Servidores rejeitam proposta da USP para encerrar greve e ampliam demandas
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A greve dos servidores da USP (Universidade de São Paulo) continua. Durante a tarde desta quarta-feira (22), a reitoria tentou encerrar o movimento, mas sem sucesso.
Na mesa de negociação, a gestão de Aluisio Segurado manteve a proposta apresentada na última semana: conceder uma gratificação a todos os funcionários.
A paralisação teve como estopim justamente um bônus, mas o aprovado para professores da instituição, chamado de Gace (Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas).
Essa medida, votada pelo Conselho Universitário em 31 de março, criou um pagamento adicional de R$ 4.500 voltado a docentes que assumirem projetos considerados estratégicos, como a oferta de disciplinas em inglês e ações de extensão.
A bonificação aos professores seria paga mensalmente pelo mesmo período da gratificação. Inicialmente, dois anos, podendo ser prorrogada. Pela proposta da reitoria, o valor total reservado para os funcionários seria igual ao dos professores, ou seja, R$ 238,44 milhões por ano.
Essa verba seria dividida pelo total de servidores. Assim, se o valor da Gace for o anunciado, daria cerca de R$ 1.600 mensais para cada um dos 12 mil funcionários.
Antes do encontro com a reitoria, a partir das 13h30, o Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo) havia realizado uma assembleia, que decidiu rejeitar a proposta e ampliar a lista de reivindicações a serem levadas à reitoria.
Greve de servidores atinge 53 universidades e institutos federais Se antes a questão principal era a isonomia em relação aos docentes, isso foi expandido para garantir a todos os trabalhadores o direito ao BUSP -cartão utilizado para embarque gratuito nos circulares da Cidade Universitária-, além do fim da escala 6x1 para funcionários terceirizados.
A universidade não mudou sua proposta inicial, e a greve continua. Os servidores também exigiram que a instituição ouça as pautas dos estudantes, que também estão paralisados. Essa negociação, porém, deve ser mais complicada.
O movimento dos estudantes já chegou a 105 cursos, na capital e no interior. Assembleias ainda serão realizadas em dezenas de graduações. Dentre as faculdades sem aulas está a Escola Politécnica, dos cursos de engenharia, historicamente avessa a movimentos do tipo.
As diversas unidades e campi têm algumas pautas unificadas: melhores condições de permanência, com aumento no valor das bolsas e investimento na qualidade dos serviços oferecidos nos restaurantes universitários. Nas últimas semanas, surgiram denúncias de refeições estragadas e com larvas sendo servidas, especialmente na Faculdade de Direito. As unidades são terceirizadas.
Outro tema que incomoda os alunos é a minuta que visa regulamentar os espaços utilizados por centros acadêmicos. Ela tramita em órgãos internos da universidade e pode acabar com o comércio realizado pelas entidades.
Porém, são as demandas individuais que preocupam gestores da USP -e elas só crescem.
Na EACH (Escola de Artes, Ciências e Humanidades), a USP Leste, por exemplo, os alunos pedem a criação de uma moradia estudantil própria devido à distância do campus, em Ermelino Matarazzo, da Cidade Universitária, no Butantã.
O que diz a reitoria
A gestão de Aluisio Segurado afirma que tem atuado na valorização da carreira dos servidores técnicos e administrativos, com a adoção de medidas voltadas à melhoria das condições de trabalho e de remuneração.
Entre as iniciativas, a USP destaca o reajuste do vale-refeição, que passou de R$ 45 para R$ 65 por dia a partir de abril. O vale-alimentação foi atualizado de R$ 1.950 para R$ 2.050, e o auxílio-saúde teve aumento de 14,3%.
No mês de março, a reitoria informa ter recebido um plano de valorização da qualificação, elaborado por um grupo de servidores. O documento encontra-se em análise quanto à sua viabilidade técnica e econômico-financeira. A valorização pretendida será integrada ao plano de carreira da categoria. "Cabe, contudo, destacar que o calendário eleitoral de 2026 veda a concessão de benefícios no corrente ano", diz a instituição.
Duas demandas recorrentes da categoria também estão em fase de implementação, segundo a reitoria: o programa Renova USP e o novo sistema de mobilidade interna.
O Renova USP retoma ações de capacitação e acompanhamento para readaptação funcional. A iniciativa visa atender servidores que enfrentam limitações de saúde ou que atuam em funções em extinção, oferecendo formação específica para reinserção em atividades compatíveis.
Já o novo sistema de mobilidade interna busca atender outra demanda histórica dos servidores, promovendo a realocação de pessoal de forma transparente e alinhada às necessidades institucionais e aos interesses dos trabalhadores.
Levantamento realizado pela USP indica que, de 86 unidades e órgãos administrativos da universidade, 69 registraram nenhuma ou baixa adesão de servidores ao movimento, enquanto 17 apresentaram adesão de moderada a alta.
Sobre as demandas dos estudantes, a gestão afirma que, em 2023, foi estabelecida uma política para dar suporte à permanência e às atividades de formação estudantil, incluindo bolsas e auxílios.
Os alunos contemplados são selecionados a partir de um questionário que considera, entre seus parâmetros, situações de vulnerabilidade socioeconômica. Entre 2023 e 2025, 41,7% dos contemplados eram de famílias com renda inferior a meio salário mínimo paulista (R$ 1.804), segundo a USP.
Em relação aos restaurantes universitários, a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento informa que equipes técnicas estão realizando visitas às unidades para apurar as ocorrências relatadas, e medidas administrativas estão sendo tomadas.
Quanto à minuta dos espaços estudantis, a instituição afirma que não pretende cercear a liberdade das entidades, mas garantir segurança jurídica.