População que mora sozinha mais que dobra no Brasil desde 2012
RIO DE JANEIRO, RJ, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A população que mora sozinha no Brasil mais que dobrou no período de 2012 a 2025, saindo de 7,5 milhões para 15,6 milhões de pessoas, apontam dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A alta nesse intervalo de 13 anos foi de 109,8%.
O contingente do ano passado (15,6 milhões) supera o total de habitantes de um estado como a Bahia (14,9 milhões), a quarta unidade da Federação mais populosa.
As informações, divulgadas nesta sexta-feira (17), integram a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), uma das principais publicações do IBGE.
Os 15,6 milhões de lares unipessoais representam 19,7% do total de domicílios do país em 2025 (79,3 milhões). Ou seja, 1 em cada 5 endereços tinha apenas um morador.
Assim como o número absoluto, essa também é a maior proporção da série histórica. A participação teve aumento de 7,5 pontos percentuais ante 2012, quando os lares unipessoais respondiam por 12,2% do total.
A redatora e sexóloga Laís Conter, 37, decidiu morar sozinha há pouco mais de um ano, na região central de São Paulo. Gaúcha, viveu com a mãe em Porto Alegre, depois dividiu a casa com o ex-marido e, após o divórcio, passou seis anos compartilhando o apartamento com amigos.
"Morar sozinha é uma experiência de vida muito interessante. Quando surgiu a oportunidade, decidi experimentar", afirma.
"Quando você divide a casa, ocorre uma união de universos em que você precisa se adaptar a outra pessoa, como a rotina, a decoração e até a limpeza. Morando sozinha há muito mais liberdade. Você pode fazer tudo do seu jeito", acrescenta.
Para ela, o ponto negativo são os gastos com aluguel, condomínio e outras despesas da casa, que consomem mais de 30% de seu orçamento mensal. "A prioridade é sempre pagar o aluguel. Então, acabo deixando de fazer algumas coisas porque tenho essas despesas. Preciso fazer mais escolhas."
ENVELHECIMENTO IMPACTA, DIZ IBGE
A Pnad não pergunta o que leva uma pessoa a morar sozinha, mas o IBGE indicou que o processo de envelhecimento dos brasileiros é um dos fatores que podem explicar o movimento.
A proporção de idosos de 60 anos ou mais na população nacional aumentou de 11,3% em 2012 para 16,6% em 2025. Esse grupo etário ocupava 41,2% dos domicílios unipessoais no ano passado.
O avanço dos endereços com apenas um morador também é registrado em meio a um contexto de casamentos mais tardios, já apontado em outras pesquisas do IBGE.
"A pessoa chega a uma faixa etária em que muitas vezes os filhos já estão com as suas famílias, vivendo as suas vidas, ou a pessoa fica viúva e passa a viver sozinha. Em estados mais envelhecidos, a probabilidade de isso acontecer é muito maior", disse William Kratochwill, analista do IBGE responsável pela apresentação dos dados.
"Há essa história do envelhecimento e outras possibilidades, como a migração para trabalho, em que a pessoa vai sozinha primeiro e depois leva a família", acrescentou.
O Rio de Janeiro continuou como o estado com a maior proporção de lares unipessoais no ano passado (23,5%), seguido por Bahia (22,3%) e Rio Grande do Sul (21,9%). O menor percentual foi encontrado no Pará (13,4%).
As populações do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul são as mais envelhecidas do Brasil. No caso fluminense, William disse que a presença de universidades e empresas pode atrair migrantes que passam a viver sozinhos no estado.
A Pnad também permite um um olhar de acordo com o sexo. As mulheres correspondiam a 51,2% da população total do país em 2025, enquanto os homens totalizavam 48,8%.
Quando a análise considera apenas quem mora sozinho, o cenário se inverte. Conforme a pesquisa, os homens ocupavam a maioria dos domicílios unipessoais no país, presentes em 54,9% desses endereços, ante 45,1% das mulheres.
De acordo com William, uma das possíveis explicações é que mais mulheres ficam com a guarda dos filhos após a separação dos casais, enquanto os antigos parceiros passam a viver sozinhos.
DOMICÍLIOS NUCLEARES AINDA LIDERAM
Apesar do crescimento, os domicílios unipessoais não são o principal tipo de unidade doméstica no Brasil. Seguem atrás dos domicílios chamados pelo IBGE de nucleares.
Essa categoria abrange aqueles formados por casais com ou sem filhos ou enteados. Também são nucleares as unidades domésticas compostas por mãe com filhos ou pai com filhos ?as chamadas monoparentais.
Em 2025, o número de domicílios nucleares chegou a 52,1 milhões, o maior da série histórica, correspondendo a 65,6% do total.
A categoria, contudo, perdeu participação ao longo do tempo. Isso mostra que o avanço ocorreu em um ritmo menos intenso do que o verificado entre os lares unipessoais. Em 2012, os arranjos nucleares correspondiam a 68,4% do total (2,8 pontos acima de 2025).
A pesquisa do IBGE ainda traz informações sobre outras duas categorias. São os casos das unidades domésticas estendidas e compostas, que responderam por 13,5% e 1,1% do total no ano passado, respectivamente.
Um lar estendido é constituído pela pessoa responsável com pelo menos um parente, formando uma família que não se enquadra em um dos tipos descritos como nucleares.
Já um domicílio composto tem uma pessoa responsável com ou sem familiares e com pelo menos um morador sem parentesco, como agregado, pensionista ou empregado doméstico.