Fabricante do Ozempic negocia retomar oferta de insulina ao SUS e cobra contrato até maio
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A Novo Nordisk afirma que retomará o fornecimento de insulina humana ao SUS (Sistema Único de Saúde) caso o Ministério da Saúde assine um contrato até o fim de maio. A pasta comandada por Alexandre Padilha diz que abrirá uma licitação nos próximos meses para a compra do medicamento usado no controle do diabetes.
A farmacêutica dinamarquesa reduziu as entregas para a rede pública nos últimos anos e havia anunciado que deixaria de fabricar o produto até o fim de 2026. O movimento acompanhou a reformulação do portfólio das principais fabricantes de insulina, que passaram a focar em emagrecedores. No caso da Novo Nordisk, o produto mais forte é o Ozempic.
A mudança no mercado teve forte impacto na oferta de insulina da rede pública e do programa Farmácia Popular. O SUS enfrenta ciclos de desabastecimento ao menos desde 2023. Para contornar a escassez no mercado local, o ministério passou a comprar medicamentos sem registro da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), importados principalmente da China.
A compra sem registro, porém, levanta críticas da indústria nacional e questionamentos de sociedades médicas sobre a qualidade dos produtos.
A proposta da Novo Nordisk é vender de 100 milhões a 125 milhões de canetas de insulina de julho de 2026 a março de 2028, produzidas na fábrica em Montes Claros (MG). Considerando os últimos valores de contratos públicos da empresa, a compra custaria mais de R$ 1,5 bilhão.
A farmacêutica diz que manterá o plano de interromper a fabricação deste tipo de insulina até o fim de 2026, caso não haja acordo com o governo Lula (PT). O comunicado da empresa foi entregue ao ministério e ao Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde).
Em nota, o Ministério da Saúde afirma que a licitação de insulinas está prevista para os próximos meses e que "não cabe, portanto, falar em instrumentos de pressão diante de um processo regular que obedece a critérios técnicos e de menor preço."
O ministério também diz que só comprou medicamentos sem registro após as fabricantes tradicionais anunciarem interrupção do fornecimento ao SUS. A pasta afirma que pediu prioridade máxima da Anvisa na análise de outras insulinas que aguardam o aval para comercialização.
"As medidas adotadas pela atual gestão do Ministério da Saúde garantiram -e garantem até hoje- a oferta regular e gratuita de insulina no SUS, revertendo o risco de desabastecimento após restrição da produção por parte das empresas", diz a pasta.
Em nota, a Novo Nordisk diz que dialoga com o ministério sobre postergar a eventual assinatura do contrato. "O prazo inicialmente considerado permite o planejamento produtivo necessário para a fabricação e o fornecimento contínuo das insulinas, dentro dos volumes e prazos esperados."
A farmacêutica saiu na frente no mercado bilionário dos emagrecedores ao lançar o Ozempic, mas perdeu faturamento com a chegada de concorrentes de nova geração, como o Mounjaro.
A Novo Nordisk, porém, afirma que não existe relação entre retomar a entrega de insulina ao SUS e as mudanças no mercado de emagrecedores.
Insulina sem registro
As insulinas sem registro dominam o tratamento oferecido pelo SUS. Os produtos são mais baratos, mas não passam pela análise de segurança, qualidade e eficácia da Anvisa.
A principal fornecedora sem registro é a distribuidora GlobalX, que entrega produto fabricado pela chinesa Zhuhai. Em 2025, o ministério determinou a troca de parte das canetas da empresa após receber uma série de reclamações sobre falhas e quebras, além de encontrar peças em caixas amassadas.
A GlobalX afirma que passou a utilizar canetas mais modernas para a aplicação da droga. A empresa também aguarda resposta da Anvisa sobre registro da sua insulina.
Outra empresa que entrega o medicamento sem registro da Anvisa é a Star Pharma. Como a Folha de S. Paulo revelou, a distribuidora teve como sócia até o fim de 2025 uma mulher que também representava alvos da operação Carbono Oculto, que apura a inserção do PCC (Primeiro Comando da Capital) na economia formal. A distribuidora de medicamentos entrega insulinas da China, México e Egito.
No comunicado enviado ao governo, a Novo Nordisk cita a produção no Brasil da sua insulina como trunfo, "no atual contexto global, marcado por instabilidades geopolíticas e desafios nas cadeias internacionais de suprimento". A farmacêutica também disse que para atender os prazos de entrega "é imprescindível que haja um contrato formalmente assinado até o final de maio".
O cálculo da dinamarquesa é que o volume oferecido atenderia toda a demanda por insulinas humanas do SUS. O Ministério da Saúde também projeta que reduzirá o uso deste tipo de medicamento para privilegiar a distribuição da insulina glargina, de ação prolongada e mais moderna, hoje fornecida pela Biomm por meio de parceria com a Fiocruz e a com a chinesa Gan&Lee.