Entenda os sintomas do Alzheimer em estágio avançado, como o do ex-presidente FHC

Por VITOR HUGO BATISTA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), 94, sofre de Alzheimer em estágio avançado. Por esse motivo, os filhos dele entraram com um pedido de interdição para a administração de seus bens, o que foi aceito pela Justiça de São Paulo na quarta-feira (15). Agora, Paulo Henrique Cardoso vai responder pela vida financeira e patrimonial do pai.

A fase avançada do Alzheimer é marcada por perda acentuada de memória, desorientação no tempo e no espaço, dificuldade de comunicação e dependência para atividades básicas do dia a dia, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.

Embora não exista um exame ou um marco claro que determine esta fase, o diagnóstico é feito a partir de sinais clínicos e da avaliação do grau de autonomia do paciente, e exige cuidados com alimentação, mobilidade e segurança do paciente.

O neurologista Rodrigo Schultz, presidente da Abraz (Associação Brasileira de Alzheimer) entre 2017 e abril de 2024, afirma que a fase avançada é a mais longa da doença e nem sempre se caracteriza por um quadro extremo.

"Ao contrário do que muitos acreditam, a pessoa nessa fase não se encontra totalmente dependente, acamada e sem conseguir dizer qualquer palavra. Esse é um estágio ainda mais tardio dentro da fase avançada, que pode levar anos para se instalar", diz.

Ainda assim, alguns sinais são considerados centrais. O principal deles é o comprometimento severo da memória. O paciente deixa de lembrar acontecimentos recentes, como o que fez no mesmo dia ou poucas horas antes.

A desorientação também se torna marcante. A pessoa não reconhece o tempo, o espaço e pode não identificar onde está ou quem está com ela.

Há também o empobrecimento da linguagem. As frases se tornam curtas, incompletas, e há dificuldade para encontrar palavras ou nomear objetos. Em muitos casos, a fala espontânea praticamente desaparece.

Além disso, há perda total da capacidade de julgamento e decisão. Diferentemente da fase moderada, em que o paciente ainda consegue opinar em algumas situações, aqui ele já não consegue planejar ou discernir.

Segundo Schultz, no campo comportamental, podem surgir apatia, agitação, agressividade, alterações no sono e redução do apetite.

Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que o tratamento de Alzheimer vai mais do que o uso de medicamentos, e passa por acompanhamento multiprofissional com neurologistas, gerontólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e psicólogos.

Segundo a gerontóloga Thaís Bento Lima, professora do curso de Gerontologia da USP e coordenadora dos grupos de apoio para cuidadores da Abraz, os cuidados na fase avançada da doença pedem atenção à alimentação, mobilidade, prevenção de lesões de pele, segurança do ambiente e ao bem-estar emocional.

ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO

Na fase avançada do Alzheimer, a perda de apetite é comum, assim como alterações na deglutição, que aumentam o risco de engasgos e aspiração de alimentos.

Segundo Lima, mudanças na consistência dos alimentos podem ser necessárias, além de incluir comidas atraentes e coloridas.

A posição durante as refeições também é decisiva. "É muito importante que um cuidador nunca dê alimentos quando o paciente estiver deitado", diz.

PREVENÇÃO DE LESÕES DE PELE

A imobilidade progressiva aumenta o risco de lesões de pele, conhecidas como escaras, especialmente em pacientes que passam longos períodos deitados ou sentados.

Segundo Lima, é muito importante manter a pele da pessoa hidratada. Além disso, a mudança frequente de posição é outra medida essencial, preferencialmente de duas em duas horas.

SEGURANÇA NO AMBIENTE DOMÉSTICO

Objetos cortantes, produtos de limpeza e itens pequenos devem ser mantidos fora do alcance.

Outras medidas incluem instalar proteções em tomadas, evitar fios soltos, manter o gás desligado e garantir boa iluminação, especialmente à noite. "É importante deixar luzes acesas durante a noite, pensando que a pessoa pode se levantar e caminhar", diz Lima.

A escolha de móveis firmes e calçados antiderrapantes também ajuda a prevenir quedas, um risco frequente nessa fase.

ESTÍMULOS COGNITIVOS E SENSORIAIS

Mesmo na fase avançada, o cérebro ainda responde a estímulos, especialmente aqueles ligados à memória afetiva.

Música, por exemplo, é um recurso valioso. "Tem que usar e abusar da música, principalmente daquelas que a pessoa sempre gostou", diz Lima.

Aromas como hortelã, canela e limão também podem evocar memórias e promover interação.

O contato com diferentes texturas e objetos familiares também contribui para manter alguma conexão com o ambiente e reduzir episódios de confusão.

CONVÍVIO SOCIAL E EMOCIONAL

A gerontóloga afirma que o isolamento deve ser evitado. Ela orienta que familiares e amigos mantenham visitas e interações, mesmo que o paciente não reconheça as pessoas. "Rir, interagir e conversar é um estímulo para o cérebro", diz.

Além disso, atividades simples, como ver álbuns de fotos, assistir a filmes antigos ou frequentar ambientes familiares, ajudam a preservar vínculos afetivos.