Entenda como devoção por São Jorge atravessou religiões e se tornou símbolo de resistência popular

Por NICOLE LOPES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Celebrado em 23 de abril, São Jorge se tornou um dos santos mais populares do país. Presente tanto na tradição católica quanto nas religiões de matriz africana, o chamado santo guerreiro é associado à proteção cotidiana e a batalhas que vão além do campo espiritual.

"São Jorge está na esquina, no butiquim, no terreiro, na igreja, na roda de samba. Ele encarna a sociabilidade da rua", explica o historiador Luiz Antonio Simas. Para ele, em um momento em que as cidades são disputadas, a fé transforma a rua em ponto de encontro e reconstrução de sentido coletivo. Luiz lança neste mê o livro "São Jorge: o santo do povo e o povo do santo" (Editora Planeta, 272 páginas).

Na umbanda e no candomblé, São Jorge é associado a Ogum, orixá do ferro, da guerra e da tecnologia. A aproximação surgiu como estratégia de resistência durante o período escravocrata. Proibidos de praticar seus cultos, africanos escravizados e seus descendentes passaram a recorrer a santos católicos como forma de disfarce, mantendo suas crenças e rituais sob a aparência de devoção cristã.

Segundo a tradição, Jorge teria nascido na Capadócia, atual Turquia, e se tornado um soldado de destaque no exército do imperador romano Diocleciano. Entre as lendas mais conhecidas está a luta contra o dragão, onde o cavaleiro promete matar o monstro que aterrorizava a população da cidade em troca da conversão dos habitantes ao cristianismo. A história remete à clássica narrativa do triunfo do bem sobre o mal.

Em São Paulo, a devoção passa também pelo futebol. O Corinthians tem São Jorge como padroeiro e cultiva uma relação próxima com o santo. Essa relação ganhou dimensão monumental e neste ano, a escultura de aço de São Jorge, com cerca de 25 metros de altura, foi remontada no entorno da Neo Química Arena, na zona leste, reforçando a presença do santo no imaginário do clube.

Além disso, a sede social do clube, a capela dedicada ao santo e a chamada "biquinha", fonte de água frequentada por torcedores, se tornaram pontos simbólicos da cultura corintiana.

Hoje, devotos em várias partes do país agradecem e atribuem a superação de suas aflições e batalhas cotidianas ao santo guerreiro. Esse é o caso da carioca Marcia Gargalhone, hoje moradora de Brasília (DF), que retorna ao Rio todos os anos para celebrar a data. "Aprendi isso vendo minha avó, que era umbandista, e vinha agradecer todos os anos. Sempre acreditei na força de São Jorge e que ele nos ajuda a combater todos os dragões que aparecem nas nossas vidas." A devoção é tão forte que ela deu ao próprio filho o nome de Jorge.

Em Quintino, na zona norte do Rio de Janeiro, foi celebrada na madrugada desta quinta-feira a Alvorada de São Jorge. A igreja matriz do bairro promoveu um show de luzes com cerca de 300 drones sobrevoando os fiéis.

Embora amplamente celebrado, São Jorge não integra o santoral oficial da Igreja Católica desde 1969, quando sua celebração foi reclassificada como memória facultativa. A mudança, segundo o Vaticano, se deu pela escassez de registros históricos sobre sua vida, mas não alterou sua veneração.

O dia 23 de abril marca, segundo a tradição, a data de sua morte. Jorge teria sido decapitado em 303 d.C., na atual Turquia, após se recusar a renunciar à fé cristã durante as perseguições do Império Romano.

Mais do que um personagem religioso, São Jorge tornou-se símbolo de resistência cotidiana, "saindo dos empolados salões da corte, dos altares das igrejas e chegando às ruas da cidade, fincando sua soberana bandeira", como escreve o historiador Luiz Antonio Simas em seu novo livro.