Peixes de 'sangue quente' podem superaquecer com crise climática

Por REINALDO JOSÉ LOPES

SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - O aquecimento das águas oceânicas provavelmente trará um risco ainda maior para a sobrevivência de alguns dos peixes mais espetaculares do mundo, como os atuns e os grandes tubarões-brancos, cujo organismo desenvolveu um tipo de "sangue quente" similar ao de mamíferos como nós.

Um novo estudo indica que, em mares mais quentes do que os atuais, os bichos terão dificuldade de dissipar esse calor interno, correndo o risco de superaquecer. Para continuar vivos, portanto, terão de procurar águas mais frias -justamente o que não haverá de sobra por causa do aumento da temperatura média global.

Esse cenário foi descrito nas páginas do periódico especializado Science, na última quinta-feira (16), por uma equipe internacional de pesquisadores. Liderados por Nicholas Payne, do Trinity College de Dublin, na Irlanda, os cientistas usaram uma base de dados para criar um modelo matemático que descreve como esses peixes muito especiais lidam com o calor interno e externo, chegando a conclusões não muito animadoras.

O alvo do estudo de Payne e companhia são os peixes designados como mesotérmicos. "Meso" em grego é "meio", e o nome foi atribuído porque, de certa forma, esses animais têm um tipo de metabolismo intermediário entre os animais ditos "de sangue frio", os ectotérmicos (como os demais peixes, répteis, anfíbios etc.), e os "de sangue quente" ou endotérmicos, como os mamíferos e as aves.

Embora não mantenham sua temperatura corporal numa faixa tão específica quanto a nossa, os peixes mesotérmicos contam com um sistema bastante eficiente de produção e manutenção de uma temperatura corporal relativamente elevada.

Elementos desse sistema, como o transporte relativamente mais eficaz de oxigênio pela molécula do sangue conhecida como hemoglobina, ajudam a explicar porque os músculos (e, portanto, a carne) de algumas espécies de atuns são avermelhados, e não esbranquiçados como os dos demais peixes. Outro processo-chave é a organização dos vasos sanguíneos, feita para manter a transmissão do calor do sangue que vem do coração para a parte superficial do corpo por meio da proximidade entre artérias e veias.

Essas características aparecem com mais frequência em peixes de grande porte, muitos dos quais (ainda que não todos) são predadores velozes e ativos, e podem explicar parte de seu sucesso como supercaçadores marinhos.

Na nova pesquisa, o grupo de cientistas recolheu dados sobre a taxa de metabolismo de diversas espécies marinhas, além de usar sensores para acompanhar uma espécie mesotérmica que pode chegar a 3,5 toneladas, o Cetorhinus maximus (conhecido como tubarão-peregrino ou tubarão-frade). No caso do C. maximus, que se alimenta de plâncton, tal como muitas baleias, eles recolheram informações tanto sobre a temperatura corporal quanto a das águas em volta dos bichos.

O modelo matemático que eles desenvolveram a partir desses dados indica, em primeiro lugar, que a mesotermia tem um custo energético alto para essas espécies - quase quatro vezes maior, em termos de gasto de energia do organismo, que o de espécies de peixes endotérmicos. Esse "estouro do orçamento" é "pago" graças à maior capacidade de predação desses animais, que deriva justamente da velocidade e agilidade proporcionadas pelo organismo mesotérmico.

O problema é que, quanto maiores são os peixes mesotérmicos, eles vão ficando cada vez menos "termalmente lábeis", como dizem os pesquisadores -ou seja, são menos capazes de dissipar calor. Se precisarem esfriar o corpo, portanto, terão mais dificuldade para isso.

A peça final desse quebra-cabeças é a temperatura da água -quanto mais alta, maior ainda é a dificuldade do peixe para evitar o superaquecimento. Dependendo da fisionomia e do tamanho do animal, e também da temperatura alcançada pela água, ele terá de adotar estratégias como diminuir o seu ritmo de natação se não quiser ficar com uma "febre" potencialmente letal.

Isso já explicaria, aliás, porque muitas dessas espécies já tendem a preferir águas mais frias e/ou mais profundas (de modo geral, a temperatura diminui com a profundidade). O problema é que, além de esses habitats correrem o risco de ficar mais escassos com a própria crise climática, procedimentos como diminuir o ritmo de movimentação podem afetar justamente a vantagem competitiva dessas espécies mesotérmicas frente a outros tipos de predadores.

De quebra, são espécies que -a exemplo dos próprios atuns- sofrem tanto com a pressão de pesca sobre elas mesmas quanto com a que afeta peixes menores que são suas presas. Trata-se de mais um motivo, portanto, para pensar em estratégias para sua conservação.