O que a morte da modelo Ana Luiza Mateus mostra sobre a escalada de violência que leva ao feminicídio
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A morte da modelo Ana Luiza Mateus, 30, em um prédio na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, reacendeu o alerta sobre sinais que podem anteceder o feminicídio. O principal suspeito, Endreo Lincon Ferreira da Cunha, namorado da vítima, chegou a ser preso em flagrante e morreu horas depois dentro na cela.
As investigações apontam até aqui que o relacionamento era marcado por conflitos frequentes e pela tentativa da vítima de romper a relação, o que reforça um padrão recorrente em casos semelhantes.
Segundo o delegado Renato Martins, havia um histórico consistente de violência e instabilidade entre o casal, confirmado por testemunhas e registros. Além da dinâmica abusiva, o histórico de Endreo reforça o contexto de risco: ele acumulava mais de 20 anotações criminais, já havia sido condenado anteriormente e também respondia por crimes como estupro, sequestro, cárcere privado e violência doméstica.
Para Estela Bezerra, secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres do Ministério das Mulheres, o feminicídio raramente é um ato isolado e costuma ser precedido por sinais claros de escalada da violência. "Antes da agressão física, há impedimento de usar roupa, privação de liberdade, violência psicológica, sinais de posse", afirma.
Esses indícios, segundo ela, funcionam como alertas importantes.
A secretária destaca ainda que a violência evolui gradualmente até chegar ao desfecho mais grave. "Antes de chegar o feminicídio, a violência chega de várias maneiras, existe um termômetro. Quando a mulher é espancada pela primeira vez, ela já está próxima de ser executada", explica.
Ela diz que a violência psicológica é frequentemente subestimada, embora seja central nesse processo, e aponta o isolamento como um dos fatores mais perigosos. "O isolamento faz com que a vítima já não tenha mais para onde correr."
Outro ponto crítico é o momento da separação, considerado de alto risco para a mulher. Dados indicam que 64% dos feminicídios ocorrem dentro de casa, ambiente onde o agressor se sente mais seguro para agir. Por isso, Bezerra orienta que, em situações de medo, o término seja feito em locais públicos e com apoio. "É no ambiente privado que o agressor se sente à vontade."
Ela também ressalta a importância da denúncia como forma de proteção e registro. Mesmo casos de violência psicológica devem ser formalizados para criar um histórico do comportamento do agressor.
Ana Luiza relatou, como mostrou a Folha, que o namorado tinha ciúmes de fotografias publicadas nas redes sociais e disse a amigos que estava em uma "gaiola de ouro" poucos dias antes de ser encontrada morta. Na noite anterior ao crime, chegou a comprar uma passagem para voltar à cidade natal após sofrer uma agressão, segundo familiares.
Bezerra reforça que, embora conflitos sejam comuns em relacionamentos, há limites claros que não podem ser ultrapassados. "Um relacionamento abusivo demonstra desde sempre limites que são desrespeitados o tempo todo, inclusive a integridade da pessoa."
Ao relembrar outros casos, como o de Tainara Souza Santos, ela destaca que o feminicídio costuma ser marcado por extrema violência e desfiguração do corpo, evidenciando o ódio que caracteriza esses crimes.
Segundo a secretária, os sinais geralmente são perceptíveis não apenas para a vítima, mas também para pessoas próximas. "O relacionamento abusivo ameaça a integridade física e moral da pessoa, não é difícil de identificar. O difícil é reconhecer que aquela atitude é perigosa."