Médico desenha em receitas para pacientes que não sabem ler e cria plataforma em Pernambuco
PETROLINA, PE (FOLHAPRESS) - "Meu patrão está sentindo o quê?" É assim que o médico da família e comunidade Lucas Cardim, 39, aborda quem entra em seu consultório. A expressão transparece uma característica do seu atendimento, a aproximação com os pacientes. Foi essa busca por adaptar o linguajar de "doutor" que o fez criar uma plataforma digital que possibilita receituários ilustrados com as indicações de tratamento.
Em seus atendimentos no sertão de Pernambuco, Cardim se deparou com um problema de acesso à saúde que não está na falta de consultas ou medicamentos. Muitos pacientes que buscam o posto de saúde na zona rural de Petrolina, a 712 km do Recife, têm dificuldade para ler o receituário.
A primeira estratégia que adotou foi desenhar à mão nas receitas. Além do nome dos medicamentos, rabiscava símbolos para sinalizar os turnos que cada um deveria ser tomado: a xícara de café para os da manhã e uma lua com estrelas para os da noite. A quantidade era indicada com bolinhas, assim o paciente contava como quem cata feijões.
"Muitos profissionais desenham para os seus pacientes, isso não é uma coisa nova. Mas outros não. Seja por excesso de demanda, seja por carências de formação, eles não têm esse hábito", diz Cardim.
Filho de mãe sertaneja e neto de um não letrado, o recifense diz que as memórias no interior o fizeram ter muito afeto pela região. Medicina foi sua segunda formação; a primeira foi jornalismo, ambas em universidades públicas.
Como desenhar tomava muito tempo das consultas e até deixava alguns pacientes envergonhados, o médico buscou otimizar o processo.
Fez contato com Davi Rios, amigo de infância, que é engenheiro de software no Google. Juntos desenvolveram a plataforma Cuidado Para Todos, (cuidadoparatodos.com.br), em que é possível gerar receituários ilustrados em minutos.
Por meio do site, os profissionais acessam gratuitamente o sistema, que permite montar receituários com desenhos, fotografias e outros elementos. Também é possível colocar QR-codes que direcionam para vídeos com o passo a passo de aplicações, como seringas.
O sistema, que começou com três ícones, já contempla mais de 200 medicamentos. Segundo o idealizador, a aceitação tem sido boa principalmente por quem faz tratamento de doenças crônicas.
Para quem tem asma, há detalhes sobre o uso da bombinha de ar. Aos diabéticos, explica-se desde o armazenamento da insulina à aplicação no lugar correto.
"Eu me surpreendi porque logo no primeiro dia que eu cheguei aqui ele preparou uma pasta com todos os exames, receitas e tudo relacionado aos problemas", diz o paciente Severino Leal de Brito Neto, 52. Como é diabético, assiste aos vídeos para tomar a insulina com a caneta.
Cardim faz adaptações para cada um que chega. Enquanto a Folha acompanhava sua rotina, atendeu um idoso que iria iniciar o tratamento para parar de fumar. Para ele, explicou como fazer o rodízio dos adesivos no corpo a partir de um paralelo com a plantação da roça, que é dividida por piquetes.
Já José Manoel de Barros, 64, queixou-se de dor de barriga e vômitos. Morador de Salgueiro, a 237 km dali, recebeu indicações para o tratamento da água que consome.
Com a receita em mãos, o aposentado disse que foi sua primeira vez atendido assim. "O cabra não sabe ler, sabe mal assinar o nome. Foi importante demais para mim isso aqui, eu estou sabendo como tomar o medicamento".
No receituário que Barros recebeu, e que a Folha pode verificar, não mostrava apenas o nome do medicamento e a dose, mas também uma orientação por escrito de tomar água filtrada. E mais: ao lado, um desenho de um copo direto da torneira com um grande X vermelho em cima, indicando ser um erro, seguido dos desenhos de uma água fervendo na panela e outro do líquido passando por um filtro.
No Brasil, 29% da população de 15 a 64 anos têm dificuldade para entender textos simples, segundo o Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional), estudo coordenado pela Ação Educativa e que teve início em 2001. Por isso, o desejo dos criadores da Cuidado Para Todos é que ela seja implantada no SUS (Sistema Único de Saúde) pelo país.
"A gente quer doar a tecnologia para o Ministério da Saúde para que ele pegue os códigos e consiga fazer adaptações dentro do PEC [Prontuário Eletrônico do Cidadão]", diz Cardim.
A plataforma já está presente na saúde pública de dez municípios e três distritos indígenas. Além de Pernambuco, são os estados de Alagoas, Bahia, Santa Catarina, Sergipe e São Paulo. Mas, o formulário padrão é aberto para qualquer lugar do país, sem vínculo institucional.
Segundo o médico, é possível afirmar que em Bebedouro, comunidade onde atende, mais da metade dos pacientes que antes era descompensada com a glicemia conseguiu estabilizar a situação.
O que impressiona, conta, é que usam os mesmos medicamentos que já tinham acesso anteriormente, mas agora com mais informação.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.