Delegada esposa de réu por matar gari em BH pode perder cargo

Por Folhapress

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A delegada Ana Paula Lamego Balbino, esposa de Renê da Silva Nogueira Júnior, réu pela morte do gari Laudemir de Souza Fernandes, é alvo de uma investigação interna da Polícia Civil de Minas Gerais.

A medida foi formalizada nesta quinta-feira (23) e pode resultar em demissão. A abertura do Processo Administrativo Disciplinar foi assinado pela Corregedoria-Geral e publicado no Diário Oficial do Estado.

O procedimento deve investigar se a servidora pública cometeu infrações. Segundo a portaria, há indícios de que ela tenha cometido transgressões disciplinares graves, descumprido deveres básicos e adotado condutas incompatíveis com o cargo.

Três delegados foram escolhidos para compor a comissão de apuração. Rodrigo Baptista Damiano, Karla Silveira Marques Hermont e Daniel de Andrade Ribeiro Teixeira devem coletar provar, ouvir a servidora e elaborar um relatório final nos próximos dias.

Ana Paula estava afastada desde agosto do ano passado por questões de saúde. Ela se licenciou dois dias após o marido ser preso, renovou a licença em dezembro e retornaria às atividades em fevereiro deste ano. O UOL entrou em contato com a Polícia Civil para saber sobre o retorno da delegada.

Apesar do afastamento e investigação, a mulher mantém seus rendimentos mensais. Em outubro, por exemplo, ela recebeu salário bruto de R$ 25,4 mil.

Polícia apontou que Renê usou a arma de fogo da esposa para matar Laudemir. Além disso, a Corregedoria apontou que Ana Paula usou sistema da polícia para acompanhar a morte de Laudemir. Para a investigação, ela sabia do crime cometido pelo marido, mas não o denunciou, nem efetuou a prisão dele.

Defesa de Ana Paula diz que deve se manifestar após a regular intimação e disponibilização da acusação. "Agora é que será concedida a ela o contraditório e a oportunidade de se defender, o que não ocorreu anteriormente", adiantou o advogado Leonardo Avelar Guimarães.

Renê admitiu o crime em agosto de 2025, mas depois mudou de versão. Primeiro, ele admitiu que atirou e matou Laudemir -essa é a versão aceita pela Justiça. Depois, ele falou que o caso havia sido um acidente, além de narrar que atirou para o alto após uma discussão com um grupo de garis, e que só soube da morte horas depois. Por fim, ele alega que Laudemir teria sido morto por membros de uma facção de Minas.

Ele disse que confessou o crime por ter sido ameaçado por policiais. O ex-empresário relatou que os agentes teriam dito que poderiam prejudicar sua esposa, caso não fizesse o que eles queriam. Disse também que estava andando armado por causa de ameaças de um antigo sócio, que seria envolvido com o jogo do bicho na capital mineira.

O Tribunal de Justiça determinou que o acusado vá a júri popular, ainda sem data marcada. A decisão foi proferida pela juíza Ana Carolina Rauen Lopes de Souza, do Tribunal do Júri 1º Sumariante de Belo Horizonte, mas cabe recurso.

A juíza manteve a acusação de homicídio triplamente qualificado. Para ela, as provas colhidas pela investigação comprovam que o empresário matou Laudemir por motivo fútil, causou perigo comum ao atirar em via pública e utilizou recurso que dificultou defesa da vítima.

Além da acusação de homicídio triplamente qualificado, ele responderá por mais três crimes: ameaça contra a motorista do caminhão de lixo, tentativa de fraude processual e porte ilegal de arma de fogo.

Na época, Defesa de Renê diz ter recebido com surpresa a decisão da Justiça mineira. Em nota, os advogados Bruno Rodrigues e Thiago Minagé alegaram haver "inúmeras alegações e comprovações de irregularidades formais na condição das investigações" do caso, mas ressaltou respeitar "a referida decisão e informamos que manusearemos o respectivo recurso para que os excessos acusatórios e as provas nulas sejam reconhecidas e retiradas dos autos".