperar a chegada do Samu. O Juízo determinou que uma resolução não pode rebaixar o direito à vida.
"A orientação para o PM é que ele deve chamar o Samu para promover o socorro. Mas ele tem que saber que se demorar o Samu, ele pode tomar providências, chamar o Copom e esperar o retorno, passar a situação do ferimento", disse Mauro Caseri, ouvidor.
Mauro Caseri disse que não existe lei que impeça o PM de permitir o socorro imediato da vítima. Ele criticou o andamento da ocorrência da madrugada de 3 de abril, que vitimou a ajudante-geral com um tiro no abdômen. A defesa da policial militar Yasmin Cursino Ferreira, que baleou a ajudante geral, disse que a PM "agiu dentro da lei" e pediu socorro imediatamente.
"Tem algo que me incomoda que é por exemplo: ele tentou socorrer sua esposa, mas ele foi impedido. A legislação orienta que a polícia chame o Samu, mas não tem lei que impeça o familiar de promover o socorro. Ele poderia falar: se o senhor socorrer é por conta em risco do senhor. A imagem seria gravada do momento", disse Mauro Caseri, ouvidor, ao UOL.
O UOL revelou que Luciano foi impedido por agentes da PM de chegar perto da companheira. Thawanna agonizou por mais de 30 minutos até a chegada de uma ambulância.
Luciano Gonçalves dos Santos contou que foi impedido por policiais militares de acompanhar a esposa baleada. Segundo ele, foi contido durante toda a ocorrência, sendo impedido de prestar socorro à companheira e de acompanhá-la ao hospital, ainda quando ela apresentava sinais vitais.
Policiais mandaram Luciano ir para a delegacia, mesmo sem a morte da mulher ter sido constatada. Ele afirma que foi empurrado para longe de Thawanna durante todo o tempo e que chegou a ser atingido com spray de pimenta. Em imagens obtidas pelo UOL, Luciano, em prantos, grita para que a esposa se levante e vá ao seu encontro. Ela tenta se erguer, apoiando o braço no chão, mas um policial aparece e aponta uma arma de grosso calibre contra ela.
'Se você for, você vai levar", disse um policial ao homem enquanto ele pedia para ver a mulher. Luciano contou à reportagem que pedia para seguir para o hospital junto com a companheira, mas foi orientado a prestar depoimento.
"Quando eu olhei, vi o Samu, daí tranquilizei. Daí o Samu pegou, levou ela. Não deixaram eu ir junto com a minha mulher. eu nunca mais vi minha mulher. Não deixaram. Eu queria ir na ambulância. Meu sonho era tá do lado dela ali e acompanhar até o hospital. Eu não sei o que aconteceu aquela noite. O que eles queriam comigo", disse Luciano Gonçalves Santos, marido de Thawanna.
Caseri também aponta infração por parte do policial militar Weden Silva Soares. Ele guiava a viatura no momento que o carro resvala no cotovelo de Luciano e se inicia a confusão. O UOL não conseguiu identificar sua defesa.
Momentos que antecedem o tiro, mostram que houve uma discussão após Thawanna questionar os policiais após Luciano ser atingido pelo carro da PM. Caseri explica que o policial que dirigia também tem responsabilidade pelo desfecho.
"Ele começa a abordagem de forma truculenta e desrespeitosa. Você espera um comportamento educado, mas por passar daquela maneira ele tem que se preocupar. Ele bate o retrovisor no braço da pessoa e reage daquele jeito", disse Mauro Caseri, ouvidor.
A vítima era mãe de filhos menores de 16 anos. Eles estão vivendo com os pais, e foram ao velório da mãe, no último domingo.
Thawanna trabalhava como ajudante geral e estava em um relacionamento com Luciano há três anos. Os dois moravam juntos na zona leste e planejavam se casar oficialmente.
Em vídeo obtido pelo UOL é possível ouvir a discussão entre policiais e o casal: "Vocês bateu {sic} em nós aqui, hein", diz Thawanna. A discussão antes do disparo acontece fora do enquadramento da câmera, mas é possível ouvir. O carro da Polícia Militar foi flagrado em baixa velocidade transitando pela via, enquanto o casal seguia de mãos dadas.
"Tá ficando maluca?", diz outra voz feminina no momento da discussão. Uma voz masculina também aparece no registro e, na sequência, se ouve um barulho de tiro. A partir desse momento, segundo relatou um familiar ao UOL, a polícia aborda o marido de Thawanna e o rende.
Após o disparo, uma grande movimentação na vizinhança chama a atenção, com gritos e orientações de moradores para acionar uma ambulância. Um homem, que parece não estar envolvido na discussão, alerta para a gravação do episódio: "nós tá vendo,viu. Tem câmera, viu?".
Marido diz que Thawanna esperou por socorro por cerca de 40 minutos. Baleada, a vítima agonizou na rua. Um vídeo flagrou um policial não identificado apontado um arma de grosso calibre contra ela, mesmo ferida e deitada.
Os agentes disseram que solicitaram atendimento, mas não informaram o tempo que levou para o socorro. Vítima foi encaminhada para o Hospital Tiradentes, mas não resistiu aos ferimentos e morreu.
Outras imagens obtidas pela reportagem mostram Thawanna deitada no chão, já baleada, enquanto um militar aponta uma arma contra ela. Parentes da mulher ainda relatam que os agentes foram violentos com os que estavam presentes durante a abordagem, e que o marido da vítima foi atingido com spray de pimenta.