Destombamento da Escola Panamericana opõe herdeiros de fundador e arquiteto

Por PRISCILA MENGUE E ANDRÉ FLEURY MORAES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma votação marcada para a próxima segunda-feira (27) sobre a manutenção do tombamento da antiga Escola Panamericana de Arte e Design em Higienópolis, área nobre do centro de São Paulo, colocará em lados opostos os dois principais nomes ligados à história do espaço: os herdeiros de Enrique Lipszyc, fundador da instituição, e Siegbert Zanettini, 91, arquiteto que projetou o prédio.

A deliberação será retomada pelo Conpresp (conselho municipal de patrimônio) após pedido de vista do presidente do órgão, o procurador Ricardo Ferrari, em fevereiro.

O voto dele pode definir o julgamento, que está em 4 a 3 pela reversão do tombamento, defendida pela Keeva Investimentos ?empresa dos herdeiros de Lipszyc, morto em 2020. Há dois anos, na reunião que definiu o tombamento, Ferrari votou pelo reconhecimento do imóvel como patrimônio cultural. A outra conselheira que também não se manifestou neste ano teve o mesmo posicionamento à época.

O estudo de tombamento ocorreu a partir de pedido da Appit (Associação de Proprietários, Protetores e Usuários de Imóveis Tombados), em 2021, em meio à iminência da demolição de outra unidade da escola, na rua Groenlândia, nos Jardins. O imóvel foi demolido antes da votação, contudo, dando lugar a um condomínio de apartamentos de alto padrão.

ESTÉTICA 'HIGH-TECH'

O prédio da Panamericana em Higienópolis costuma ser descrito por especialistas como um exemplar de arquitetura em aço e de estética "high-tech". Entre as principais referências internacionais dessa proposta estão o Centro Pompidou e a pirâmide do Museu do Louvre, respectivamente dos anos 1970 e 1980, em Paris.

A Panamericana de Higienópolis foi inaugurada em 1998, em meio às celebrações dos 25 anos da escola. Anos antes, Enrique Lipszyc contou à Folha de S.Paulo que buscava "um ambicioso projeto estético" para as suas unidades.

O edifício tem quatro andares e características próprias, como o "esqueleto" metálico exposto na parte interna e na fachada, as instalações hidráulicas e elétricas aparentes e os "túneis" cilíndricos de acesso. A decisão que deu aval ao tombamento considerou que o prédio é uma obra pós-moderna e importante para a arquitetura paulistana do fim do século 20.

Na avaliação do professor Wladimir Capelo Magalhães, da Universidade de Fortaleza, o projeto desnuda a estrutura em aço, ao transformar um elemento coadjuvante em principal. "Ele [Zanettini] era muito pautado em repensar modelos construtivos", conta o pesquisador, autor de dissertação sobre a arquitetura em aço no Brasil.

'NINGUÉM VAI DEMOLIR', DIZ ADVOGADO DA KEEVA

"O que eu vejo, com todo respeito, é que isso se tornou uma discussão ideológica", disse à Folha de S.Paulo o advogado Luiz Carlos Andrezani, que representa a empresa. "Não existe fundamento para, tecnicamente falando, dizer que tem de ser tombado", completou.

Ele afirmou à reportagem, ainda, que o prédio será mantido: "Ninguém vai demolir coisa nenhuma". Ao Conpresp descreveu o tombamento como uma "restrição permanente ao direito de propriedade".

O prédio foi incorporado à ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) neste ano. Ao anunciar a novidade, no fim de 2025, o grupo educacional chamou o espaço de um "campus histórico". "Será revitalizado e integrado [...], preservando sua identidade arquitetônica e cultural", completou.

Em nota, o grupo disse reconhecer a "importância simbólica e cultural" do espaço para a cidade e a comunidade do entorno, e destacou que não tem ingerência sobre o destino do imóvel.

No dia 11, apoiadores do tombamento promoveram um ato em frente à escola, com a presença de Zanettini. O arquiteto chegou a declarar, em vídeo publicado pelo coletivo Pró-Higienópolis, que o prédio pode virar "mais massa construída, sem nenhum critério" caso o conselho aceite o recurso da Keeva.

O núcleo paulista do Docomomo ?entidade internacional de preservação da arquitetura moderna? emitiu uma carta a favor do tombamento. A organização descreveu o espaço como um "capítulo singular da arquitetura brasileira do período ao reinterpretar, em contexto local, debates internacionais sobre tecnologia, industrialização, cultura pop e expressão arquitetônica".

VERTICALIZAÇÃO E MUDANÇAS NO BAIRRO

A decisão ocorre em meio a uma nova onda de verticalização em Higienópolis, impulsionada pela Lei de Zoneamento, que incentiva a construção de apartamentos perto de estações de metrô e corredores de ônibus. Somente a uma quadra da escola, três empreendimentos estão em obras.

Em resposta, uma parte da vizinhança e outros apoiadores têm se mobilizado. Em 2025, foram realizados atos contrários à implantação de duas torres junto ao casarão do antigo Dops (Departamento de Ordem Política e Social), na rua Piauí.

Professor de arquitetura e urbanismo no Mackenzie, Antonio Claudio Fonseca considera que Higienópolis passa por uma nova onda de verticalização. Distinta da anterior, caracterizada pelos projetos de arquitetos renomados, como Vilanova Artigas e Franz Heep, contudo. "Antes estava substituindo a qualidade pela qualidade, agora está substituindo a qualidade pela quantidade", comparou.

O QUE FOI DISCUTIDO NO CONPRESP

Na reunião de 23 fevereiro, o relator do processo e conselheiro pelo Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia), Wilson Levy, votou por reverter o tombamento do prédio. Ele mencionou especialmente o parecer técnico do arquiteto Pedro Taddei, de 2022, contratado pela empresa da família Lipszyc.

"O imóvel não possui características únicas para a linguagem de exoestruturas de aço, tampouco é um exemplar primitivo ou mesmo inaugural. Nem simboliza uma solução projetual rara", afirmou. Destacou ainda que há outra obra de Zanettini tombada na cidade: o Hospital Maternidade-Escola Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte.

O arquiteto foi professor da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) por cerca de 40 anos, considerado uma referência na arquitetura de estruturas de aço como a da Panamericana.

É também conhecido por projetos de hospitais, como unidades da rede Albert Einstein e São Camilo.

Na mesma reunião, o representante do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), Silvio Oksman defendeu a manutenção do tombamento, destacando o que chamou de um projeto "corajoso" e de valor fundamental. "Talvez seja o maior símbolo da arquitetura pós-moderna de São Paulo", ressaltou.

Com o tombamento, a escola precisa de aval do departamento ou do conselho de patrimônio cultural municipal para qualquer projeto de intervenção significativo, como reforma, demolição e ampliação.

Segundo levantamento do Departamento do Patrimônio Histórico da Prefeitura de 2021, o prédio está em bom estado de conservação e "pouco alterado", em relação ao original.