Acesso ao lazer é direito humano e necessidade igual à saúde, diz especialista sul-africano
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em meio ao debate sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil, Makhaya Malema, 35, professor sênior da Universidade do Cabo e PhD em ciências do esporte, recreação e exercício, defende que o lazer deixe de ser visto como privilégio ou luxo e passe a ser reconhecido como direito fundamental, ao lado de saúde, educação e moradia.
Malema veio ao Brasil a convite do Sesc-SP para uma série de eventos e palestras alusivos ao Dia Mundial do Lazer, comemorado nesta quinta-feira (16). A data foi criada pela Organização Mundial do Lazer, órgão consultivo das Nações Unidas, há cinco anos.
Para o pesquisador, falta consciência, sobretudo em países do Sul Global, de reconhecer o lazer como necessidade básica e não como algo ligado a quem tem mais condições de pagar para participar de certas atividades.
"Não é possível falar de trabalho e lazer sem falar de justiça social. O lazer deve ser reconhecido como um direito humano. O bem-estar social não pode ser plenamente alcançado sem uma compreensão adequada do equilíbrio entre trabalho e vida e, sobretudo, sem garantir acesso ao lazer para todos, sem barreiras. Isso inclui pessoas com deficiência, jovens em situação de vulnerabilidade, idosos, mulheres e outras populações marginalizadas".
Para o especialista, cabe aos acadêmicos, aos gestores públicos e a todos que compreendem o potencial do lazer o papel de promover a mudança de percepção da prática para uma atividade de escolha livre, que não necessariamente exige pagamento.
"Lazer é qualquer atividade baseada na preferência individual. É preciso ampliar o entendimento sobre o que é lazer e quais são suas possibilidades. Só assim ele deixará de ser visto como privilégio".
O especialista defende também que é preciso uma educação para o lazer. Ele explica que ter tempo livre não quer dizer automaticamente que se fará bom uso dele.
"Quando as pessoas têm muito tempo livre, mas não têm informação sobre as possibilidades de lazer disponíveis, esse tempo perde sentido. É aí que entra a educação para o lazer: informar sobre oportunidades, desenvolver habilidades e garantir acesso a recursos".
Mas, segundo Malema, apenas informação não basta. É preciso também garantir infraestrutura, com espaços inclusivos, acessíveis e sem barreiras, onde todos possam participar sem isolamento. "Caso contrário, é um erro supor que o simples fato de ter tempo livre levará a práticas que promovam saúde e bem-estar".
Entre 32 publicações acadêmicas registradas pelo professor, a maior parte com o tema do lazer, uma trata um tema contemporâneo: o acesso a telas pelos mais jovens. Malema se debruçou sobre formas de lazer durante a pandemia de Covid-19 e seus impactos, principalmente, para a geração Z e para pessoas com deficiência.
Ele explica que, como no Brasil, na África do Sul o lazer migrou fortemente para o ambiente digital, para os jogos online e para outras atividades virtuais durante a pandemia. Porém, o professor não vê a questão como uma maneira menor de lazer, mas, sim, como o que ele chama de lazer passivo, que, se bem aproveitado, não se constituiria em um problema.
"De fato, vivemos uma geração menos conectada ao corpo, muito por conta da digitalização. Mas isso também abre uma oportunidade: usar a própria tecnologia para estimular formas mais ativas de lazer. Realidade virtual, realidade aumentada e outras ferramentas podem ajudar a transformar o tempo de tela em experiências mais ativas."
Malema explica que as principais evidências científicas em torno dos benefícios do lazer envolvem melhoria de indicadores de saúde, principalmente a mental. Ele, porém, avalia não existir resposta única que indique se uma atividade é mais efetiva que a outra para possíveis avanços.
"Lazer é escolha individual, depende das preferências, do acesso e das experiências de cada pessoa. Tanto o lazer ativo quanto o passivo podem contribuir para a saúde mental. Na pandemia, por exemplo, ambos foram fundamentais para manter as pessoas engajadas e emocionalmente equilibradas."
RAIO-X | MAKHAYA MALEMA, 35
PhD em Ciências do Esporte, Recreação e Exercício, professor sênior na Universidade do Cabo Ocidental.
É pesquisador na área de lazer e recreação, com foco em educação para o lazer, liderança e desenvolvimento de capacidades entre jovens com deficiências físicas.
Atuação em programas de recreação comunitária junto a ONGs e instituições de saúde voltadas a populações em contextos desfavorecidos.