Curitiba usa plantas para criar estação de esgoto 'lixo zero'

Por HELENA CARNIERI

CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - Transformar em "lixo zero" um setor que gera volumes imensos de resíduo. Em Curitiba, uma usina de tratamento de esgoto que usa soluções ecológicas está sendo ampliada com a meta de se tornar uma das maiores do mundo em número de pessoas atendidas.

A fórmula adotada na capital do Paraná foi o plantio de mudas de cana-do-reino, planta que digere a parte sólida do esgoto tratado, chamado de lodo. A Estação de Tratamento de Esgoto CIC Xisto, no bairro Tatuquara, atende a bacia do rio Barigui e atingirá 778 mil pessoas quando chegar a sua capacidade máxima.

"Hoje, a estação recebe 10 toneladas de lodo por dia, numa área que representa quase metade de Curitiba", explica o coordenador de obras da Sanepar, Murilo Cunico.

A empresa de economia mista, com capital aberto na B3, é a responsável pela estação de tratamento. O sistema utilizado recebeu financiamento do Fundo Clima e foi convidado a se apresentar na COP30 (Conferência Mundial do Clima), em Belém.

O plantio das mudas está em andamento e vai cobrir uma área de 25 mil metros quadrados, o equivalente a 3,5 campos de futebol, com 110 mil mudas da planta.

A vantagem é a de tornar o material "lixo zero", ou seja, nada seria enviado para aterros sanitários, já que a parte líquida é tratada e volta para o leito do rio, e a parte sólida (ou lodo) é 98% decomposta por bactérias e absorvida pelas plantas.

Cunico explica que o funcionamento básico de uma estação de tratamento é dividido entre a fase líquida, quando se dá a transformação do esgoto, e a fase sólida. A fase líquida, diz, é a grande massa que muitas vezes se vê poluindo rios. "Aqui a gente trata, clarifica, deixa próprio para lançamento e devolve ao rio."

No projeto inicial da ampliação, era necessária uma área muito maior para o tratamento do esgoto. A compactação do sistema foi possível graças a outra mudança no primeiro estágio do processo.

É a fase líquida, em que dispositivos chamados "mídias plásticas", semelhantes aos bobs de cabelo, servem de criadouro para amplificar a atuação das bactérias que se alimentam dos dejetos.

Já a fase sólida é o lodo resultante do tratamento, que cada vez mais é visto como um recurso ativo. Para tratá-lo, a escolha da planta cana-do-reino, uma macrófita aquática, explica-se por ser uma planta com bastante apetite para decompor o lodo.

"Ela vai consumindo todo ele, porque o que tem no lodo? Tudo de que a planta precisa: nutrientes, nitrogênio, fósforo. Ela vai se autossustentando com aquilo, que serve de alimento. É como uma fertilização constante, e por isso elas crescem tanto", diz o coordenador.

Por baixo das mudas, passa um sistema de tubulação que transporta diariamente mais lodo, por meio de válvulas e pequenos chafarizes que borrifam o material que vai alimentar as plantas.

Enquanto isso, o líquido é drenado e volta para o processo de tratamento, enquanto o lodo fica preso nas raízes da planta e passa a alimentá-la.

Jardins de mineralização

Apesar de as "wetlands" como solução para o tratamento do esgoto existirem há 40 anos, com destaque para o amplo uso na França.

No Brasil, as primeiras foram criadas há 25 anos, e hoje ganham mais atenção com a necessidade de obter maior eficiência de gestão de resíduos e geração de energia, em oposição à queima ou secagem do resíduo sólido dos dejetos.

Outro ponto a favor do sistema adotado, também chamado de jardins de mineralização, é a eficiência energética.

"Do ponto de vista de implantação e do ponto de vista operacional, jogar o esgoto para um lado e para o outro gasta muita energia", diz Cunico. "Mas se você reduz tudo isso, economiza energia e ganha eficiência, com maior proteção ambiental."

Após o crescimento máximo das plantas, previsto para daqui a sete anos, elas serão cortadas para dar lugar a uma nova plantação. Os arbustos cortados gerarão um novo resíduo, que na verdade é mais um recurso: uma massa volumosa de matéria orgânica.

"Ela tem potencial energético ao se colocar em câmaras de biodigestão ou fazer a compostagem, podendo gerar fertilizante orgânico", afirma o coordenador da obra.